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“Ganhamos voz”, diz irmã no cargo mais alto ocupado por mulher no Vaticano

Freira francesa Nathalie Becquart participará do Sínodo dos Bispos — e terá direito a voto

Por Amanda Péchy, Duda Monteiro de Barros
Atualizado em 14 jul 2023, 10h40 - Publicado em 14 jul 2023, 06h00

De seu pequeno escritório no Vaticano, onde prateleiras de livros se erguem ao lado de uma foto do papa Francisco, a irmã Nathalie Becquart lidera uma singela, mas efervescente, transformação na Igreja Católica. Desde que foi indicada pelo pontífice ao mais alto cargo já ocupado por uma mulher na Santa Sé, há dois anos, a subsecretária do Sínodo dos Bispos cruzou mares e continentes com o intuito de produzir um documento de trabalho para guiar a próxima cúpula dos líderes mundiais do catolicismo, em outubro. Publicado no fim de junho, o texto altamente antecipado estabelece o tom da enorme assembleia bienal episcopal, onde 364 membros votantes atuam como bússola do futuro da religião — e ele tem, nitidamente, o dedo de Becquart: um dos principais temas é o papel da mulher na Igreja do terceiro milênio. “A questão de gênero é um sinal dos tempos. Em minhas viagens, ficou claro que há um pedido onipresente por mudança”, disse a VEJA a religiosa, que não só vai participar do sínodo, como registrará nele o primeiro voto feminino da história.

No cotidiano, a função da francesa de 54 anos é colher subsídios para as decisões do papa Francisco, compondo em suas viagens um panorama do pensamento dos fiéis ao redor do globo. Ela está à vontade no papel, já que o movimento de base é sua especialidade desde que se tornou freira, em 1995, na Congregação de Xavières. Após o noviciado, Becquart passou a atuar nas periferias multiétnicas de Paris, o que lhe permitiu identificar um ponto nevrálgico do crescente esvaziamento dos templos: a modesta influência das mulheres. “A falta de liderança feminina é uma das grandes queixas da juventude”, afirma (leia a entrevista). Alçada a diretora nacional de evangelização juvenil da Conferência Episcopal, assistiu como observadora (ainda sem direito a voto) ao Sínodo dos Bispos de 2018, que tratou da fé das novas gerações. Neste ano, o tema da reunião é a sinodalidade, que, para ela, significa “maior escuta e inclusão pela Igreja de vozes silenciadas” — como a das mulheres.

Desde que iniciou seu papado, há dez anos, Francisco tem encabeçado mudanças discretas, mas de impacto, através de discursos e ações. Sob sua liderança, o número de mulheres que ocupam cargos na Santa Sé e na Cidade do Vaticano aumentou 37%. Pela primeira vez na história, elas podem se tornar membros plenos dos dicastérios, os órgãos de governo da Cúria Romana, antes exclusividade de cardeais e bispos. Por força desse avanço, em 2021 a freira franciscana Raffaella Petrini foi nomeada secretária-geral do Estado, responsável pelos sistemas de saúde e segurança e pelos museus, principal fonte de renda do Vaticano. “Diferente dos antecessores, Francisco não tem medo de se envolver com as realidades do cotidiano e de tentar, apesar da oposição de vários cardeais, tornar a Igreja publicamente relevante para católicos e não católicos”, diz Michele Dillon, autora do livro Catolicismo Pós-Secular: Relevância e Renovação.

Apesar dos evidentes avanços, a extensão do papel da figura feminina na cúpula católica e a permissão para que preencha cargo eclesiástico ainda é assunto tabu. O catolicismo é historicamente protagonizado por homens, sob o argumento teológico de que a Igreja é feita à imagem e semelhança de Jesus Cristo, que se cercou de doze apóstolos, todos do sexo masculino. “Esse pensamento reforça que o homem é a principal criação divina, enquanto outras formas de vida são menos dignas”, ressaltou a VEJA padre Anne, como faz questão de ser chamada uma das líderes do movimento pelo direito feminino à ordenação. Transformações na religião podem demorar séculos para serem efetivadas. “O Vaticano não tem pressa em acompanhar as mudanças sociais”, resume Victor Gama, historiador da religião da PUC Minas. A irmã Becquart sabe bem disso. “Não sou ingênua. Mas a resistência faz parte do processo”, pontua. Um passo de cada vez.

OBSERVAÇÃO - Irmã Becquart: viagens para captar os anseios dos fiéis
OBSERVAÇÃO - Irmã Becquart: viagens para captar os anseios dos fiéis (Alessandra Tarantino/AP/Image Plus)

“Ganhamos voz”
Em meio a um périplo para visitar igrejas no mundo todo, a religiosa Nathalie Becquart concedeu a seguinte entrevista a VEJA por videochamada.

Francisco já é o papa que mais promoveu mulheres na história da Igreja, mas especialistas dizem que a mudança ainda é tímida. Concorda? Tamanha guinada de cultura não acontece de um dia para o outro, e o papa não é capaz de virar essa página sozinho. Temos avançado muito nos últimos tempos. É um tema que requer visão de longo prazo.

A senhora será a primeira mulher a votar no Sínodo dos Bispos, o grande encontro do Vaticano. Como planeja usar esse poder? Lutando para que mais mulheres cheguem a cargos de liderança. Ajudei a colocar a pauta à mesa como algo prioritário e isso, por si só, é um relevante passo adiante.

A distância entre a igreja e a sociedade moderna também estará em discussão? Sim, estamos buscando criar um novo estilo de igreja, que é uma instituição ainda hierarquizada e fechada. Não podemos excluir ninguém. A participação feminina entra aí, assim como a da comunidade LGBTQIA+, dos jovens e de outras tantas vozes silenciadas.

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Por décadas, clérigos ignoram e acobertam escândalos de abuso sexual. Como dar uma resposta efetiva para esta chaga? A Santa Sé precisa ser mais eficaz ao escutar as vítimas e criar mecanismos de prevenção aos abusos. Francisco avançou muito, mas é necessário mexer mais fundo na ferida.

Como fazer com que mulheres escalem a hierarquia não apenas administrativa, mas também religiosa? Por ora, isso não está em debate. A demanda vem de um grupo pequeno e é demasiado polarizante para ser aprovada. Mas existem várias maneiras de exercer protagonismo na igreja, e o papa está fazendo o que pode. Teremos de esperar para ver.

Publicado em VEJA de 19 de julho de 2023, edição nº 2850

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