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Policiais do Bope são presos por envolvimento com o tráfico no Rio

Agentes da tropa de elite da PM davam informações sobre operações e vendiam armas e drogas para bandidos da maior facção criminosa do Estado

Por Leslie Leitão - 11 dez 2015, 09h59

Quatro policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) foram presos na manhã desta sexta-feira, suspeitos de fazerem parte de um esquema criminoso de vazamento de operações para traficantes do Comando Vermelho, a maior facção criminosa do Rio de Janeiro. Outro ‘caveira’ está foragido porque, passa férias em Miami, nos Estados Unidos, mas também teve a prisão decretada pela Justiça. A ação foi resultado de quatro meses de uma investigação conjunta da Subsecretaria de Inteligência (Ssinte), Corregedoria da PM e do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público.

De acordo com os investigadores, eles tinham contato direto com criminosos das principais favelas dominadas pelo CV e que, hoje, abrigam alguns dos maiores criminosos da cidade, como Chapadão, na Pavuna, Faz quem Quer, em Rocha Miranda; Covanca, Jordão, São José Operário, Barão, em Jacarepaguá; Antares e Rola, em Santa Cruz; Mangueirinha, Vila Ideal e Lixão, em Duque de Caxias; Complexo do Lins, no Méier, e Juramentinho, em Vicente de Carvalho. Em praticamente todas as ações panejadas pelos homens de preto havia vazamento minutos depois das reuniões ainda dentro da sede do batalhão, em Laranjeiras, na Zona Sul. Segundo investigadores, as propinas variavam entre 2 000 e 10 000 reais por favela.

Policial do Bope aproveita férias em Miami
Policial do Bope aproveita férias em Miami VEJA

Já foram presos os cabos Maicon Ricardo Alves da Costa, que se identificava como Preto 1, Raphael Canthé dos Santos, o Preto 3, ainda lotados no Bope, o sargento André Silva de Oliveira, o Preto 2, recentemente transferido para o Departamento Geral de Pessoal (DGP), além de Silvestre André da Silva Felizardo, que desde dezembro do ano passado estava no 15ºBPM (Caxias). Como era o líder do bando, ganhou o apelido de Corinthians, numa alusão ao último Campeonato Brasileiro vencido pela equipe paulista. “O Felizardo era o chefe da quadrilha. Foi ele quem procurou um de cada equipe para compor essa organização criminosa”, explicou o subsecretário de inteligência da Secretaria de Segurança, delegado Fábio Galvão.

Os investigadores cumpriram 15 mandados de busca e apreensão nas casas e armários dos suspeitos dentro da própria sede do Bope, e foram também nos endereços de outros suspeitos de integrar o esquema. Na casa de um deles foram encontradas três caixas de munição de fuzil, e este, que ainda não teve o nome revelado, foi autuado em flagrante. Rodrigo Mileipe Vermelho Reis, o Preto 4, está viajando, também teve a prisão decretada. Na sua casa foram encontrados 70 000 reais em espécie, mas o policial está nos Estados Unidos. Na verdade, Mileipe fez parte da escolta pessoal de Marcelo Montanha, chefe de gabinete do secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Além de agente da tropa de elite, ele é muambeiro. A cada três meses ele viaja para Miami ou Orlando, onde compra perfumes, tênis, roupas, relógios e outras encomendas e traz para vender (mais caro) no Brasil. Sua página no Facebook parece um outlet virtual, de tantas fotos-ofertas.

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A promotora Angélica Glioche, que assinou a denúncia dos cinco por corrupção e violação de segredo funcional, explicou um pouco do modus operandi do grupo: “Existia um código de conduta, como por exemplo dar bom dia e boa noite aos traficantes. Eles também tinham que dar satisfação, mesmo que não houvesse operação alguma”, afirmou.

Desde fevereiro o site de Veja vem revelando esquemas de corrupção, extorsão e venda de armas e drogas envolvendo integrantes da tropa de elite da PM do Rio de Janeiro. Alguns deles chegaram a prestar segurança para bandidos da facção Amigos dos Amigos (ADA) como Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, e Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, que acabou morto numa ação conjunta das polícias Civil e Federal. As reportagens mostraram ainda um esquema parecido, em que ‘caveiras’ também vendiam armas, uniformes e informações privilegiadas para a quadrilha do Complexo da Maré, na região dominada pela facção Terceiro Comando Puro (TCP). Agora, com essa relação comprovada de recebimento de propinas do Comando Vermelho, as autoridades mostram que o Bope se entranhou na teia criminosa das três quadrilhas que dominam o tráfico de drogas do Rio de Janeiro. “Queremos dizer que as investigações vão continuar e e isso vai render uma limpeza ainda maior dessa excrecência social que estamos vendo aí”, desabafou, emocionado, o coronel Victor Yunes, corregedor da PM.

A investigação que começou através de gravações obtidas pela Ssinte teve o apoio do próprio comandante geral do Bope, tenente-coronel Carlos Eduardo Sarmento. Foi ele que passou a colaborar para identificar os agentes que usavam codinomes como ‘Preto 1’ ou ‘Corinthians’. “Você vai meia-noite numa comunidade como a do Faz quem Quer e nada acontece, não tem um tiro e nem cachorro na rua, é duvidar da nossa inteligência. Então, começamos a perceber que algo estava errado e nossas operações estavam vazando”, disse.

Nem todas as ações vazaram, no entanto. Ricardo Chaves de Castro Lima, o Fu, e Claudio Fontarigo, o Claudinho da Mineira, duas da principais lideranças do próprio CV nas ruas, acabaram capturados com outros quatro bandidos dentro de uma casa no acesso ao Morro do Chapadão, em 11 de agosto. “Aquela ação não vazou”, explicou Galvão. Ontem, a própria investigação provocou o vazamento de uma nova ação. E a estratégia deu resultado. A informação de uma operação no Morro da Covanca vazou. Mesmo assim, o Bope ainda conseguiu apreender três fuzis.

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A Covanca, aliás, é o palco de uma polêmica ação dos caveiras, em 22 de junho. Nela, milhões de reais foram encontrados dentro de tonéis e jamais apreendidos oficialmente. De acordo com investigadores, o tráfico chegou a lamentar de um prejuízo de 15 milhões, mas o valor investigado pela Corregedoria foi de 1,8 milhão de reais. Na semana passada, no Boletim Interno da PM, foi publicada a conclusão do Inquérito Policial Militar com ‘indícios de infração penal’: o major João Rodrigo Teixeira Sampaio será julgado no Conselho de Justificação da PM, enquanto o soldado Flavio da Silva Alves responderá uma sindicância.

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