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O erro de Bolsonaro

Por vocação ou deformação, o presidente acha que toda política, sem exceção, é incompatível com a moralidade pública

Por Redação 29 mar 2019, 07h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 15h28
  • A crise entre o governo e o Congresso é a expressão mais recente — e mais eloquente — de uma característica perturbadora do presidente Jair Bolsonaro: sua inclinação para extirpar a política do espaço público. Bolsonaro não percebe, ou finge não perceber, que mesmo os governos honestos, duros no combate à corrupção, mesmo os governos éticos e implacáveis com negociatas e feirões de cargos, mesmo esses governos acima de qualquer suspeita fazem negociações políticas, trocam e conciliam, estabelecem um intercâmbio de interesses e projetos. Numa frase: governos sérios fazem política.

    Por vocação ou deformação, Bolsonaro acha que toda política, sem exceção, é incompatível com a moralidade pública. Faz parecer que quem defende negociações políticas está sempre, na verdade, oferecendo-se à cooptação fisiológica através da distribuição ilegítima de cargos e verbas. Bolsonaro nem imagina, ou finge não imaginar, que não existe nem mesmo combate à corrupção sem política.

    À primeira vista, é intrigante a oposição que o presidente estabelece entre ética e política tendo tido uma longa carreira parlamentar em Brasília. Mas é essa carreira, na verdade, que explica seu erro primordial. Em três décadas de atuação no Congresso, Bolsonaro nunca foi mais do que um representante do corporativismo militar e um arauto da provocação política — provocação no mau sentido, no sentido estéril do termo, da qual seu convite para celebrar o aniversário da instalação da ditadura em 1964 é apenas o exemplo mais recente.

    O gosto pela agitação provocativa pode explicar seu comportamento nestes primeiros meses no Palácio do Planalto e, também, sua relação estremecida com o Con­gresso. Porque Bolsonaro tem se mostrado mais interessado em insuflar suas hordas extremistas, colhendo o aplauso fácil da ala fanática de seus apoiadores, do que em governar com sobriedade, com seriedade, com eficácia — politicamente, em suma.

    É por isso que o presidente parece se encantar com o proselitista Olavo de Carvalho, que xinga seu governo com uma coleção interminável de palavrões e ainda assim merece a distinção das homenagens públicas. Olavo de Carvalho quer fuzilar quaisquer negociações, quaisquer acordos políticos que não estejam perfeitamente alinhados com sua utopia regressiva. Trata-se de uma posição inofensiva para um ex-astrólogo que mora na Virgínia e só tem compromisso consigo mesmo, mas inaceitável para o líder de uma república democrática.

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    Com apenas três meses de governo, há ainda um longo caminho pela frente. Bolsonaro tem, portanto, condições de corrigir seus erros, acertar o rumo e amadurecer seu entendimento da política. Uma segunda hipótese, muito mais preocupante, é que aquilo que aqui se aponta como erro do bolsonarismo não seja exatamente um erro, mas a sua essência. Algo que, se eliminado, elimina também o próprio bolsonarismo. Para o bem do Brasil, ­fiquemos todos com a primeira hipótese.

    Publicado em VEJA de 3 de abril de 2019, edição nº 2628

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