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Após desmantelar cartel, chefe do Cade se reuniu com Temer

Antes do dia 16 de julho, superintendente do órgão antitruste nunca havia participado de qualquer compromisso no gabinete da vice-presidência

O superintendente-geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Carlos Ragazzo, reuniu-se com o vice-presidente da República, Michel Temer, dias depois da execução dos mandados de busca e apreensão nas empresas investigadas por formação de cartel no fornecimento de equipamentos para metrôs e trens de São Paulo e do Distrito Federal. A reunião ocorreu no dia 16 de julho, doze dias após as buscas e dois dias após a publicação de reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelando o pedido de leniência da Siemens, empresa delatora do cartel.

Ragazzo está no Cade desde 2008 – primeiro como conselheiro e, desde 2012, como superintendente-geral. Antes, foi coordenador-geral de Defesa da Concorrência na Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE), do Ministério da Fazenda.

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Carlos Ragazzo, superintendente-geral do Cade Carlos Ragazzo, superintendente-geral do Cade

Carlos Ragazzo, superintendente-geral do Cade (/)

Antes do dia 16, Ragazzo nunca havia se encontrado com Temer em agenda oficial. Fontes próximas da autarquia ouvidas pelo site de VEJA relataram que reuniões entre membros do órgão e do alto escalão do Executivo são incomuns. Presidentes anteriores passaram gestões inteiras sem ter qualquer tipo de interação com a vice-presidência da República.

Outras fontes ouvidas que tiveram acesso ao teor da conversa afirmaram que o vice-presidente foi brevemente alertado por Ragazzo de que surgiriam nomes de políticos nas investigações sigilosas, porém, recém-divulgadas em reportagens na imprensa.

OS ALVOS DO CARTEL

2000

SP: Fornecimento de equipamentos para a Linha-5 Lilás do Metrô

Valor: 404 milhões de reais (735 milhões de reais em valores atualizados)

2001-2002

SP: Manutenção de trens da CPTM

Valor: 275,6 milhões de reais (483,9 milhões de reais em valores atualizados)

2004

SP: Modernização da Linha-12 Safira da CPTM

Valor: 276 milhões de reais (400,2 milhões de reais em valores atualizados)

2005

SP: Fornecimento de trens e equipamentos para Linha-2 Verde do Metrô

Valor: 143,6 milhões de reais (202,7 milhões de reais em valores atualizados)

2007

DF: Manutenção do Metrô

Valor: 77 milhões de reais (103 milhões de reais em valores atualizados)

O Cade negou que o assunto do cartel tenha surgido. O órgão informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que os temas discutidos na reunião eram estritamente técnicos e ligados ao setor de transporte, sobre o qual Ragazzo produziu alguns estudos acadêmicos. Segundo o órgão, a reunião foi marcada com duas semanas de antecedência, nos primeiros dias de julho. Precisamente em 4 de julho, a Justiça determinou os mandados de busca e apreensão nas empresas envolvidas nas denúncias da Siemens.

Procurado pela reportagem, Temer também afirmou, por meio de suas assessoria, que o encontro não teve como assunto a investigação a respeito do cartel no metrô paulistano. Segundo a equipe do vice-presidente, Ragazzo possui um amigo em comum com Temer e a reunião vinha sendo orquestrada há muito tempo. A conversa acabou não resultando em decisões concretas e durou cerca de dez minutos, de acordo com a assessoria.

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Investigações – A gigante alemã Siemens procurou o Cade em meados de 2012 para delatar a existência de um cartel, do qual fazia parte, que participava de licitações de equipamentos das linhas de trens e metrô em São Paulo e no Distrito Federal.

Ao entregar o esquema ilegal, a empresa firmou um acordo de leniência, que lhe garante imunidade caso as denúncias sejam comprovadas e os itens do acordo sejam cumpridos, entre eles, o sigilo sobre as investigações. A suspeita é que o esquema tenha supervalorizado cinco contratos em até 30%, acarretando prejuízo de 577 milhões de reais aos cofres públicos.