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O que significa o ‘Antifascista’ no cachecol de torcedora do Inter

Inscrição é o nome de um grupo que defende pautas como o fim da violência nos estádios; Confusão no 'Grenal', no entanto, dividiu opiniões de integrantes

Um detalhe chamou a atenção no episódio de violência protagonizado nas cadeiras do Beira-Rio, em Porto Alegre, depois do empate no ‘Grenal’ do último sábado 20. A torcedora colorada que arrancou a camisa do Grêmio e expulsou a rival e seu filho do estádio a base de empurrões e xingamentos, vestia um cachecol da chamada Frente Inter Antifascista, um grupo que defende pautas como o fim da violência nos estádios. Em entrevista ao diário Zero Hora, a agressora, sob condição de anonimato, disse ter agido por impulso e que não faz parte do movimento. “Comprei a manta porque achei bonita”, disse. O grupo também deu a entender que não mantém relações com a torcedora, mas sua posição diante do ocorrido levantou questionamentos de alguns integrantes.

Em seus canais de comunicação, a Frente Inter Antifascista ressalta o histórico de combate ao preconceito do clube gaúcho, o único do país a ter um mascote negro, o Saci-Pererê, e apresenta alguns de seus fundamentos. “Lutamos por um futebol para todas e todos. Que as mulheres ocupem as arquibancadas. Que o racismo não seja tolerado. Que a LGBTQfobia desapareça dos cânticos para que todos e todas se sintam confortáveis para participar da festa no estádio.”

O grupo faz questão de ressaltar que não é uma torcida organizada, mas diz defender a cultura de arquibancada. “Enfrentamos também a elitização do futebol, que exclui a parcela mais pobre dos estádios e aplica a lógica do capital sobre o esporte, transformando torcedores em meros clientes e o futebol em uma mercadoria. Dentro dessa mesma lógica, também somos contra a criminalização das torcidas e de seus integrantes.”

Diante da polêmica do último sábado, a Frente, que tem 19.000 curtidas no Facebook, emitiu uma nota para se desvincular da agressora. “Comercializamos diversos produtos para construirmos nossas ações, podendo qualquer pessoa identificada com a causa Antifascista adquiri-los, mesmo sem compor a Frente.” O trecho final, no entanto, culpa mais a segurança da partida do que a própria agressora. “Acreditamos que a situação foi causada por falhas em um protocolo básico de segurança. Lamentamos imensamente uma criança ter sido exposta a isso involuntariamente”, diz um dos trechos.

Diversos seguidores consideraram a postagem “decepcionante” e cobraram uma postura mais firme do grupo contra a violência sofrida pelos rivais. Outros, no entanto, consideram que a culpa foi da torcedora tricolor, que balançava uma camisa do Grêmio em direção ao setor destinado aos tricolores antes de ter o objeto arrancado pela rival. Ela estava em um setor destinado à torcida do Inter, não nas cadeiras da chamada “torcida mista”.

A Inter Antifascista e alguns de seus integrantes não atenderam aos pedidos de entrevistas feitos por VEJA. Em sua página no Facebook, um dos líderes do grupo desabafa que “hipocrisia é mato” e, em um de seus comentários, alega que “claro que a colorada errou. Porém, não é a única errada.” Posição semelhante teve a apresentadora da Band e confessa torcedora do Inter, Renata Fan.

“A gente sabe que o bê-á-bá do futebol não permite que se faça isso. Por exemplo, você não pode ir no meio da torcida do Palmeiras e levantar uma camisa do Corinthians. A gente não pode ver um torcedor do Cruzeiro levantar a camisa no meio da torcida do Galo. Isso é o bê-á-bá do futebol. O problema todo é que essa moça que levantou a camisa do Grêmio, estava com uma criança, que foi, de certa maneira, coagida, intimidada, pode ficar traumatizada. Uma criança que está aprendendo a ser um torcedor. Acho que teve truculência dos torcedores do Inter, sim, mas entendo que a mãe deveria zelar um pouquinho mais pelo bem-estar do filho dela”, afirmou, durante o programa Jogo Aberto desta segunda-feira, 22.

Em suas postagens mais recentes, a Inter Antifascista deu apoio especial ao futebol feminino durante a Copa do Mundo na França e em jogos das “gurias coloradas”, em meio a diversas críticas ao presidente Jair Bolsonaro e demonstrações de combate a racismo, machismo e homofobia.

O surgimento de grupos de torcedores progressistas é uma tendência do futebol europeu – o St. Pauli, da Alemanha, é uma referência neste sentido – que vem se proliferando no Brasil. Atualmente, cerca de 30 clubes do país já possuem coletivos antifascistas. Em abril, um torcedor flamenguista disse que teve de ser interrogado para entrar no Maracanã com uma camiseta do grupo “Flamengo Antifascista”. O vídeo foi compartilhado por pelo grupo colorado, entre outras páginas de torcidas adversárias

O Grêmio, clube que teve a primeira torcida organizada gay do país – a Coligay, fundada em 1977 – também tem um grupo denominado Antifascista, que se manifestou sobre o ocorrido no “Grenal”. “Reiteramos nosso repúdio a qualquer forma de violência e agressão dentro dos estádios. Nossa luta – assim como aquela de todos os outros coletivos antifascistas no Brasil e no mundo – é a de fazer dos estádios espaços de expressão democrática e popular, de respeito e de inclusão. Por isso, condenamos os acontecimentos do último GreNal e seguimos vigilantes na denúncia de práticas de violência, subjugação e cerceamento, onde quer que elas aconteçam e contra quem elas se produzam”, escreveu o grupo.

Posições dos clubes

O Inter anunciou nesta segunda que suspendeu a torcedora do seu quadro de sócios e que outros dois torcedores envolvidos também foram denunciados para a ouvidoria do clube. “Informamos também que as imagens e as identificações serão entregues à Promotoria Especial do Torcedor do Ministério Público. Ressaltamos, mais uma vez, que o Clube do Povo não compactua com nenhum tipo de violência ou discriminação”, afirmou a nota.

O Grêmio não se manifestou institucionalmente sobre o episódio, mas ofereceu auxílio à torcedora agredida e seu filho e estuda novas ações de combate à violência nos estádios.

Comentários

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  1. Mais uma milícia disfarçada. Cada um abraça uma “causa” com propósitos “altruístas” e acaba nisso.

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