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O que fazer durante a Copa em Moscou? Ir ao cinema

A incrível história do diretor de cinema que está na cadeia, acusado de malversação de fundos públicos

Por Fábio Altman, de Moscou - Atualizado em 15 jun 2018, 16h01 - Publicado em 15 jun 2018, 13h02

Há algo mais bizarro do que uma sessão de cinema às 9h30 em plena Copa do Mundo? Não em Moscou, onde a vida não para, apesar do futebol. A sala: o centro cultural Pioner, inaugurado em 2009 em um antigo edifício soviético e que se orgulha de não vender pipoca. O filme: Verão (ou leto, em russo), dirigido por Kirill Serebrennikov. Filmado em preto e branco, é um mistura de Jules e Jim – Uma Mulher para Dois com Hair. É a história dramatizada, mas real, de um triângulo amoroso que envolve Mike Naumenko, o Mick Jagger de uma banda de rock de São Petersburgo dos anos 1980, sua mulher, Natalya Naumenko, e Viktor Tsoi, fundador de outro grupo, o Kino. As baladas são bonitas, o ar retrô agradável – Verão é o nome de uma das canções, embora seus 120 minutos combinem mais com o outono, quiçá com o inverno. Os diálogos, os flertes, as construções semelhantes ao cinema francês da nouvelle vague, são interrompidos por concertos em apartamentos – os chamados kvartirnik, nos quais se entrava secretamente, o suprassumo da subversão contra o governo de Leonid Brejnev.

O diretor é Kirill Serebrennikov, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, em maio, o que seria natural não fosse um detalhe: Serebrennikov está preso desde agosto do ano passado, acusado de desvio de verbas públicas para a montagem de uma peça de teatro. Ele é uma pedra no sapato de Vladimir Putin, acusado de tê-lo posto na cadeia porque Serebrennikov sempre foi crítico da postura autocrática do presidente russo. Houve uma campanha para tirá-lo temporariamente da cela, de modo que pudesse estar em Cannes, mas Putin negou o indulto. “A Justiça russa é independente”, mandou dizer o moderno czar.

Serebrennikov foi preso durante a filmagem de Verão. Três quartos da produção já tinham sido filmados. Faltavam apenas duas cenas e a edição, gravadas e depois montadas a partir de detalhamento do diretor, enviada a seus advogados. Para o roteirista Michael Idov, “cada quadro do filme é de Serebrennikov”. Não há, em Verão, nenhuma crítica ao governo de Putin – a não ser que se considerem os anos Putin como a repetição em forma de farsa dos tempos duros do passado. Nas palavras de Idov: “É um filme sobre jovens que tentam viver em liberdade, apesar das circunstâncias”. Mike Naumenko, o roqueiro, morreu em virtude de uma hemorragia cerebral em 1991, aos 36 anos. Viktor Tsoi morreu em 1990, aos 28 anos. Mal terminaram seus verões.

São 11h30 da manhã, sobem os créditos. O sol do lado de fora do Pioner é de rachar, apesar do leve frio. Não se vê sinal de Copa do Mundo nas ruas, especialmente porque nesta sexta-feira, 15 de junho, não há jogos na capital russa. A exibição de Verão, o drama inspirado em histórias reais de um diretor na cadeia, ajuda a compor a Rússia de Vladimir Putin – embora, ressalve-se, ele nunca tenha ameaçado proibi-lo.

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