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Na Bahia, o axé foi bem diferente. E a seleção foi mal de novo

Como previu Daniel Alves, torcida participou ativamente: gritou, pulou... e terminou o jogo vaiando Tite e seus comandados

SALVADOR – Já se sabe, o baiano é um povo barulhento e bom de festa, algo que o “filho da terra” Daniel Alves fez questão de salientar. O capitão da seleção causou um pequeno acidente diplomático ao criticar a frieza do público paulista e até a arquitetura do Morumbi na estreia. Na ocasião, garantiu que em Salvador o “axé seria diferente”. A agitação antes, durante e depois do empate em 0 a 0 com a Venezuela na noite desta terça-feira, 18, deu razão ao lateral nascido em Juazeiro. Mas há uma enorme diferença entre ser participativo e complacente: diante de mais uma atuação fraca da seleção, o jogo terminou sob vaias e até gritos irônicos de “olé” para os venezuelanos.

O velho chavão de “torcida que joga junto” se justificou logo no início do jogo, em lance em que Philippe Coutinho conduzia a bola e, com gritos em uníssono, foi “avisado” de que um marcador chegava logo atrás. O Carnaval se manteve a cada jogada, sobretudo nos momentos em que Daniel Alves, de 36 anos, arrancava pelas alas da Fonte Nova, como nos primeiros anos de carreira, no Bahia.

A empolgação com a seleção, na verdade, começou bem mais cedo, sob o comando de outra nordestina, a alagoana Marta. Um grupo grande de torcedores se reuniu no Pelourinho, tradicional ponto turístico da cidade, para vibrar com a vitória da seleção feminina sobre a Italia no Mundial da França. A vibração diferente se transportou para a Fonte Nova e aí vale uma ressalva: poucas arenas no planeta tem um entorno tão belo quanto o Dique do Tororó iluminado, onde milhares de torcedores se juntaram para cantar e tomar cerveja – que, diferentemente de São Paulo, é liberada também dentro dos estádios, assim como os tambores e baterias da “torcida organizada” da seleção.

Ao som do hit latino Despacito, os torcedores foram chegando. Como em todos os jogos do torneio, não houve lotação máxima, mas bons números: 42.587 presentes, sendo 38.622 pagantes, com uma renda de 8,7 milhões de reais. A torcida que pagou caro (ingresso médio de 226 reais) se fez notar do início ao fim. Aos 20 minutos, um grito de pavor tomou o estádio quando Salomon Rondón, destaque da seleção venezuelana, subiu bem e cabeceou raspando a trave de Alisson. Pouco depois, o técnico Rafael Dudamel foi “homenageado” com uma vaia unânime ao reclamar acintosamente de falta. Mas o grito de “uhhh” só saiu mesmo em chute de Richarlison, bem defendido por Wuilker Fariñez, outro bom valor da equipe “Vinho Tinto”. No primeiro tempo, o axé foi bem diferente da estreia; a atuação da seleção, nem tanto. Por isso, vaias e aplausos se misturaram no apito para o intervalo.

O momento de maior reprovação aconteceu 12 do segundo tempo quando Tite sacou Casemiro para a entrada de Fernandinho. O volante marcado pelas eliminações nas duas últimas Copas recebeu sonoros assovios, assim como o treinador. Pouco depois, a Fonte Nova viveu seu “êxtase”, que acabaria anulado. Gabriel Jesus, que entrou e bem no lugar de Richarlison, recebeu na área, marcou e comemorou. O árbitro chileno Julio Bascunan, no entanto, flagrou impedido de Firmino ao consultar o VAR.

Quando o empate e a morosidade de Tite começaram realmente incomodar, a torcida decidiu, ela mesma, “mexer no time”. Todo o estádio gritou “Ah, é Cebolinha”, apelido do atacante Everton. Tite deixou o orgulho de lado e não teve outra opção a não ser chamar o gremista, um minuto depois. Everton poderia ter sido o herói da partida aos 41 minutos, quando arrancou e fez linda jogada pela esquerda para Coutinho completar para as redes. A festa foi total, mas, novamente, o gol anulado por participação de Firmino, em impedimento, via VAR. Neste momento, os xingamentos da torcida foram contra a arbitragem. Depois do apito final, para Tite e seus comandados. Na última Copa América no Brasil , em 1989, havia um motivo claro para a revolta da torcida baiana, com direito a ovada: a exclusão de Charles, então ídolo do Bahia, do time de Sebastião Lazaroni. Trinta anos depois, a justificativa foi mais recorrente: uma nova atuação ruim da seleção.