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Legado de Bielsa, sonho europeu e treino emocional: quem é Hernán Crespo

Novo técnico do São Paulo usa influências de 'El Loco', Ancelotti e Mourinho; intensidade ofensiva foi a maior marca do trabalho no Defensa y Justicia

Por Klaus Richmond, Luiz Felipe Castro Atualizado em 18 fev 2021, 18h28 - Publicado em 12 fev 2021, 15h11

Hernán Jorge Crespo é o novo técnico do São Paulo, confirmou oficialmente o clube nesta sexta-feira, 12. Mais recordado como um excepcional atacante do fim da década de 90 e início dos anos 2000, ele assume seu compromisso de maior peso na nova função após passagem vitoriosa pelo modesto Defensa y Justicia. Aos 45 anos, Crespo não esconde a ambição de um dia retornar à elite europeia, como nos tempos em que brilhou como goleador de Parma, Lazio, Chelsea, Milan e Inter de Milão, mas antes pode colocar em prática no Morumbi os ensinamentos que recebeu de grandes mestres.

Crespo não esquece o dia em que recebeu um chamado inesperado para uma conversa particular com Marcelo Bielsa, em Ezeiza, sede das instalações esportivas da Associação de Futebol da Argentina (AFA). Quando avistou o treinador, recém-chegado à seleção do país, em 1998, Bielsa já o aguardava sentado e havia reproduzido em um papel, de forma improvisada, a grande área de um campo de futebol com uma espécie de loteamento divididos por setores: “A1, A2, B1, B2…”

“Onde você gosta de jogar mais?”, perguntou Bielsa, apontando para o desenho. “Na verdade, eu não sei”, respondeu Crespo. “Vou te explicar o que você pode ser, então”, emendou. Bielsa passou a noite com Crespo mostrando onde atuou em cada um dos seus últimos jogos, lembrando com detalhes de partidas que fez ainda no começo de carreira, no River Plate, entre 1993 e 1996. A conversa mudou completamente a percepção dele sobre tática.

“Nesse dia, Crespo notou que Bielsa sabia mais de sua movimentação em campo do que ele próprio. Ele teve técnicos muito bons, é bem próximo do [Carlo] Ancelotti, mas jamais esqueceu o que lhe mostrou Bielsa esse dia”, relata Eduardo Buongiovanni a PLACAR, coordenador de imprensa da seleção argentina à época.

Crespo inicia o maior desafio da curta carreira até aqui. Campeão da Copa Sul-Americana com o Defensa y Justicia, no último dia 23 de janeiro, com uma vitória convincente por 3 a 0 contra o Lanús na decisão, o ex-camisa 9 chega avalizado não só pelo que construiu na carreira dentro de campo, mas, agora, fora dele.

“O futebol começa antes em minha cabeça. Devido as minhas características físicas, precisei entender mais o jogo, aproveitar os centímetros para chegar antes de um defensor na bola. Dessa leitura, fiz uma virtude, foi um treinamento constante que involuntariamente me apaixonou pela tática, pela estratégia”, disse em entrevista ao canal espanhol “Esto es Premier”, em junho de 2020.

Crespo iniciou a carreira como técnico das divisões inferiores do Parma, em 2014, dois anos depois de encerrar o ciclo como jogador no clube onde começou a brilhar na Europa, entre 1996 e 2000. Na cidade italiana, é lembrado pelos números – 93 gols em 201 jogos, o maior artilheiro da história do clube –, mas também por um episódio em especial.

Assim que chegou, em 1996, com apenas 21 anos e sem sequer falar italiano, foi um dos jogadores que apareceram para acalmar os ânimos de torcedores furiosos por uma campanha abaixo das expectativas naquela temporada. “Fomos chamados para falar com os torcedores. Estava eu, os capitães Benarrivo e Cannavaro, além do Thuram. Quando viram, ele apareceu para falar. Não tinha marcado um gol ainda, mas tinha peito. Meses depois a mãe dele veio me agradecer porque começou a fazer gols com os meus cruzamentos”, lembra o ex-lateral direito Zé Maria.

Crespo é educado, culto, e se expressa bem em entrevistas. No entanto, este comportamento combativo, que não poupa críticas a torcedores, dirigentes ou jornalistas, pode ser uma combinação explosiva em um clube que não conquista títulos relevantes há mais de uma década.

Na Europa, como treinador, Crespo ainda passou sem sucesso pelo Modena, onde acabou demitido. Entendeu que se quisesse triunfar na nova carreira precisaria viver a “escola argentina”. “Me parecia que [começar na Europa] não era suficiente, sentia que para ser um grande treinador precisaria passar pela Argentina, viver todas as dificuldades do país. É um ótimo estágio para voltar a Europa, que é o meu grande desejo para jogar grandes competições”, contou na mesma entrevista ao “Esto es Premier”.

O sonho europeu pode ser outro problema para o São Paulo, que recentemente perdeu treinadores estrangeiros: o argentino Edgardo Bauza e o colombiano Juan Carlos Osorio, que aceitaram propostas das seleções argentina e mexicana, respectivamente, após poucos meses no Brasil. O mesmo ocorreu no Inter com outro argentino, Eduardo Coudet, que trocou o time gaúcho pelo Celta de Vigo de forma surpreendente, em 2020.

Da Itália, Crespo retornou a seu país e passou pelo Banfield, onde teve campanha modesta com quatro vitórias, seis empates e oito derrotas em 18 jogos para, enfim, chegar ao Defensa y Justicia, clube onde conseguiu impor os conceitos propositivos e agressivos taticamente que idealizou.

Afeito a um futebol de alta intensidade, o Defensa que armou não se furtou de correr riscos mesmo com o placar favorável, o que lhe rendeu críticas no país pela exposição defensiva. Na Libertadores, impressionou a postura contra o Santos, na Vila Belmiro. O time poderia até empatar, mas tomou um gol aos 46 minutos da etapa final, em um contra-ataque. Na retomada após a saída da competição, fez do atacante Braian Romero, com passagem pelo Athletico-PR, sua maior referência ofensiva, autor de dez gols na campanha vitoriosa da Sul-Americana.

O sucesso de Crespo no Defensa está diretamente atrelado à parceria com o preparador físico Alejandro Kohan, responsável pela intensidade física do estilo de jogo exigido por Crespo, mas também a trabalhos emocionais para estimular jogadores. “Trabalhamos durante a semana com sessões de coaching individuais e coletivas, ferramentas que são úteis para a estabilidade emocional para superar momentos competitivos de estresse e para o autocontrole de emoções”, disse em Kohan em entrevista recente ao site Infobae. Esta pode ser uma vantagem para o São Paulo, que demonstrou um notável descontrole emocional na reta final do Brasileirão, da qual passou de líder a atual quarto colocado, o que levou à demissão de Fernando Diniz.

Crespo aprendeu que futebol não são só 11 e tem extracampo

Hernán Crespo nas categorias de base do River Plate
Hernán Crespo nas categorias de base do River Plate Gabriel Rodriguez/Arquivo pessoal

Crespo chegou com apenas 11 anos as categorias de base do River Plate. Sempre apresentou postura profissional, segundo relato de antigos treinadores, mas jamais entendeu bem quando não iniciava como titular. “Era extremamente disciplinado, com uma dedicação acima do comum. Profissional desde muito pequeno, mas queria jogar sempre. Se o colocávamos como reserva ele se desesperava, queria ser sempre titular, apesar de ser educado e correto”, conta Gabriel Rodriguez a PLACAR, técnico em seu início no River.

Com Carlo Ancelotti, Crespo já contou publicamente ter aprendido o melhor da relação humana com os atletas, mas com o português José Mourinho precisou assimilar pela primeira vez a condição de reserva em clubes, fato que encarou durante a passagem no Chelsea, quando o marfinense Didier Drogba era o titular. “José [Mourinho] me mostrou que futebol é muito mais amplo do que 11 jogadores”.

A visão o fez encarar melhor o retorno a Inter de Milão, quando chegou para a segunda passagem, em 2006, como titular absoluto, mas depois esbarrou na competitividade de nomes como Zlatan Ibrahimovic, Adriano e Julio Cruz. “Ele tinha respeito, conseguia ir para o banco e se comportar bem. Acredito que viveu uma evolução mental no futebol europeu”, relatou o ex-lateral César, companheiro de Lazio e de Inter de Milão.

Hernan Crespo durante sua passagem pela Inter de Milão, em 2006
Hernan Crespo durante sua passagem pela Inter de Milão, em 2006 Newpress/Getty Images

Na seleção, também precisou conviver com a concorrência de Gabriel Batistuta, a quem reputou sempre como um professor e foi seu companheiro de quarto logo nas primeiras convocações. Crespo também já afirmou que no Chelsea mudou a percepção de se preocupar não somente com o futebol jogado em campo, mas com o entorno. “Lembro-me de ter falado com Roman Abramovich [dono do Chelsea],  sobre um campo para treinamento, de como escolher o melhor local. É bom ver que o clube está melhorando, crescendo e ter feito parte minimamente de tudo. Quando volto do Milan já era tudo perfeito, organizado, queriam outras coisas”, contou ao “Esto es Premier”.

Como jogador, Crespo construiu a carreira quase toda na Europa. Depois do Parma, foi comprado pela Lazio por 55 milhões de dólares à época, justificando a contratação como artilheiro da Série A, o Campeonato Italiano, com 26 gols. Acabou negociado com a Inter de Milão e, posteriormente, com o Chelsea, onde foi emprestado ao Milan e a Inter novamente. Passou por Genoa e pendurou as chuteiras no Parma, em 2012.

Veja a opinião de jornalistas argentinos:

Seba Díaz, Diário Olé
Hernán Crespo conseguiu em poucos anos já se tornar em um treinador de alto nível, demostrando qualidades fundamentais: uma ideia clara e a facilidade de transmiti-la e convencer seus jogadores, pois tanto na passagem exitosa pela Defensa y Justicia, como no Banfield, onde os resultados não o acompanharam, ficou evidente que os jogadores acreditam nele e defendem a forma como propõe o jogo. O seu desafio, agora, é confirmar essas virtudes em um grande clube como o São Paulo e em outro país, com uma particularidade bem diferente. Mas Crespo é um cidadão do mundo, cuja longa carreira como artilheiro lhe permitiu conhecer diferentes culturas e lidar com a pressão de usar camisas enormes de clubes. A seu favor (e do São Paulo): essa responsabilidade nunca pesou sobre ele.

Martín Blotto, Diário Olé
Crespo é um profissional com formação de primeiro nível, já que durante a sua carreira de jogadores foi dirigido pelos melhores treinadores do mundo. Talvez a língua possa ser um fator desconfortável no início, embora tenha jogadores como Dani Alves, que certamente podem ajudá-lo a se adaptar. Além disso, Crespo compartilhou vestiário com os melhores jogadores de todas as nacionalidades e muitos campeões mundiais. A única coisa que pode se virar contra ele é que os mais jovens não atendam às exigências disciplinares e laborais que pensa como treinador. A diretoria do São Paulo também deve entender que é um processo que vai levar algum tempo e que pode ter que ajudá-lo caso o seu início no clube não seja com bons resultados imediatos.

Marcos Sittner, Planeta Defensa
Não sei com quais jogadores vai contar no São Paulo, mas Hernán Crespo joga de uma única maneira, que é buscando o gol, mesmo algumas vezes descuidando atrás, geralmente com o esquema 3-4-3, as vezes também varia para o 4-3-3, mas a ideia é clara: sempre ser ofensivo. Talvez, mesmo em uma equipe grande como o São Paulo, precise de tempo para que os jogadores entendam por completo seu jogo, mas assim que entenderem a ideia terão sucesso. A prova são as semifinais e finais com o Defensa y Justicia, quando atropelaram os seus rivais. Fez quatro gols em uma partida e três na final.

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