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Ex-jogador diz que Peru se vendeu contra Argentina em 78

Peruano José Velásquez afirmou que seis companheiros e treinador do time entregaram jogo. Goleada argentina por 6 a 0 tirou Brasil da final da Copa

Já se passaram 40 anos e a goleada da seleção argentina sobre o Peru na Copa do Mundo de 1978 segue causando polêmica. A Argentina precisava vencer a partida por pelo menos quatro gols de diferença para chegar à decisão do Mundial em sua casa – caso contrário, o finalista seria o Brasil – e fez 6 a 0 com extrema facilidade, levantando suspeitas de manipulação de resultado, no auge da ditadura no país. Nesta terça-feira, em entrevista ao jornal peruano Trome, José Velásquez, ex-jogador daquele time, disse que seis companheiros seus “se venderam” naquela partida.

Um dos acusados por Velásquez foi Ramón Quiróga, goleiro da seleção peruana, argentino de nascimento. “Seis de nós nos reunimos um dia antes com o treinador, Calderón, para pedir que Quiroga não jogasse, por ser argentino. Ele aceitou, mas no dia seguinte mudou de ideia. O que eu devo pensar, que se vendeu ou não?”, questionou.

José Velásquez, na Copa de 78 (Facebook/Reprodução)

Velásquez reclamou de ter sido substituído, quando o placar estava 2 a 0, e acusou Gorriti, que entrou em seu lugar, de fazer parte do esquema. “Se venderam desde o presidente. Seis jogadores nossos se venderam. Posso citar quatro: Manzo, Gorriti, Muñante e Quiroga.”

Ele ainda recordou a visita do presidente argentino Jorge Videla e do secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, ao vestiário peruano para desejar “sorte” antes da partida. “O que eles tinham que fazer ali? Foi uma maneira de nos pressionar, de encontrar quem tinha se vendido. A corrupção sempre existiu.”

Brasil ofereceu ‘mala branca’

Germán Leguía, outro atleta daquela seleção peruana, foi procurado pela rádio Programas para comentar as declarações de Velásquez e admitiu que houve “coisas muito estranhas” no Mundial de 1978. Ele, no entanto, revelou que a única denúncia da qual teve notícia envolvia uma oferta da seleção brasileira para que o Peru não perdesse da Argentina por quatro gols de diferença.

“Houve uma oferta do Brasil para que ganhássemos ou perdêssemos de até 3 a 0. E era muito dinheiro. Muitos jogadores se irritaram com a notícia. Me procuraram para esta oferta”, disse, sem deixar claro se aceitou a proposta de “mala branca” – como é chamado o valor pago a um time como incentivo para vencer uma partida.

Leguía também disse estranhar o fato de o treinador Marcos Calderón ter armado uma equipe sem centroavante naquele jogo. “O time que ele escalou foi muito estranho, não colocou nenhum 9. (…) A Argentina não podia nos fazer quatro gols. O Brasil fez três em um jogo atípico.”

E recordou as palavras do ditador Videla no vestiário. “Ele entrou com Kissinger, nos falou dos irmãos argentinos, leu um comunicado de Morales Bermúdez (ditador do Peru na época), dizendo que a Argentina sempre colaborou e defendeu os peruanos… Era como se dissesse que se a Argentina não fosse campeã arrebentaria tudo.”

Com a goleada, a Argentina foi à decisão e conquistou seu primeiro título mundial, diante da Holanda. O Brasil terminou a competição invicto, na terceira colocação.

Mario Kempes, da Argentina, comemora seu gol na final da Copa de 1978, no seu país, contra a Holanda: ele marcou seis vezes.

Mario Kempes, da Argentina, comemora seu gol na final da Copa de 1978, no seu país, contra a Holanda (veja.com/VEJA)