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A PLACAR, Zico abre seu museu e fala sobre Flamengo, pandemia e CBF

Antes de retornar ao Japão, ídolo rubro-negro passou meses isolado no Rio e concedeu uma reveladora entrevista sobre os rumos do futebol brasileiro

Por Alexandre Salvador - 24 jul 2020, 11h19

Atual diretor do Kashima Antlers, clube pelo qual marcou época no Japão, Zico veio ao Brasil no final de fevereiro, para fazer exames médicos de rotina. Em função da pandemia e do fechamento das fronteiras imposta pelo governo japonês a mais de 100 países, entre eles o Brasil, o eterno Camisa 10 da Gávea acabou passando férias forçadas no Rio. (Atualização: retornou nesta semana à Ásia, onde terá de passar por duas semanas de isolamento obrigatório antes de retomar suas atividades).  “É a primeira vez em toda minha carreira que fico em casa por mais de três meses”, ri. Como boa parte de todos nós, ele aproveitou o tempo para fazer manutenção em sua casa. Só não teve tempo ainda de organizar a seu gosto um quarto muito especial: a sala onde guarda com carinho todos os troféus, láureas e fotos. Camisas? “Tenho só umas 1000. Mas não minhas, são de troca!”, pondera.

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Mas de algumas relíquias o craque não conseguiu abrir mão: a camisa de mangas longas usadas na final do Mundial de Clubes (“a única que vesti com meu nome nas costas”) e o uniforme rasgado por um adversário durante a final da Libertadores, contra o Cobreloa. Em uma manhã de folga dos afazeres domésticos, Zico recebeu a reportagem de PLACAR, respeitando, com louvável bom senso, as recomendações de distanciamento mínimo, em seu confortável refúgio na Barra da Tijuca. A seguir, os principais trechos da conversa.

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Você é o maior artilheiro do Maracanã (333 gols). Como se sentiu ao ver Flamengo e Bangu disputando uma partida pelo Campeonato Carioca bem ao lado de um hospital de campanha? É preciso respeitar as pessoas. Tendo jogo ou não, as pessoas que morreram não deixariam de morrer, infelizmente. Mas a simbologia é muito forte. Se a Federação mandou abrir (o campeonato), o prefeito tinha que falar: “quem manda aqui sou eu, não vai ter e acabou”. Não era o ideal. Foi um jogo que só acarretou problema, polêmica. Ninguém sabe como foi a partida, ou fala sobre a felicidade de estar voltando. No dia seguinte, o Boavista jogou e ninguém soube.

Mas o Flamengo foi o clube que trabalhou de forma mais enfática pela volta apressada. Concordou com essa postura? O Flamengo tem todas as condições de suporte, um protocolo muito bem fundamentado, sendo utilizado para treinamento. É uma situação diferenciada, que está utilizando das mesmas condições do Kashima, por exemplo. Não são todos os clubes que podem oferecer essa situação aos seus atletas. Então a competição fica desnivelada, pois existem clubes que podem e outros não.

É plausível a ideia de pôr novamente torcedores nas arquibancadas? Eu, particularmente, não gosto de jogos sem torcida. Nem vejo. Mas se tiver que trabalhar… Eu já trabalhei nessa situação, uma pelo Fenerbahçe (da Turquia) e outra pela seleção japonesa. É horrível. Não paro em frente à televisão para ver jogo sem público.

Quando olharmos de volta para 2020, qual será o peso histórico desse Estadual? Nenhum. O Estadual serve só pra colocar os caras pra jogar, para ganhar ritmo de jogo. O Estadual é quase uma satisfação para a torcida. Infelizmente, não é um título tão importante. Agora o peso do Brasileiro é outro, se não houver paralisação, terá o impacto de sempre. E os times que já estão entrosados, como Flamengo e Palmeiras, vão continuar sendo os favoritos.

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O que você acha da forma como o Brasil está lidando com a pandemia? Cada um olhou para o seu lado e pensou em uma situação que lhe fosse favorável. O caminho da cautela deveria ter sido seguido, mas esse comportamento nunca foi comum no meio do futebol. Mas pelo menos São Paulo deu um grande salto. No Rio de Janeiro, infelizmente, não tivemos isso. O futebol poderia servir de exemplo para a sociedade, mas não o fez. Mais uma vez, tristemente, perdeu a chance.

O flamenguista está feliz com a postura do clube em meio à pandemia? Ah cara, é muito difícil responder isso, saber as razões. Por isso tudo aconteceu. Daqui de fora, falar alguma coisa, sem saber a razão exata. Acho que a falta de união dos clubes, e a falta de liderança nessa área, fez com que as pessoas tomassem decisões individuais. Esse é que é o problema. Julgar de fora é fácil. Mas quando não se vê uma liderança para uma situação calamitosa como foi a da pandemia, cada um tenta resolver à sua maneira os problemas que aparecem. É ruim. Se o presidente do Flamengo e o do Vasco estivessem lá em Brasília como representantes de um todo, a voz de todo mundo. Mas não foi o caso, cada um está puxando pelo seu lado. Não estou de acordo com isso.

O Flamengo é conhecido como “o mais querido” clube do Brasil. A postura um tanto arrogante da diretoria pode afetar essa imagem? É o mais querido por causa da sua torcida. E ela pouco tem a ver com atitudes que dirigentes fazem. É bom a gente separar isso. Os dirigentes já tiveram o momento de ser o diabo. Quando o Flamengo estava lá por baixo, todo mundo não sacaneava? Falavam o Flamengo não tinha bola para treinar, não pagava em dia, os jogadores não fingiam que jogavam? É fácil apontar o telhado de vidro, porque está ganhando tudo. O clube se organizou, coisas que os outros não fizeram. Então, o Flamengo tem mais é que usufruir disso. Sem pisar em ninguém, sem ultrapassar os limites dos regulamentos, da ética, do que diz o estatuto.

Em sua visão, qual a necessidade mais urgente do futebol brasileiro? O Brasil é o único país relevante do futebol onde não existe uma liga independente. Os clubes ficam sempre a mercê da CBF ou de federações. Para quê isso? Não há a necessidade de uma federação estadual. Ela só deveria existir para gerir campeonatos regionais, de bairro. No profissionalismo, o modelo é a liga. O problema é que aqui, se o presidente da liga for alguém com ligações com um determinado clube, vão falar que foi criada para favorecer A ou B. Aqui a desconfiança é tão grande que vão usar esse argumento. Isso parece novidade, mas um dos melhores momentos do Campeonato Brasileiro aconteceu lá atrás, em 1987: a Copa União. Quando a CBF viu que deu certo o que os clubes propuseram, foi lá e tomou o controle de volta. Na minha cabeça não entra o fato de ver clubes pobres e federações ricas, e a Confederação milionária.

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Durante a pandemia, quem trabalha no futebol está mais seguro ficando em casa ou no CT? É também uma questão mental. Quanto tempo você acha que eu fico dentro da minha casa, como estou agora? Foram 50 anos levando porrada, trabalhando, pra construir essa p… toda aqui. É a primeira vez na vida que estou três meses em casa, com a minha mulher, nós dois, todos os dias. Aproveitando, curtindo, tomando café, usando a piscina, jogando bola com os netos. Vou para a minha academia doméstica, cuido das plantas, do cachorro. Hoje não tenho dúvidas de que todo mundo, antes de chegar num restaurante, vai lavar as mãos. É educação. Eu acho que isso tudo vai dar uma conscientização maior em certos atos que deveriam ser feitos.

Mas nós aprendemos mesmo? Mal saímos do pico da pandemia e a praia já está lotada, como se tudo estivesse numa boa… É preciso ter um manual, uma atividade firme de conscientização na TV. Gastar dinheiro com publicidade, com as escolas. Pagar bem os professores para eles possam ensinar também sobre higiene.

Seu canal de YouTube passou da casa de 1 milhão de inscritos. Como você administra esse conteúdo? Tenho uma equipe, formada por mim, meu filho Bruno, que é o que mais me representa, e meu sócio. No canal é o entrevistado quem fala. Não gravo vídeos pela polêmica. Quero que o cara venha e fique feliz de estar conversando comigo, de contar a sua história de vida. Anteontem, fiz um vídeo com o Bruno Henrique. Ele pode ser um exemplo para muita gente. Quantos vezes na história do futebol vimos um cara com 28 anos, saído de um campeonato de pelada, tendo o sucesso que tem hoje? O Sócrates foi um, mas ele estudava Medicina. O Bruno Henrique, não. O futebol era a única coisa. Isso é um exemplo do c….

Falta essa leveza, esse tipo de sinceridade, na cobertura atual do futebol pela imprensa tradicional? Hoje, a imprensa, infelizmente, está muito voltada para confusão, para fofoca. Por isso que os jogadores não falam mais. Vão falar para a FlaTV, para o canal próprio, pois não querem confusão. O Bruno Henrique me deu uma baita entrevista. A primeira coisa que os caras puseram na internet foi: “O Vasco é meu freguês favorito”. Ele falava dos grandes rivais.

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Há uma permanente cobrança para que os atletas se posicionem mais firmemente nas questões políticas, como fez o Lewis Hamilton contra o racismo. O jogador hoje ter medo de falar? Tem receio da repercussão instantânea das redes sociais? Acho que há um receio muito grande. Os próprios clubes proíbem. Isso às vezes está até no contrato. Mas eu nunca tive essa postura. Fui presidente de sindicato na época que estava na seleção. Sempre falei aquilo que penso, contra ou a favor. Vou levar porrada e dar porrada. Lá atrás, fui contra a criação Copa do Brasil, chamei de caça-níquel. Fiquei sozinho em muitos lugares com essa briga com o Ricardo Teixeira. Fui o primeiro a brigar com ele. Ele me processou e perdeu de 11 a zero. Não teve coragem nem de mandar um advogado.

E hoje? Vou me envolver com mais alguma coisa? Sou dirigente lá do Kashima, mas não vou me envolver, não quero mais saber. Problema dele. É o jogador que tem que resolver. Quando eu era atuante como presidente do sindicato, atuei. Agora os caras da época é que têm que resolver. Tem que vir gente com outras cabeças.

Teve aquela tentativa do Bom Senso, que dizem que não vigorou porque faltou união na classe… Claro, porque alguns começam a levar porrada, começam a ser prejudicados nos seus clubes. Todo mundo fica com receio. Eu era jogador, ídolo do Flamengo, e fazia isso.

No passado recente, você até cogitou uma candidatura à presidência da Fifa. Você ainda tem alguma pretensão de ocupar algum cargo desse tipo? Nenhuma.

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Por quê? Porque passou, tudo passa na vida da gente. Estou trabalhando como diretor técnico. Toparia fazer consultoria, mas trabalho mais pesado nessas coisas, não.

Publicado em PLACAR de junho de 2020, edição 1465

Capa da Revista Placar da edição de Julho de 2020 Divulgação/Placar

 

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