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Collor: sem ‘mudança rápida’, governo Bolsonaro não chegará ao final

O ex-presidente diz que está sendo repetido o roteiro que levou ao seu afastamento, mas nega semelhanças entre os casos Queiroz e PC Farias

Por André Siqueira, José Benedito da Silva - Atualizado em 23 jul 2020, 15h33 - Publicado em 24 jul 2020, 06h00

Quase trinta anos depois de ter sido afastado do cargo, o ex-presidente Fernando Collor de Mello vem refletindo publicamente sobre os erros cometidos em seu governo. Para ele, um dos mais graves foi ter menosprezado a necessidade de formar uma base sólida no Congresso que lhe garantisse apoio e o ajudasse a preservar o seu mandato, interrompido em 1992, menos de três anos após ter chegado ao poder. Senador por Alagoas, ele diz que acompanha com preocupação a reprise desse filme, que em sua opinião caminha para um desfecho semelhante. Para Collor, Jair Bolsonaro, que também se elegeu discursando contra o sistema, incorre no mesmo erro e diz que, se não houver uma “mudança rápida e forte”, “não haverá possibilidade de o governo chegar ao final”. Ele aconselha a ter cuidado com a evolução do caso Fabrício Queiroz, nega que a história seja parecida com a que envolveu o seu ex-tesoureiro Paulo César Farias e recomenda cautela com as manifestações de rua. “A mesma mão que aplaude apedreja”, alerta. A seguir, a entrevista concedida a VEJA por um aplicativo de vídeo.

Em 1989, o senhor se apresentou como um candidato contra o establishment, por um partido pequeno e com uma plataforma liberal e anticomunista. Há semelhanças entre a sua trajetória e a de Bolsonaro? As diferenças são maiores do que as eventuais similaridades. Há o discurso que eu usei na campanha e que ele utilizou trinta anos depois. Na época, minha pregação fazia sentido porque havia do outro lado alguém como o Lula, que defendia um projeto antípoda ao meu. Na última eleição, a candidatura do atual presidente estava descolada do establishment. Eu era uma pessoa oriunda do sistema e lutava contra as normas que o establishment estava impondo ao país, como as reservas de mercado do automóvel e da informática. Bolsonaro está levando com ele somente o discurso ideológico. Os grandes conflitos que o Brasil está vivendo, criados dentro do próprio governo, são conflitos que têm, na sua raiz, a questão ideológica. São temas difíceis de unir uma sociedade que está dividida e ressentida, com raiva e posições extremadas. Tudo o que fiz estava em meu plano de governo, com exceção do bloqueio dos ativos. Bolsonaro se ausentou de tratar da economia. Dizia que teria um ministro que cuidaria do assunto porque ele não entendia. Não havia nada mais do que um discurso baseado na questão dos costumes e de destruir o PT.

E o senhor enxerga pontos em comum entre Fabrício Queiroz e o seu ex-tesoureiro Paulo César Farias? Ambos foram acusados, por exemplo, de pagar despesas da família presidencial com dinheiro de origem incerta… Não há semelhança. As despesas pagas por PC Farias foram comprovadas, tendo como origem recursos oriundos da campanha eleitoral.

As investigações sobre Queiroz podem provocar estragos no governo atual? Já estão provocando. E podem, dependendo de sua evolução, ameaçar o mandato presidencial.

Com base na sua experiência, que conselho daria ao presidente para administrar a crise? Formar uma boa base parlamentar, dizer que é a favor da democracia e agir em respeito às instituições, não insuflando atos a favor da ditadura e do fechamento do Congresso e do STF. E tomar cuidado com as manifestações de rua. A mesma mão que aplaude apedreja.

“Se Bolsonaro não construir maioria no Congresso, não haverá possibilidade de seu governo chegar até o final. Ao presidente não falta somente apoio político, mas solidariedade a sua figura pessoal”

A que atribui a dificuldade de Bolsonaro para formar a sua base no Congresso? Ele próprio começou a erodir a sua sustentação. O PSL elegeu 52 deputados. Ele tinha um núcleo importante para, em seu entorno, construir a base que lhe permitiria governar sem sobressaltos. Mas brigou com o partido e ficou sem legenda. Numa República federativa, também é importante que o presidente se entenda com governadores e prefeitos, mas ele nunca teve tratamento respeitoso com eles. Se Bolsonaro não construir uma maioria no Congresso, não haverá possibilidade de seu governo chegar até o final. A ele não falta somente apoio político, mas solidariedade a sua figura pessoal. Os projetos aprovados por ampla maioria até agora são fruto dos trabalhos realizados nas duas Casas pelo Rodrigo Maia e pelo Davi Alcolumbre. Essa maioria foi construída por um movimento do Parlamento.

O senhor disse que já viu esse filme… Já vi e não gostei do que vi, sobretudo por causa do final, que foi o meu afastamento. Ele se deu fundamentalmente pela ausência de uma base de sustentação ao meu governo. Cometi um erro gravíssimo. Venho de uma família com quatro gerações na política, fui prefeito, deputado e governador, não poderia ter incorrido nesse erro. Sofri uma reação muito forte, sobretudo da Câmara. O descuido do presidente em criar essa base, junto com a pandemia e o seu comportamento, o deixa na situação que lembra um filme que eu não gostaria que se repetisse.

Esse filme terá o mesmo final? Se ele continuar do jeito que está, se não houver mudança rápida e forte no modo que está conduzindo a si próprio, o seu comportamento pessoal, não restará nenhuma dúvida de que um desenlace haverá. Não saberia dizer quando, mas tudo caminha para um desenlace.

Mas o presidente tem demonstrado um comportamento mais pacífico nas últimas semanas e acenos claros ao Centrão. Essa nova estratégia pode salvá-lo? Bolsonaro faz o que já deveria ter feito há um ano e quatro meses: buscar a construção de sua base parlamentar. Esse movimento precisa ser feito à luz do dia, de uma forma clara. Ele terá de explicar a contradição em que está incorrendo. Terá de dizer ao seu eleitorado, que achou que ele poderia governar sem acordo com os partidos e os políticos, por que está mudando de posição. Eu não concordo com o tom pejorativo que se dá a qualquer entendimento com o Centrão como sendo “toma lá dá cá”. Isso surge apenas quando não ficam claras as bases do entendimento. Caso os acordos venham a ser confirmados, eles serão cumpridos pelos partidos, que ficarão convictos de que têm de defender os projetos do governo, pois são eles que estão no jogo.

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O que acha de o presidente deixar aliados pelo caminho? Bolsonaro não ajuda o seu governo. Quando cobra alinhamento dos ministros, por exemplo, está dizendo que não há outra alternativa a não ser seguir rigorosamente o que ele pensa que deve ser feito. Não admitir o contraditório é o primeiro passo para errar. Em razão disso, dois ministros da Saúde saíram em plena pandemia porque era impossível continuar — ter apego ao diploma e atender às determinações do presidente, que nada entende do assunto.

No seu governo, havia reuniões como aquela do gabinete de Bolsonaro cujo vídeo veio a público? Lamentável como transcorreu aquele encontro ministerial, no qual se cuidou de vários assuntos de ordem pessoal, menos do respeito à civilidade, ao linguajar, às instituições e à pandemia que infelicita a nação. Nossas reuniões obedeciam à liturgia das funções.

Na linha que vem adotando agora de autocrítica sobre sua Presidência, por que resolveu pedir perdão pelo confisco da poupança? Passei a utilizar o Twitter com maior frequência e fiquei impressionado com o número de pessoas que falavam sobre essa questão. Em decorrência disso, resolvi pedir perdão a todos os que estão nessa rede social. Comecei a explicar que enfrentávamos uma inflação de 80% ao mês. Precisávamos passar pelo congelamento de preços e diminuir o dinheiro em circulação. Entre os principais candidatos à Presidência, esse bloqueio passava pela cabeça de todos, da direita à esquerda, não só pela minha equipe econômica. Os recursos foram devolvidos em dezoito parcelas, a última em agosto de 1992, com remuneração acima da taxa da poupança. Houve agruras, mas não posso deixar de dizer que o plano tinha de ser aquele. Foi esse o meu pedido. Fiquei surpreso com a repercussão.

A aposta no Twitter parece estar dando certo. A hashtag #FalaCollor ficou mais de uma vez entre os assuntos mais comentados. Tenho um compromisso de família com a comunicação e entendi que estava atrasado nessa questão das redes sociais. Passei a me dedicar, aproveitando a quarentena. Eu mesmo venho respondendo às mensagens. Isso me dá prazer e gosto de interagir com as pessoas.

Mas a interação na plataforma tem sido dura. Já perguntaram se o senhor prefere sexo à cocaína, se havia magia negra na Casa da Dinda, se ainda tem “aquilo roxo”. Não fica incomodado com isso? Quando aceitamos integrar esse mundo digital, temos de aceitar as regras do jogo. E a regra é não ter regras. Se quero interagir, tenho de oferecer uma resposta, debater. No Twitter, já esclareci que nunca consumi cocaína e que as histórias de magia negra eram fake news.

Já bloqueou alguém? Ninguém. Tem gente que sai, passa uns dois dias brigado e volta. O que tenho achado interessante é que estão surgindo grupos pró-Collor. Criaram a página “Collor Debochado”, que é extremamente simpática às minhas ideias.

“Bolsonaro não ajuda o seu governo. Quando cobra alinhamento dos ministros, está dizendo que não há outra alternativa a não ser seguir rigorosamente o que ele pensa que deve ser feito”

O senhor segue agora o exemplo de Bolsonaro, que sempre apostou nas redes sociais. Em 1989, uma parcela do êxito que eu tive foi pelo fato de ter dominado à época a TV melhor do que os outros. Em 2018, o novo mecanismo era a rede social. Quem melhor manuseou essa ferramenta foi ele.

Em 2018, o senhor ameaçou disputar a Presidência, mas desistiu. Pretende ser candidato de novo? Em 2022, vamos ver. Meu mandato termina em 2023, e a tendência é que eu dispute a reeleição ao Senado.

Como deverá ser a disputa em 2022? Em 1989, fomos 22 candidatos e minha candidatura surgiu como outsider. De repente, a disputa passou a ser entre Collor e Lula. Fazer uma previsão hoje é arriscado. Em 2018, ninguém, no começo, acreditava na eleição do atual presidente. O presidente que será eleito em 2022 ainda não apareceu. Tem muita água para correr sob essa ponte. A pandemia que nos acomete vai fazer vítimas, e não só do vírus, mas da forma como os candidatos estão lidando com esse processo.

O senhor é réu na Lava-Jato por corrupção na Petrobras. Dilma Rousseff foi cassada. Lula e Michel Temer foram presos. Por que tantos ex-presidentes às voltas com a Justiça? Isso significa que as instituições estão funcionando. Algumas se exacerbando, outras cumprindo as estritas atribuições que têm pela Carta. Tenho certeza absoluta de que a boa Justiça está do meu lado. Tive um embate muito duro e forte com aquele procurador (Rodrigo Janot) que disse que iria ao STF tirar a vida de um ministro (Gilmar Mendes). Ele se virou contra mim com toda a artilharia de que dispunha e me levou ao momento que enfrento hoje.

Publicado em VEJA de 29 de julho de 2020, edição nº 2697

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