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Um labirinto infinito

América Latina: tudo volta para o mesmo lugar onde estava antes

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 20 set 2019, 09h56 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

“Creio que com o tempo mereceremos não ter governos.” Injustamente acusado de escrever tolices sentimentais que nunca passariam por sua mente genial, Jorge Luis Borges via quase tudo através do dom de não enxergar quase nada. No passado, via o futuro. Ou entendia que ambos eram parte do mesmo tecido. Quanto merecimento ainda nos faltaria, se não para não ter governos, pelo menos para não repeti-los eternamente. A sina latino-americana de patinar nos mesmos ciclos atinge atualmente, em escala alucinante como sempre, a Argentina. Os peronistas (“Nem bons nem maus, incorrigíveis”, outra tirada do mestre) já repartem cargos e listas de vingança. Nem o menos realista dos argentinos espera menos do que um resultado surrealista na eleição de outubro: Alberto Fernández presidente, tendo sido tirado do limbo e propelido para a Casa Rosada pela vice, Cristina Kirchner.

O cocaleiro Evo Morales quer o quarto mandato. Fantasiar-se de bombeiro não adiantou muito, e o fogaréu infernal continua em Santa Cruz. Além do capitalismo, “o pior inimigo da humanidade”, ele anda curtindo antagonizar-se com o presidente brasileiro.

Mais momentos que não vale a pena ver de novo? No Peru, Keiko Fujimori foi transferida da prisão, para onde a levou a mãe de todas as construtoras corruptoras, e internada numa clínica com “crise hipertensiva”. Exatamente o mesmo caminho percorrido poucos dias antes pelo pai e quase antecessor, Alberto Fujimori. O Peru, famosamente, tem um recorde na categoria: todos os últimos cinco presidentes atolados na lama da corrupção. Um aguarda julgamento, livre por piripaque cardíaco. Outro, juntamente com a digníssima esposa, em liberdade provisória. Um terceiro preso nos Estados Unidos enquanto a extradição não sai. Alan García suicidou-se em abril, prestes a cair na mesma rede.

Das cinquenta cidades mais violentas do mundo, 42 ficam na América Latina. O recordista é o México

O surrealismo dos caminhos que se bifurcam para acabar no mesmo lugar também bate recordes na Colômbia. Depois de uma vantajosa negociação para um acordo de paz que lhe garantiu de graça, sem os votos necessários, um lugar no Senado, o sinistro Iván Márquez, o segundo em comando nas Farc, largou tudo e voltou às armas. Alguns espíritos mais céticos enxergam impressões digitais, das mãos e dos pés, da Venezuela. Quem sabe até da comunhão carnal entre chavismo e narcotráfico.

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Das cinquenta cidades mais violentas do mundo, 42 ficam na América Latina. O mapa faz um colar pela linha litorânea do Brasil, enrosca-­se na Venezuela, estrangula a América Central e termina no México. Este virou o recordista na lista de 2018: quinze cidades. Bateu o Brasil, onde uma queda quase inacreditável no número de homicídios é tratada com indiferença e até repulsa. Base do raciocínio: um governo que faz tudo errado nunca, jamais, poderia levar uma fama dessas.

Memória: tendo começado a trabalhar, aos 38 anos, como auxiliar de uma biblioteca municipal em Buenos Aires, a base de seu futuro modelo de paraíso, Borges foi transferido em 1946, por intervenção de Juan Perón, para o Mercado Central. Cargo: inspetor de aves, coelhos e ovos. Pediu para sair, sabendo muito bem que não existe demissão do labirinto.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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