Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Tutu: ‘O que fizeram com Kadafi nos torna mais desumanos’

Ao lado da ex-presidente irlandesa Mary Robinson, ativista sul-africano destaca trabalho dos Elders e condena quem decide fazer justiça com as próprias mãos

Por Cecília Araújo 28 out 2011, 08h17

“Todos acumulamos experiências e conhecimentos individualmente, mas cada vez mais nos vemos como um grupo. Deixamos o ego de lado para assumir a responsabilidade que nos foi dada pelo próprio Nelson Mandela”

Mary Robinson

Certa vez, o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela fez a seguinte declaração sobre o também Nobel da Paz Desmond Tutu, arcebispo emérito da Cidade do Cabo e ativista veterano do combate ao apartheid: “Se Desmond chegar ao céu e sua entrada for negada, ninguém de nós conseguirá entrar”. Premiado em 1984 pela luta por justiça e reconciliação racial na África do Sul pós-apartheid, Tutu preside hoje um grupo independente de direitos humanos chamado Elders (Anciãos, em português), criado por Mandela em julho de 2007 – sua ideia era seguir uma antiga tradição africana, que reúne os mais velhos e sábios de uma comunidade para dar conselhos aos mais jovens. Pessoalmente, ele convidou figuras políticas de destaque e ativistas de importância global para trabalharem juntos em prol da paz, dos direitos humanos e da promoção da igualdade entre mulheres e homens. Os Elders geralmente atuam em áreas de conflito, locais com problemas humanitários ou onde os direitos humanos são desrespeitados, e usam de sua influência para tratar assuntos negligenciados mundo afora.

Oito membros do grupo, entre eles o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, se reuniram esta semana no Rio de Janeiro para revisar suas atividades, discutir prioridades e planejar as próximas ações. No mesmo dia em que desembarcaram no Brasil, dois deles receberam a reportagem do site de VEJA para uma entrevista exclusiva: Desmond Tutu e Mary Robinson, a primeira mulher eleita presidente da Irlanda e ex-Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos. “Você deveria se sentir culpada por estar abusando do nosso cansaço. Somos velhos”, brincou Tutu, em uma sala do Hotel Santa Teresa, onde ficaram hospedados sob um esquema de segurança máxima. “Foi ótimo ter chegado ao Rio de Janeiro em um dia tão bonito”, exclamou Mary, mais animada e dizendo já ter descansado o suficiente. Antes de dar início à entrevista, que seguiu descontraída por exatos 30 minutos, ele pediu uma Coca Zero, e ela, água gelada. A conversa, então, pode começar:

Antes de se tornarem membros dos Elders – que não podem ocupar cargos públicos nem ter ligações com governos e instituições – todos vocês se destacaram individualmente. Por que acham que foram especialmente convidados por Nelson Mandela para integrar a entidade?

Desmond Tutu: No caso de Mary, acho que a resposta é óbvia. Ela se destacou em tudo o que se propôs a fazer: primeiro como advogada, depois como senadora – até que alcançou o auge, tornando-se presidente da Irlanda. Foi a primeira mulher a chegar ao posto no país. Ainda foi Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, uma evolução natural devido a sua experiência. E, mesmo após tudo isso, ela ainda não se contentou e continua seu trabalho com os Elders. Ela também é maravilhosa como ser humano: calorosa, animada e tem um senso de humor incrível. As pessoas têm uma ideia muito restrita sobre o que é ser uma figura política de destaque, como se todas fossem sempre demasiadamente sérias e difíceis de aproximar. Mary desmitifica isso.

Mary Robinson: Considero importante que o presidente dos Elders não carregue necessariamente em seu histórico um cargo político. Vários membros do nosso grupo foram figuras importantes da política mundial, como o ex-presidente americano Jimmy Carter, a ex-presidente finlandesa Martti Ahtisaari e o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Mas somos todos liderados por alguém que não fala essa mesma língua. E que usa o humor para preencher as lacunas, o que se torna uma forma de comunicação em muitas situações. Tutu é alguém profundamente espiritualizado, com uma bagagem ética bastante forte e que já sofreu muito. Por isso, compartilha do sentimento dos marginalizados, daqueles que são quase invisíveis e precisam de atenção – e os entende melhor do que ninguém. Em nossa recente visita à Costa do Marfim, estivemos com um grupo de refugiados, que foi deslocado da área de conflito onde morava para uma igreja. Eles estavam assustados e passavam muita fome. Naquele momento, não tínhamos nada tangível para oferecer, nem mesmo comida. O que tentávamos dar a eles era um pouco de esperança e mostrar que tinham valor, identidade e importância. Foi comovente quando um deles disse: “Ouvir o que vocês têm a falar é melhor do que comida e água”.

Os integrantes do grupo Elders com Nelson Mandela
Os integrantes do grupo Elders com Nelson Mandela VEJA

Os senhores não aparecem em público separadamente, com o objetivo de reafirmar que são um grupo de objetivos comuns. A união faz a força?

Mary: A coletividade é uma parte muito importante de ser um Elder. Todos nós acumulamos experiências e conhecimentos individualmente, mas cada vez mais nos vemos como um grupo e privilegiamos o que podemos fazer juntos. Deixamos o ego de lado para assumir a responsabilidade que nos foi dada pelo próprio Nelson Mandela. Costumamos dar entrevistas e nos deslocar em grupos de dois ou três, que respondem por todos os Elders.

Continua após a publicidade

E qual é o papel dos Elders no Brasil?

Tutu: Buscamos lembrar vocês, brasileiros, de que realmente alcançam – depois de uma história bastante difícil de ditadura militar – uma economia cada vez mais relevante. Principalmente agora, que fazem parte dos Brics (ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul), que são hoje muito importantes para toda a comunidade internacional. Vocês também se destacam nos esportes, em especial no futebol, e vão receber no país a Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpíada, em 2016. Isso é uma conquista não só do próprio Brasil, mas também significa muito para todos os países em desenvolvimento. Por outro lado, é uma responsabilidade enorme. E é claro que nem tudo são flores aqui. Há problemas sérios, como a desigualdade, que deixa um número enorme de cidadãos marginalizados. Existe a esperança, porém, de que o Brasil torne toda a sua diversidade positiva. O primeiro passo já está dado: é um exemplo de progresso econômico e democrático, especialmente por ter um governo aberto, o que ajuda a encorajar outros a se tornarem mais democráticos. O meu país (África do Sul), por exemplo, tem muito o que aprender com vocês.

Falando em África do Sul, há algumas semanas, Dalai Lama foi impedido de entrar no país para participar de sua festa de aniversário de 80 anos. E o senhor acusou o Congresso Nacional Africano (ANC) de abuso de poder e comparou o atual regime ao do apartheid. O racismo ainda é preocupante?

Tutu: O racismo não se acaba com acordos formais e assinaturas de papeis – é um problema que demora pra ser completamente extinto, algo que não se pode controlar. O mundo passou muito tempo com a ideia de que um homem branco era superior a um negro. É claro que a situação mudou bastante, mas casos de racismo acontecem o tempo todo – mesmo em lugares onde não se imagina. Os irlandeses, por exemplo, foram menosprezados pelos ingleses por muito tempo, porque considerados menos “brilhantes”. E, hoje, essa diferença ainda pode ser vista em brincadeiras preconceituosas. Isso faz parte da realidade de inúmeros povos. Claro que gostaríamos que as pessoas de todo o mundo fossem mais cuidadosas e maduras. Em lugares onde o preconceito leva à violência, gostaríamos de chegar a um acordo de paz mais rapidamente. Mas vivemos neste mundo real, onde as pessoas nem sempre agem como esperamos. Por isso, o quadro vai mudando lentamente. Na África do Sul, muito já foi feito. É surpreendente o que vemos hoje: crianças negras e brancas frequentam as mesmas escolas, todos os cidadãos têm a liberdade de se casar com quem bem entenderem. Há poucos anos, isso era impossível! Seria extremamente ingênuo da nossa parte achar que poderíamos superar o racismo em um piscar de olhos.

Entrevista com Desmond Tutu e Mary Robinson, membros do grupo de direitos humanos The Elders
Entrevista com Desmond Tutu e Mary Robinson, membros do grupo de direitos humanos The Elders VEJA

A última campanha promovida pelos Elders é de combate ao casamento infantil. Por que decidiram priorizar o tema agora e qual sua gravidade no Brasil?

Mary: Vimos que muitas sociedades não sabem muito bem o que podem fazer para ajudar crianças e mulheres a conquistarem seus direitos básicos, muitas vezes desrespeitados tradicionalmente. Então, decidimos ajudá-los, apesar de nossas limitações – somos anciãos e poucos em número. O jeito foi focar em uma área específica: na distorção das religiões, culturas e tradições, que faz com que o papel das mulheres na sociedade seja secundário. Resolvemos ver de perto práticas tradicionais que são prejudiciais às mulheres e descobrimos que o casamento infantil, especificamente, é um problema tão delicado, que poucos se atrevem a enfrentar. Decidimos, então, criar uma campanha mundial: Girls, not brides (Garotas, não noivas, em português). Fomos à Etiópia, onde a média de idade com que as mulheres se casam é 12 anos, especialmente para tratar o assunto. Dentro da cultura local, a prática é vista com normalidade – e não deve ser assim. O que fizemos foi investir na educação das garotas e mulheres, fazê-las discutir sobre um assunto que nunca havia sido colocado em questão. Tive a oportunidade de conversar com uma garota de 16 anos, casada há um ano com um homem mais velho, até então desconhecido. Perguntei o que ela se lembrava do dia de seu casamento. Ela se virou para mim, com o olhar mais triste do mundo, e respondeu: “Foi o dia em que tive de deixar a escola”. É esse tipo de vítimas que buscamos atender. Além da África, a Ásia também sofre do mesmo mal, especialmente a Índia. Mesmo na América, inclusive no Brasil, esse é um problema recorrente, embora em proporções menores. Pretendemos analisar de perto a questão no Brasil, onde vários outros assuntos difíceis parecem ser enfrentados de maneira exemplar, como a homossexualidade e a aids.

A senhora também visitou Ruanda em 1994 e viu de perto as consequências do genocídio. À ocasião, o mundo ficou imóvel diante de um dos maiores massacres da história. Agora, como avalia o desempenho da missão da Otan na Líbia e o fim dado à guerra civil?

Mary: É uma pergunta difícil. Ainda precisaremos de um tempo para avaliar o que ocorreu na Líbia. Nunca é fácil tomar essa decisão para quem está do lado de fora. E temos de nos lembrar que a razão inicial para que o Conselho de Segurança apostasse na intervenção foi a ameaça real que Kadafi representava à população civil. Isso chamou a atenção do mundo para sua responsabilidade de protegê-los. Ao longo da missão, porém, a Otan acabou se engajando do lado dos rebeldes – que depois acabaram iniciando uma luta para a tomada do poder no país – e indo muito além da sua ideia inicial. Proteger os civis é, de fato, extremamente importante. O problema é não conseguir prever até onde a guerra pode chegar. Não concordamos com a forma com que Muamar Kadafi foi tratado: morto com um tiro na cabeça, enquanto poderia ter sido levado à Justiça, o que seria mais apropriado.

Entrevista com Desmond Tutu e Mary Robinson, membros do grupo de direitos humanos The Elders
Entrevista com Desmond Tutu e Mary Robinson, membros do grupo de direitos humanos The Elders VEJA

Kadafi foi um grande apoiador da guerra contra o apartheid. Na década de 1980, chegou a ser elogiado por Mandela por seu posicionamento diante da imparcialidade do resto do mundo. Quando o mocinho virou vilão?

Tutu: A reação positiva de grande parte do mundo diante da sua morte me incomodou bastante. Ele foi muito ruim para a Líbia, realmente. E, pelo mundo, há vários “Kadafis” – a exemplo de Hosni Mubarak (Egito) e Bashar Assad (Síria) – que pensam que podem fazer o que bem entendem. Mas a imagem de que ele é um monstro completo é exagerada. Todos somos filhos de Deus e temos a capacidade de superar as fraquezas que um dia cometemos. Mesmo o pior de nós tem a capacidade de mudar. Nada justifica o que fizeram com Kadafi. Estamos profundamente magoados com a solução encontrada e com o fato de ela ter sido tão aplaudida. Não deveria ser gratificante ver um corpo exposto em um frigorífico para milhares de pessoas. Claro que se ele permanecesse solto, poderia continuar matando civis. Mas a solução seria exonerá-lo, e não fazer justiça com as próprias mãos. Kadafi já teve um pouco do que merecia ao precisar se esconder como um rato em sua própria cidade natal, em seu próprio país. E também seria julgado, da mesma forma que Anders Behring Breivik (o atirador de Oslo), na Noruega. Foi um jeito mais humano de reagir a um massacre. O que fizeram com Kadafi nos torna mais desumanos. Espero que um dia possamos nos redimir.

Continua após a publicidade
Publicidade