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Sudão do Sul faz um ano sem ter muito a comemorar

Para especialista, 'solução para a crise seria manter o país unido. Desenhar uma linha que corta o Sudão em dois é um convite à guerra'

Por Cecília Araújo - 9 jul 2012, 09h16

Em janeiro de 2011, os sudaneses foram às urnas para decidir sobre a possibilidade de dividir o Sudão em dois. O referendo – estipulado pelo Acordo de Paz Global de 2005, assinado pelo Partido do Congresso Nacional (NPC), no poder, e pelo Movimento Popular de Libertação do Sudão (SPLM), ex-grupo armado de oposição sulista – mostrou que 98,83% dos cidadãos do sul eram a favor da sua independência. Seis meses depois, em 9 de julho, nasceu o Sudão do Sul, assumindo como presidente Salva Kiir Mayardit. No mesmo mês, o país tornou-se membro da Organização das Nações Unidas e da União Africana. Líderes de vários grupos armados de oposição assinaram acordos de cessar-fogo com o governo, mas, por prudência, a missão da ONU começou a operar no novo país. Nesta segunda-feira, o Sudão do Sul completa um ano, sem ter muito a comemorar. Em seu primeiro aniversário, o país ainda está em guerra civil, além de ter em curso complexas negociações de pós-independência, sobre divisão de petróleo, demarcações de fronteiras e cidadania.

Para a porta-voz da Oxfam em Juba, Pauline Ballaman, o que tem sido mais difícil para os cidadãos do Sudão do Sul é o fechamento das reservas de petróleo: o fim da produção provocou uma queda de 98% da sua renda. As expectativas da população eram obter finalmente a paz e se desenvolver, com acesso aos lucros vindos do petróleo. Porém, devido à crise com o Norte, as reservas foram fechadas. “Os sudaneses do sul estão passando por tempos difíceis economicamente e tendo de lutar para sustentar suas famílias. Mais da metade da população passa por insegurança alimentar, consequência de não ter um salário, e também por causa do conflito com o norte. Acreditava-se que a situação fosse estar muito mais calma depois de um ano”, diz ao site de VEJA a especialista. Segundo a Anistia Internacional, o conflito armado e a violência entre as diferentes tribos ainda provocam matanças, desalojamentos em massa e destruição de propriedades. As forças de segurança prendem e detêm arbitrariamente jornalistas, membros de grupos de oposição e manifestantes. E o influxo de sudaneses do sul que se refugiaram ou retornaram do Sudão é alto.

Cerca de 73% da população adulta do Sudão do Sul é analfabeta, e a taxa de escolarização no ensino fundamental é de apenas 6%. Mas, no momento, um dos principais desafios é lidar com o alto número de refugiados na região. “Milhares acabam de chegar aos estados de Cordofão do Sul e Nile Azul, antes da estação chuvosa, e outros 8.000 a 10.000 estão prestes a cruzar a fronteira. Mas está cada vez mais difícil, por causa das chuvas. Temos agora 105.000 refugiados na região e estamos longe de ter a situação sob controle. É grande a dificuldade de se conseguir água suficiente, por exemplo. Estamos trabalhando com outras organizações e o governo para identificar lugares potenciais, que sejam seguros, tenham água e sem inundações”, explica Pauline. Segundo ela, os conflitos nesses estados resultaram em ainda mais refugiados, além das disputas étnicas em todo o país, que também causam deslocamentos internos. “Não é uma guerra declarada, mas tem um impacto profundo na vida das pessoas comuns e torna mais difícil o desenvolvimento do país.”

Solução ufanista – Para o norueguês Johan Galtung, especialista em mediação e prevenção de conflitos e fundador do Peace Research Institute of Oslo (PRIO), a divisão do país foi uma péssima ideia. “Tenho trabalhado com o Sudão há anos e acho que a solução para a crise estava na direção oposta: manter o país unido. Desenhar uma linha que corta o Sudão em dois é um convite à guerra – que já está acontecendo e pode se tornar ainda maior”, analisa. De acordo com ele, as potências ocidentais saíram ganhando com a divisão do país. Agora, fica mais fácil ter acesso aos depósitos de petróleo sem a influência da capital do Sudão, Cartum, já que grande parte deles está no sul do país. “Já para os sudaneses, seria melhor ver seu país unido novamente. Eles poderiam dividir o petróleo entre norte e sul de forma igualitária e vender para outros países com mais lucros”, completa. “Acho que os lados já perceberam seu erro. Mas o desastre já aconteceu e vai ser difícil de consertá-lo.”

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A África possui 53 países e 500 tribos, que ultrapassam as fronteiras internacionais. As etnias são basicamente as mesmas, por exemplo, na República Democrática do Congo, em Uganda, no Sudão e no Sudão do Sul. Galtung lembra que algo parecido aconteceu no Afeganistão e no Paquistão. Em 1893, foi desenhada a divisão entre os dois países, estabelecida em um acordo entre o emir Abdur Rahman Khan e o representante do Império Britânico, Mortimer Durand. Com isso, a tribo dos pashtuns foi separada em dois territórios, tendo o mesmo idioma e a mesma organização social. “Na prática, quando atravessamos essas fronteiras, nem se percebe. As divisões ficam apenas nos mapas”, compara. Para o especialista, o Sudão tem apenas duas soluções: se aceitar novamente como uma federação única, mas respeitando a autonomia de suas diferentes tribos e suas línguas próprias; ou amenizar as fronteiras e construir uma grande comunidade, do Oceano Índico (Uganda e Tanzânia) ao Atlântico (República Democrática do Congo e Congo), passando pelo Burundi. E o importante, como lembra Pauline, é a cooperação: “Agora que a divisão foi feita, a comunidade internacional não pode deixar os sudaneses do sul na mão.”

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