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Soterrada pelo vulcão Vesúvio, Pompeia continua a surpreender

Mítica cidade italiana, destruída no século I, abre novo ciclo de escavações e cria expectativa para o que está por vir

Por Sergio Figueiredo Atualizado em 31 ago 2021, 10h03 - Publicado em 29 ago 2021, 08h00

Existem lugares dignos de serem visitados em vida e outros que precisam ser conhecidos antes que desapareçam. No sul da Itália, entretanto, há uma cidade que, apesar de ter perdido todos os seus habitantes e de ter sido enterrada sob 5 metros de entulho vulcânico, não apenas se recusa a morrer como continua entregando em profusão utensílios, afrescos e inscrições que merecem ser contemplados e reverenciados. Patrimônio da humanidade, Pompeia é menos visitada do que o Coliseu — até porque a arena romana, encravada na capital italiana, é de acesso mais fácil —, mas, nos quesitos preservação e tamanho, ela é imbatível como sítio arqueológico, mesmo quando comparada às maravilhas do Egito. Encoberta por um manto de cinzas e pedras-pomes despejadas pela fúria do Vesúvio, cuja erupção, no ano 79 d.C., tirou a vida de todos os habitantes que não fugiram a tempo, a cidade passa agora por um novo ciclo de escavações, que tem como objetivo trazer à luz relíquias que correm o risco de ser danificadas sob o peso dos mesmos detritos que as encapsularam quase 2 000 anos atrás.

arte Mapa Itália

Para entender a relevância de Pompeia, é necessário se localizar no tempo e no espaço. Depois de seu desaparecimento, ela foi elevada ao patamar de lenda. Outras cidades até poderiam ter sido erguidas sobre ela se uma inscrição, descoberta somente em 1763, não trouxesse seu nome mítico à tona. Escavada desde 1748 — antes, porém, sem identificação confirmada —, Pompeia passou a chamar a atenção de gente importante, como Carolina Bonaparte, rainha de Nápoles, que, em 1812, talvez impressionada pelos avanços do irmão mais velho sobre o Egito, alardeou que limparia a área em apenas quatro anos. Dois séculos depois, um terço da cidade continua oculto — o que é uma dádiva, uma vez que os danos provocados pela pressa seriam irremediáveis. “Deixar intacto é parte da estratégia dos arqueólogos, já que sabemos que técnicas mais sofisticadas de escavação surgem com o tempo, permitindo descobertas que, de outra forma, seriam perdidas”, afirma Pedro Funari, professor titular da Unicamp, que conduz estudos de inscrições nos muros de Pompeia.

Ao que tudo indica, um colega de Funari do século XIX, Giuseppe Fiorelli, pensava da mesma forma, pois foi ele quem dividiu o sítio de 66 hectares em nove regiões a fim de promover uma investigação controlada, além de aplicar o método de preencher com gesso líquido os contornos ocos feitos pelos mortos envolvidos pela chuva de cinza fervente. As imagens mórbidas, porém fascinantes, de pessoas em seu último segundo de vida são manequins de gesso extraídos do espaço onde estavam os corpos, que se deterioraram até desaparecer. Somente Pompeia pode revelar tesouros tão preciosos, uma vez que a vizinha Herculano foi colhida pela segunda onda de destruição do Vesúvio, constituída de gases superaquecidos que efetivamente cozinharam cerca de 300 pessoas, deixando apenas os ossos.

PRESERVAÇÃO VESUVIANA - A forma em gesso de uma das vítimas de Pompeia (acima) e os restos mortais dos habitantes de Herculano (abaixo): resultados diferentes de uma mesma tragédia dois milênios atrás -
PRESERVAÇÃO VESUVIANA – A forma em gesso de uma das vítimas de Pompeia (acima) e os restos mortais dos habitantes de Herculano (abaixo): resultados diferentes de uma mesma tragédia dois milênios atrás – Floriano Rescigno/Getty Images; iStock/Getty Images

No século XX, os trabalhos em Pompeia aceleraram e o sítio começou a receber turistas regularmente — metade da área escavada é aberta ao público. O Grande Projeto Pompeia, fundado na década passada com o apoio da Comunidade Europeia, lançou as bases para a restauração dos setores expostos às intempéries, mas um problema geológico forçou as autoridades a avançar, talvez antes do planejado, na região V, ao norte da cidade. Sob a ameaça de perder o quadrante para o peso da rocha vulcânica, os arqueólogos adentraram no local e, desde 2018, têm revelado afrescos vívidos, ânforas, oficinas e até um termopólio, restaurante de fast-food da época. Funari acredita que Pompeia ainda tem surpresas a entregar, em especial no que se refere a inscrições em paredes que podem ajudar a entender melhor como era a vida das pessoas no século I. Além disso, ele esclarece que existem vestígios dos povos que ocuparam a cidade antes dos romanos, como gregos e etruscos, nos níveis inferiores, que não podem ser alcançados com as técnicas de hoje sem avariar as construções. Portanto, a estratégia de deixar intacto vem a calhar outra vez, a fim de garantir que o passado paciente resista ao presente apressado.

Publicado em VEJA de 1 de setembro de 2021, edição nº 2753

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