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Sob novo comando, Itamaraty não deve apresentar rupturas

Com política externa pautada pela continuidade, é difícil esperar que Luiz Alberto Figueiredo promova grandes mudanças durante sua gestão

Por Gabriela Loureiro, de São Paulo, e Gabriel Castro, de Brasília - 29 ago 2013, 07h49

A política externa do Brasil sob o governo do PT passou por um período de euforia durante o governo Lula, marcado pela estratégia “megalonanica” que pretendia transformar o país no contraponto dos Estados Unidos no xadrez da política global, e perdeu holofotes sob o comando de Dilma Rousseff, que não impôs propriamente uma doutrina na chancelaria com Antonio Patriota. Houve continuidade, pilares como a prioridade à América do Sul foram mantidos, porém, com uma postura mais proativa na cobrança de respeito aos direitos humanos em todos os países e com episódios como a decisão de evitar receber em audiência o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que esteve no Brasil durante a cúpula ambiental Rio+20. A engrenagem continuou contando com o assessor de assuntos internacionais do governo Marco Aurélio Garcia, que tem forte atuação com os vizinhos latino-americanos. É difícil esperar que o novo ministro Luiz Alberto Figueiredo promova uma grande mudança a partir de agora.

Até porque, questões que têm atraído mais a atenção da presidente, como os problemas econômicos, permanecem no cenário. “A partir de 2010, a economia começou a sangrar e isso coincidiu com a entrada de Dilma, que dá total prioridade a questões internas. Além disso, nos últimos meses prevaleceu a preocupação com a eleição, e as iniciativas de politica externa praticamente desapareceram”, avalia o diplomata e ex-embaixador do Brasil nos EUA, Rubens Barbosa. “Figueiredo vai terminar o mandato de Dilma sem iniciativas, cumprindo o dia a dia, sem grandes inovações”, acredita.

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Ambiente – Tido como diplomata competente, Figueiredo não chefiou nenhuma representação brasileira no exterior, mas conquistou a confiança da presidente com sua atuação na área ambiental, na qual se especializou. No ano passado, quando coordenou as negociações da Rio+20, no Rio de Janeiro, ele foi o responsável pelo documento assinado pelos 188 países. Um texto sem definições sobre questões intrincadas, mas que foi aceito por consenso.

A postura incansável do diplomata nas negociações agradou a presidente. “Nessa última missão, de salvar a Rio+20 de um desastre anunciado, Figueiredo se mostrou um articulador bastante competente. Mas ele é um especialista, voltado para o meio ambiente. Não sei se ele vai saber lidar com uma pessoa tão difícil como a presidente”, disse ao site de VEJA o professor de Ciência Política e Relações Internacionais da USP José Augusto Guilhon de Albuquerque.

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Figueiredo já havia trabalhado com Dilma na Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas realizada em Copenhague, Dinamarca, em 2009. Ele foi negociador-chefe no encontro ao qual Dilma compareceu como chefe da Casa Civil. “Dos diplomatas em atuação, ele era o que teve maior contato com a presidente. Ela se familiarizou muito com ele e gostou da maneira afirmativa como ele lidou com as negociações ambientais”, avaliou Barbosa.

Carioca de 58 anos, formado em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Figueiredo entrou no Itamaraty em 1980 e, no mesmo ano, já começou a atuar nas Nações Unidas como diplomata-assistente. Antes de assumir o Itamaraty, foi representante do Brasil na ONU, posto que passará a ser ocupado por Patriota. O ex e o atual chanceler são amigos pessoais – se conheceram há três décadas, durante o curso de formação do Instituto Rio Branco.

Ao tomar posse nesta quarta-feira, o novo ministro recorreu ao passado recente do Itamaraty, mencionando seu antecessor e também o ex-presidente Lula, a quem agradeceu pela indicação para o posto nas Nações Unidas. Sobre Patriota, o apontou como uma “inspiração”. “A tarefa é desafiadora. Trata-se de suceder um dos maiores talentos da diplomacia brasileira. Nele me inspiro para enfrentar as variadas e complexas questões internacionais que cabem a um país como o Brasil”. Acrescentou que uma de suas missões é aproximar o Itamaraty da sociedade civil e do Parlamento.

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Passagem de bastão – A saída de Patriota não ocorreu da melhor forma – havia uma indisposição anterior com a presidente Dilma Rousseff que o tirou do cargo depois da operação de retirada do senador boliviano Roger Pinto Molina da embaixada brasileira em La Paz, no último fim de semana.

“A gestão do Patriota foi muito limitada porque ele não tinha acesso ao Palácio do Planalto e o palácio no governo do PT passou a ter uma atuação muito direta nas relações exteriores, uma interferência que aumentou com Dilma”, disse Guilhon. “A presidente cultivava uma enorme antipatia pelo Patriota. Como um diplomata bastante competente, dentro dessas limitações, ele fez o que pôde”.

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