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Eleições nos EUA: quem é Abdul El-Sayed, primeiro muçulmano a chegar no Senado no país

Com uma plataforma progressista, ele superou Mike Rogers, aliado de Trump, garantindo uma cadeira decisiva para os democratas no Congresso

Por Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 nov 2026, 07h44 | Atualizado em 4 nov 2026, 10h33
Eleições nos EUA: quem é Abdul El-Sayed, primeiro muçulmano a chegar no Senado no país Priorize VEJA no Google

Nas primeiras horas desta quarta-feira, 4, o centro de convenções dos democratas em Detroit transformou-se no palco de um marco sem precedentes na história política dos Estados Unidos. Ao declarar vitória na disputa pela vaga aberta do estado de Michigan no Senado americano, o médico e gestor de saúde pública Abdul El-Sayed assegurou uma cadeira decisiva para a mudança de comando no Congresso e rompeu uma barreira histórica ao se tornar o primeiro muçulmano eleito para a câmara alta do país.

El-Sayed superou o republicano Mike Rogers, escolhido a dedo pelo presidente Donald Trump, com 51,8% dos votos válidos contra 46,2%. Aos 42 anos, o candidato da ala progressista do Partido Democrata superou uma acirrada disputa para suceder o senador democrata Gary Peters, que anunciou sua aposentadoria. O resultado integrou uma reviravolta nacional da oposição nas eleições de meio de mandato, desmontando a maioria que os republicanos detinham no Congresso, impulsionada também por vitórias surpreendentes no Texas, Kansas e Carolina do Sul.

Em seu discurso de vitória em Detroit, El-Sayed celebrou a mobilização popular construída ao longo de um ano e meio de campanha em grandes metrópoles e pequenas cidades do interior de Michigan. “Vocês arriscaram no mais improvável dos candidatos”, disse o senador eleito aos apoiadores. “Vocês me acolheram em suas casas, em suas igrejas, em suas sinagogas.”

Na mesma celebração, o democrata fez questão de marcar a importância simbólica do momento com um recado direto ao vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que ao lado de Trump liderou duros ataques à sua fé islâmica.

“.J.D, habibi, há uma ironia deliciosa no fato de que você é constitucionalmente obrigado a me empossar em janeiro”, cutucou.

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Uma mulher sorridente com hijab cinza e vestido azul-marinho, mão no peito, ao lado de um homem barbudo sorridente de terno escuro e camisa branca, atrás de um púlpito roxo com ABDUL US SENATE THANK YOU MICHIGAN. Bandeiras dos EUA e de Michigan ao fundo
O democrata Abdul El-Sayed, e sua esposa, Dra. Sarah Jukaku, sobem ao palco após ele declarar vitória nas eleições de meio de mandato e se tornar senador por Michigan, em 4 de novembro de 2026 (JEFF KOWALSKY/AFP)

Trajetória na saúde pública

Filho de imigrantes egípcios e nascido em Rochester Hills, no estado de Michigan, Abdul El-Sayed trilhou uma sólida trajetória acadêmica e científica antes de ingressar na arena política. Graduou-se em biologia e ciência política pela Universidade de Michigan em 2007. Como bolsista Rhodes, obteve o doutorado em saúde pública pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, em 2011.

Em 2014, concluiu a formação médica com o título de doutor em medicina pela Universidade Columbia, em Nova York, onde passou a atuar como professor de epidemiologia. Em 2015, assumiu o cargo de diretor do Departamento de Saúde de Detroit, a maior cidade de Michigan, liderando os esforços de reconstrução dos serviços públicos de saúde municipal em meio ao processo de recuperação da grave crise financeira da metrópole. O médico permaneceu na função até 2017.

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Entre 2023 e 2025, voltou à gestão pública local como diretor do Departamento de Saúde, Serviços Humanos e de Veteranos do Conde de Wayne, jurisdição que abrange a região metropolitana de Detroit.

Na vida pessoal, El-Sayed é casado com a psiquiatra Sarah Jukaku, de origem indiana e também de fé muçulmana. O casal vive em Michigan com suas duas filhas. Na reta final da campanha, o candidato buscou humanizar sua imagem junto ao eleitorado veiculando anúncios de televisão que o apresentavam no papel de um pai de família dedicado.

As polêmicas medidas de Donald Trump

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Ingresso na política e progressismo

A estreia de El-Sayed nas urnas ocorreu em 2018, quando disputou a primária democrata para o governo de Michigan, sendo derrotado pela atual governadora Gretchen Whitmer. Em 2026, contudo, o médico retornou ao cenário eleitoral para disputar a indicação do partido ao Senado.

Nas primárias democratas realizadas em agosto de 2026, El-Sayed desbancou a deputada federal Haley Stevens, nome apoiado pela cúpula tradicional do Partido Democrata. A vitória da insurreição progressista ocorreu mesmo diante do investimento massivo do United Democracy Project — Super PAC ligado a um grupo pro-Israel —, que despejou cerca de US$ 30 milhões na primária com o objetivo de derrotá-lo, estabelecendo um recorde de gastos para uma única disputa interna.

A campanha de El-Sayed ancorou-se no combate à inflação de itens essenciais para as famílias trabalhadoras e na redução da influência de grandes doadores corporativos na política de Washington:

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  • Saúde universal (“Medicare for All”): proposta de criação de um sistema público de saúde universal financiado pelo governo federal, garantindo cobertura ampla e a eliminação de dívidas médicas.
  • Controle do custo de vida: medidas voltadas para a redução de custos de habitação, aluguel, combustíveis e gêneros alimentícios.
  • Combate à influência corporativa: restrições ao financiamento de campanha por parte de corporações e doadores de grande porte.
  • Redirecionamento de recursos públicos: defesa de que a arrecadação de impostos seja investida prioritariamente na infraestrutura local, escolas públicas e saúde no país, em vez de financiar guerras ou auxílios militares no exterior.

A plataforma atraiu o endosso de expressivas lideranças da ala progressista, como os senadores Bernie Sanders, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) e a deputada por Michigan Rashida Tlaib. Na reta final da campanha geral, a candidatura recebeu ainda o apoio ostensivo do ex-presidente Barack Obama, que participou de comícios ao lado do candidato.

Islamofobia e o fator Gaza

A corrida eleitoral em Michigan figurou entre as mais caras e polarizadas do país, registrando mais de US$ 220 milhões em investimentos publicitários acumulados até meados de outubro. Nesse ambiente, a fé islâmica de El-Sayed converteu-se em alvo frequente da campanha republicana comandada por Mike Rogers, de 63 anos — ex-deputado federal e ex-agente do FBI que havia disputado o Senado em 2024, perdendo para Elissa Slotkin por apenas 0,3 ponto percentual.

O ex-presidente Donald Trump e lideranças conservadoras intensificaram a artilharia verbal contra o democrata, classificando-o como “comunista” e “jihadista”, e aludindo a supostas ligações não comprovadas com a Irmandade Muçulmana egípcia. Trump chegou a declarar em tom pejorativo que o candidato precisaria passar por um detector de metais para ingressar no Senado. El-Sayed rebateu as acusações afirmando que os adversários recorriam a estereótipos islamofóbicos para desviar a atenção dos problemas econômicos reais da população.

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Questionado sobre sua religião durante um evento público de campanha, o democrata buscou delimitar o caráter secular de sua atuação política: “Sou apenas um candidato ao Senado que, por acaso, é muçulmano”, disse.

No campo da política externa, a postura de El-Sayed em relação ao Oriente Médio provocou intensos debates. O médico posicionou-se como um crítico enfático do envio de ajuda militar americana a Israel, classificando a ofensiva em Gaza como genocídio e regime de apartheid. As declarações geraram inquietação entre eleitores judeus e alas moderadas dos democratas. Faltando apenas dois dias para a eleição geral, a deputada derrotada nas primárias Haley Stevens declarou apoio público ao republicano Mike Rogers, citando divergências com a retórica do vencedor sobre Israel — atitude que gerou forte rejeição na base democrata, mas não impediu a vitória de El-Sayed.

Por outro lado, Rogers enfrentou desafios para conter a insatisfação do eleitorado com os rumos da economia e com a impopularidade de Trump. Em agosto, uma pesquisa do canal Fox News apontava que 54% dos eleitores de Michigan consideravam as posições de El-Sayed extremas, contudo 51% viam Rogers como excessivamente alinhado a Trump. Nas semanas derradeiras da disputa, o republicano tentou se afastar do ex-presidente ao defender o fim da disputa comercial com o Canadá e a conclusão do conflito com o Irã, sustentando que o término de ambas as crises era indispensável para baixar os custos de empresas e consumidores.

Marco histórico

A vitória de Abdul El-Sayed representa um marco inédito para a representatividade política islâmica nos Estados Unidos. Embora cidadãos muçulmanos já tenham integrado a Câmara dos Deputados — a começar por Keith Ellison, em 2006, e seguido por Rashida Tlaib e Ilhan Omar, eleitas em 2018 —, nenhum muçulmano havia conseguido conquistar um assento no Senado dos Estados Unidos.

Ao discursar para apoiadores após a confirmação do resultado nas urnas, El-Sayed resumiu o espírito de sua campanha ao rejeitar as tentativas de divisão promovidas por seus detratores: “Eles querem uma América que seja pequena demais para alguns de nós. Nós sabemos que a América é grande o suficiente para todos nós”, declarou.

Prestes a tomar posse em janeiro de 2026, o novo senador por Michigan chega a Washington combinando o perfil técnico de epidemiologista e gestor de saúde com a força política de um expoente progressista, prometendo levar para o centro das decisões legislativas as pautas de justiça social, saúde pública universal e reforma política.

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