Eleições nos EUA: quem é Abdul El-Sayed, primeiro muçulmano a chegar no Senado no país
Com uma plataforma progressista, ele superou Mike Rogers, aliado de Trump, garantindo uma cadeira decisiva para os democratas no Congresso
Nas primeiras horas desta quarta-feira, 4, o centro de convenções dos democratas em Detroit transformou-se no palco de um marco sem precedentes na história política dos Estados Unidos. Ao declarar vitória na disputa pela vaga aberta do estado de Michigan no Senado americano, o médico e gestor de saúde pública Abdul El-Sayed assegurou uma cadeira decisiva para a mudança de comando no Congresso e rompeu uma barreira histórica ao se tornar o primeiro muçulmano eleito para a câmara alta do país.
El-Sayed superou o republicano Mike Rogers, escolhido a dedo pelo presidente Donald Trump, com 51,8% dos votos válidos contra 46,2%. Aos 42 anos, o candidato da ala progressista do Partido Democrata superou uma acirrada disputa para suceder o senador democrata Gary Peters, que anunciou sua aposentadoria. O resultado integrou uma reviravolta nacional da oposição nas eleições de meio de mandato, desmontando a maioria que os republicanos detinham no Congresso, impulsionada também por vitórias surpreendentes no Texas, Kansas e Carolina do Sul.
Em seu discurso de vitória em Detroit, El-Sayed celebrou a mobilização popular construída ao longo de um ano e meio de campanha em grandes metrópoles e pequenas cidades do interior de Michigan. “Vocês arriscaram no mais improvável dos candidatos”, disse o senador eleito aos apoiadores. “Vocês me acolheram em suas casas, em suas igrejas, em suas sinagogas.”
Na mesma celebração, o democrata fez questão de marcar a importância simbólica do momento com um recado direto ao vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que ao lado de Trump liderou duros ataques à sua fé islâmica.
“.J.D, habibi, há uma ironia deliciosa no fato de que você é constitucionalmente obrigado a me empossar em janeiro”, cutucou.
Trajetória na saúde pública
Filho de imigrantes egípcios e nascido em Rochester Hills, no estado de Michigan, Abdul El-Sayed trilhou uma sólida trajetória acadêmica e científica antes de ingressar na arena política. Graduou-se em biologia e ciência política pela Universidade de Michigan em 2007. Como bolsista Rhodes, obteve o doutorado em saúde pública pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, em 2011.
Em 2014, concluiu a formação médica com o título de doutor em medicina pela Universidade Columbia, em Nova York, onde passou a atuar como professor de epidemiologia. Em 2015, assumiu o cargo de diretor do Departamento de Saúde de Detroit, a maior cidade de Michigan, liderando os esforços de reconstrução dos serviços públicos de saúde municipal em meio ao processo de recuperação da grave crise financeira da metrópole. O médico permaneceu na função até 2017.
Entre 2023 e 2025, voltou à gestão pública local como diretor do Departamento de Saúde, Serviços Humanos e de Veteranos do Conde de Wayne, jurisdição que abrange a região metropolitana de Detroit.
Na vida pessoal, El-Sayed é casado com a psiquiatra Sarah Jukaku, de origem indiana e também de fé muçulmana. O casal vive em Michigan com suas duas filhas. Na reta final da campanha, o candidato buscou humanizar sua imagem junto ao eleitorado veiculando anúncios de televisão que o apresentavam no papel de um pai de família dedicado.
Ingresso na política e progressismo
A estreia de El-Sayed nas urnas ocorreu em 2018, quando disputou a primária democrata para o governo de Michigan, sendo derrotado pela atual governadora Gretchen Whitmer. Em 2026, contudo, o médico retornou ao cenário eleitoral para disputar a indicação do partido ao Senado.
Nas primárias democratas realizadas em agosto de 2026, El-Sayed desbancou a deputada federal Haley Stevens, nome apoiado pela cúpula tradicional do Partido Democrata. A vitória da insurreição progressista ocorreu mesmo diante do investimento massivo do United Democracy Project — Super PAC ligado a um grupo pro-Israel —, que despejou cerca de US$ 30 milhões na primária com o objetivo de derrotá-lo, estabelecendo um recorde de gastos para uma única disputa interna.
A campanha de El-Sayed ancorou-se no combate à inflação de itens essenciais para as famílias trabalhadoras e na redução da influência de grandes doadores corporativos na política de Washington:
- Saúde universal (“Medicare for All”): proposta de criação de um sistema público de saúde universal financiado pelo governo federal, garantindo cobertura ampla e a eliminação de dívidas médicas.
- Controle do custo de vida: medidas voltadas para a redução de custos de habitação, aluguel, combustíveis e gêneros alimentícios.
- Combate à influência corporativa: restrições ao financiamento de campanha por parte de corporações e doadores de grande porte.
- Redirecionamento de recursos públicos: defesa de que a arrecadação de impostos seja investida prioritariamente na infraestrutura local, escolas públicas e saúde no país, em vez de financiar guerras ou auxílios militares no exterior.
A plataforma atraiu o endosso de expressivas lideranças da ala progressista, como os senadores Bernie Sanders, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) e a deputada por Michigan Rashida Tlaib. Na reta final da campanha geral, a candidatura recebeu ainda o apoio ostensivo do ex-presidente Barack Obama, que participou de comícios ao lado do candidato.
Islamofobia e o fator Gaza
A corrida eleitoral em Michigan figurou entre as mais caras e polarizadas do país, registrando mais de US$ 220 milhões em investimentos publicitários acumulados até meados de outubro. Nesse ambiente, a fé islâmica de El-Sayed converteu-se em alvo frequente da campanha republicana comandada por Mike Rogers, de 63 anos — ex-deputado federal e ex-agente do FBI que havia disputado o Senado em 2024, perdendo para Elissa Slotkin por apenas 0,3 ponto percentual.
O ex-presidente Donald Trump e lideranças conservadoras intensificaram a artilharia verbal contra o democrata, classificando-o como “comunista” e “jihadista”, e aludindo a supostas ligações não comprovadas com a Irmandade Muçulmana egípcia. Trump chegou a declarar em tom pejorativo que o candidato precisaria passar por um detector de metais para ingressar no Senado. El-Sayed rebateu as acusações afirmando que os adversários recorriam a estereótipos islamofóbicos para desviar a atenção dos problemas econômicos reais da população.
Questionado sobre sua religião durante um evento público de campanha, o democrata buscou delimitar o caráter secular de sua atuação política: “Sou apenas um candidato ao Senado que, por acaso, é muçulmano”, disse.
No campo da política externa, a postura de El-Sayed em relação ao Oriente Médio provocou intensos debates. O médico posicionou-se como um crítico enfático do envio de ajuda militar americana a Israel, classificando a ofensiva em Gaza como genocídio e regime de apartheid. As declarações geraram inquietação entre eleitores judeus e alas moderadas dos democratas. Faltando apenas dois dias para a eleição geral, a deputada derrotada nas primárias Haley Stevens declarou apoio público ao republicano Mike Rogers, citando divergências com a retórica do vencedor sobre Israel — atitude que gerou forte rejeição na base democrata, mas não impediu a vitória de El-Sayed.
Por outro lado, Rogers enfrentou desafios para conter a insatisfação do eleitorado com os rumos da economia e com a impopularidade de Trump. Em agosto, uma pesquisa do canal Fox News apontava que 54% dos eleitores de Michigan consideravam as posições de El-Sayed extremas, contudo 51% viam Rogers como excessivamente alinhado a Trump. Nas semanas derradeiras da disputa, o republicano tentou se afastar do ex-presidente ao defender o fim da disputa comercial com o Canadá e a conclusão do conflito com o Irã, sustentando que o término de ambas as crises era indispensável para baixar os custos de empresas e consumidores.
Marco histórico
A vitória de Abdul El-Sayed representa um marco inédito para a representatividade política islâmica nos Estados Unidos. Embora cidadãos muçulmanos já tenham integrado a Câmara dos Deputados — a começar por Keith Ellison, em 2006, e seguido por Rashida Tlaib e Ilhan Omar, eleitas em 2018 —, nenhum muçulmano havia conseguido conquistar um assento no Senado dos Estados Unidos.
Ao discursar para apoiadores após a confirmação do resultado nas urnas, El-Sayed resumiu o espírito de sua campanha ao rejeitar as tentativas de divisão promovidas por seus detratores: “Eles querem uma América que seja pequena demais para alguns de nós. Nós sabemos que a América é grande o suficiente para todos nós”, declarou.
Prestes a tomar posse em janeiro de 2026, o novo senador por Michigan chega a Washington combinando o perfil técnico de epidemiologista e gestor de saúde com a força política de um expoente progressista, prometendo levar para o centro das decisões legislativas as pautas de justiça social, saúde pública universal e reforma política.






