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Os colombianos entram em greve geral e saem às ruas para protestar

Parte da população está indignada com a proposta de reforma tributária do governo e com a violência policial

Por Caio Saad, Julia Braun Atualizado em 14 Maio 2021, 09h32 - Publicado em 14 Maio 2021, 06h00

Pense em um país mergulhado em uma intensa onda de contágio do novo coronavírus, com quase todos os leitos de UTI da capital ocupados e a vacinação se arrastando a passos lentos. Esmagada pelo efeito da pandemia sobre a economia, quase metade da população escorregou para a linha da pobreza, sem jamais receber o auxílio prometido pelo governo. Nesse clima de desespero e insatisfação, o presidente tomou a desastrada decisão de anunciar uma reforma tributária “para garantir programas sociais” que, entre outras coisas, aumenta o imposto de renda da classe média e eleva os tributos sobre itens de primeira necessidade. Foi exatamente o que fez o conservador Iván Duque, da Colômbia, desencadeando nos últimos dias de abril uma escalada de protestos que já atinge mais de 200 cidades e não dá mostras de arrefecer. “A população se sente asfixiada por medidas que nunca dão resultado”, diz o cientista político Miguel García Sánchez, da Universidade dos Andes, em Bogotá. “Só mesmo um governo politicamente inepto pensaria em apresentar uma reforma tributária pesada nesse contexto.” Depois de quatro dias de confrontos nas ruas e pelo menos cinco mortos, a reforma foi suspensa, o ministro das Finanças caiu e Duque propôs um “diálogo nacional”. Mas as manifestações não pararam, insufladas agora pelos excessos da repressão policial à base de metralhadoras e helicópteros. Até quinta-feira 13, 170 pessoas estavam desaparecidas e o número oficial de mortos era 27, embora entidades independentes falem em até 47 vítimas. “Pare já com a violação dos direitos humanos e restaure o valor da vida acima dos interesses políticos”, exigiu no Twitter a cantora Shakira, provavelmente a colombiana mais famosa do mundo. Uma das novas demandas dos manifestantes é justamente a dissolução do temido Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad), a tropa de choque da polícia — medida logo descartada por Duque, que atribuiu os conflitos à “máfia dos traficantes de drogas”.

O ciclo de protestos e brutalidade na Colômbia é anterior à pandemia. A assinatura do acordo de paz, em setembro de 2016, entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) transformou o grupo armado em partido político, mas deixou cicatrizes na sociedade, que considerou o pacto leniente demais. Duque, inimigo do acordo, assumiu a Presidência em seguida e muitos dos termos acertados nunca foram devidamente cumpridos. “A saída das Farc das áreas que ocupavam deixou um vácuo de poder que passou a ser disputado por outros grupos criminosos, produzindo muita violência”, explica Clara Rocío Rodríguez, professora da Universidade Nacional da Colômbia. Segundo a organização Indepaz, houve no ano passado quase 100 massacres com pelo menos três mortos no país e este ano já ocorreram outros 35. Recente levantamento mostra que a Colômbia é o país que mais mata líderes sociais e ativistas — foram 177 homicídios apenas em 2020. Na terceira maior cidade, Cali — um corredor do narcotráfico para o Pacífico assolado pela falta de segurança e pela desigualdade —, as emissoras e as redes sociais exibiram cenas de guerra e o Exército foi chamado a intervir.

HORA ERRADA - Duque: aumento de impostos em plena pandemia -
HORA ERRADA - Duque: aumento de impostos em plena pandemia – Mauricio Dueñas Castañeda/EFE

Os primeiros encontros das autoridades com líderes sindicais, que promovem uma greve geral, não deram em nada, aprofundando as dúvidas sobre a capacidade e a força política de Duque para conter a crise em meio a uma baixíssima taxa de aprovação. “Não houve empatia do governo com as razões que nos levaram à greve, nem com as vítimas da violência desproporcional da polícia contra os manifestantes”, disse Francisco Maltés, presidente da CUT colombiana. O comitê de greve convocou novas paralisações. Desde que a pandemia lançou no abismo as economias regionais, e diante da má gestão quase universal do combate à Covid-19, a América do Sul vem se mostrando mais suscetível a conflagrações populares, que já sacudiram a Bolívia, o Paraguai, o Equador e, agora, abalam a Colômbia.

A crise, é inegável, pôs em maior evidência os cenários que assolam de forma parecida a região: empobrecimento, uma terrível desigualdade social e ampla polarização política. Precisando lidar com 20% das vítimas da Covid-19, embora concentre 5,5% da população mundial, e tendo 6% dos cidadãos totalmente imunizados, as nações sul-americanas ainda devem enfrentar muita turbulência pela frente. E há apenas uma saída: o pleno respeito à democracia.

Publicado em VEJA de 19 de maio de 2021, edição nº 2738

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