Meninas pelo clima
Indicada ao Nobel da Paz, lidera em mais de 100 países um gigantesco movimento juvenil que exige atenção para o aquecimento global
Desde o dia 24 de agosto de 2018, toda tarde de sexta-feira, faça sol, chuva ou neve, a adolescente Greta Thunberg falta às aulas para sentar-se nas escadarias do Parlamento da Suécia segurando uma placa que diz: “Em greve escolar pelo clima”. Com seu ato de rebeldia, a menina discreta, de semblante sério e cabelo loiro preso em duas tranças, desencadeou uma espécie de desobediência civil entre jovens do mundo todo que se mobilizam em torno da questão das mudanças climáticas. Na maior e mais recente mostra da força de sua campanha, na sexta-feira 15 um exército juvenil convocado pelas redes sociais marchou em 1 769 cidades de 112 países para cobrar das autoridades maior atenção ao tema. Um dia antes, Greta, 16 anos, foi indicada pelo deputado socialista norueguês Freddy Øvstegård ao Prêmio Nobel da Paz.
O interesse da garota pelas questões ambientais começou aos 9 anos, quando assistiu na escola a vídeos que discutiam os impactos do aquecimento global. O problema nunca mais lhe saiu da cabeça e praticamente moldou sua vida. Greta tornou-se vegetariana, plantou uma horta e abriu mão de viajar de avião, entre outras resoluções. A decisão de dar plantão no Parlamento surgiu no mais recente verão do Hemisfério Norte, quando o calor drástico castigou a população europeia. “Vou fazer greve todas as sextas-feiras até que a Suécia esteja alinhada com o Acordo Climático de Paris”, anunciou ela, dando início ao movimento batizado de Sextas pelo Futuro. Para Greta, que sofre de síndrome de Asperger (uma espécie de autismo) e passou por uma depressão aos 11 anos, o ativismo só traz benefícios. “O mundo solitário continua em mim. Mas está diminuindo, e o mundo real está ficando maior”, diz.
Tamanha é a influência de Greta nas questões climáticas que em dezembro ela discursou na Conferência do Clima da ONU, na Polônia, e em janeiro fez uma apresentação no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça — onde deu bronca nos altos executivos da plateia, que a ouviram calados. Ao lado de Greta atua hoje uma novíssima geração de líderes ambientalistas que nada têm a ver com a turma das antigas, como o americano Al Gore. São adolescentes preocupadas com o próprio futuro, a exemplo das belgas Anuna de Wever, de 17 anos, e Kyra Gantois, de 20, que acabam de lançar o livro Nós Somos o Clima; da britânica Anna Taylor, de 17; das australianas Harriet O’Shea Carre e Milou Albrecht, de 14; e da americana Isra Hirsi, de 16 — todas organizadoras da marcha mundial em seu país. “A história de Greta é simples e inspiradora. Faz com que outros jovens também se sintam transformadores”, diz Ilona Dougherty, da Universidade de Waterloo, no Canadá. O meio ambiente agradece.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2019, edição nº 2627
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