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Mariscos e camarões ajudam a reerguer povoado arrasado pelo tsunami no Japão

Andrés Sánchez Braun.

Ogatsu (Japão), 18 dez (EFE).- Pouco mais de nove meses depois de o tsunami arrasar literalmente a localidade de Ogatsu, uma vila de pescadores no nordeste do Japão, agora uma pequena aventura empresarial tenta reinventar a indústria local e ressuscitar o povoado.

Fundada em agosto, a sociedade retomou o cultivo de mariscos e camarões, atividade pela qual a região era famosa antes do desastre por estar localizada ao fim de uma estreita e sinuosa baía de águas tranquilas.

O sossego foi quebrado pelo terremoto de 11 de março e o posterior tsunami, que devorou o povoado em meia hora.

Hiromitsu Itoh – pescador de Ogatsu e fundador da empresa – lembra bem o som que pressagiava a chegada de água: ‘era o barulho do desprendimento das rochas’, descreve.

Itoh explica que, pelo fato de o vilarejo ficar no fim da baía e completamente rodeado de montanhas, o efeito do tsunami foi como o de uma banheira transbordando em grande velocidade.

Por sorte, a maioria dos moradores, pessoas que conhecem o mar, identificaram o que se aproximava e refugiaram-se nas colinas, a partir de onde viram o mar engolia o povoado que agora ressurge aos poucos.

Itoh e Takashi Tachibana, o outro sócio-fundador da empresa, explicam com assombrosa integridade os efeitos do desastre em frente ao colégio de Ensino Médio de Ogatsu, cujos três andares, que somam 18 metros de altura, foram cobertos pela água.

Em março, Tachibana chegou a partir de Tóquio como voluntário a Ogatsu e conheceu Itoh e o diretor da escola, e se uniu a eles no desejo de devolver vida a este lugar.

Tachibana deixou de vez a capital e mudou-se para o povoado, onde vivem somente 1 mil dos 4,3 mil habitantes. A maioria foi embora depois do tsunami, que matou 200 pessoas.

Com os conhecimentos adquiridos ao longo de sua experiência na indústria alimentícia e ao ver que a tragédia havia feito estragos no modo de vida local – só dez navios restaram dos 300 navios -, Tachibana decidiu regenerar, com Itoh e outros oito pescadores e voluntários, a atividade pesqueira de Ogatsu.

Itoh questionava há anos a estrutura da indústria local, que basicamente consistia em vender a intermediários os produtos cultivados no mar a preços muito baixos.

O novo negócio ganhou o nome de Oh!Guts!. A ideia consiste em cultivar, processar e vender os produtos diretamente a atacadistas e varejo, e também aos acionistas, já que a empresa foi aberta como sociedade anônima.

Cada beneficiado pode adquirir uma participação pelo equivalente a 98 euros que permite obter o produto diretamente e também participar, sempre que queira, das atividades de cultivo, algo pensado para impulsionar o ‘turismo de pesca’.

Tudo isto permite vender o gênero a preço melhor, obter lucro na distribuição direta e oferecer produto fresco diretamente ao consumidor, algo que, segundo Itoh e Tachibana, com o tempo pode ajudar a criar uma ‘marca’ reconhecida fora e dentro do Japão.

A sociedade já tem mais de 1,5 mil acionistas, incluindo estrangeiros que vivem fora do Japão, e seu objetivo é alcançar os 50 mil no período de três a cinco anos, o que permitiria criar ostras, moluscos e salmões.

‘A administração subvenciona 70% do equipamento perdido na tragédia, mas o ruim é que, depois dos meses que levou o Governo para elaborar os orçamentos extraordinários de reconstrução, ainda vai levar dois anos até o dinheiro chegar’, critica Itoh.

‘O ritmo de reconstrução é lento, portanto é preciso atuar, liderar a situação’, acrescenta Tachibana.

A meta de Oh!Guts! é criar um novo ‘kizuna’ (termo japonês para definir o vínculo coletivo), ao entender a reconstrução como uma oportunidade para cimentar uma comunidade que, de acordo com Itoh, estava destinada a desaparecer inclusive sem o tsunami, dado o progressivo abandono do entorno rural japonês.

Aí é onde entra o programa de formação de três anos que acaba de ser lançado para permitir que futuros pescadores se instalem em Ogatsu e devolvam a vida a este remoto e aprazível cantinho do litoral do nordeste do Japão. EFE