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Liu Xiaobo, dissidente chinês, conquista Nobel da Paz 2010

Ganhador do prêmio está preso - foi condenado por criticar governo de Pequim

Por Da Redação 8 out 2010, 06h08

“Vamos avançar muito lentamente, mas não será fácil conter as demandas de liberdade, tanto das pessoas comuns quanto de membros do Partido Comunista”

Liu Xiaobo, Nobel da Paz 2010

Encarcerado e silenciado por um governo que não aceita vozes dissidentes, o chinês Liu Xiaobo é o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2010. De acordo com o anúncio feito nesta sexta-feira pelo Comitê do Nobel, Liu, de 54 anos, foi o escolhido por causa de sua “longa luta não violenta pelos direitos humanos na China”. O governo chinês já reagiu ao anúncio, declarando que a escolha de Liu “viola” a integridade do Nobel da Paz. O dissidente foi detido pela primeira vez após os célebres protestos do movimento estudantil na Praça da Paz Celestial, em Pequim, em junho de 1989, violentamente reprimidos pelo governo. Entre 1996 e 1999, foi enviado a um campo de “reeducação pelo trabalho” por defender a reforma política e a libertação dos estudantes que participaram dos protestos de 1989 que permaneciam presos.

Casado e pai de dois filhos, Liu foi preso novamente em 2008 por ter sido um dos 10.000 signatários de uma petição formulada para exigir reformas políticas no regime comunista chinês. Em dezembro de 2009, o dissidente foi condenado a 11 anos de prisão por “subversão”, em um julgamento que gerou uma onda de protestos por todo o mundo. “Estou tão feliz, estou tão feliz, não sei o que falar”, disse por telefone Liu Xia, mulher do dissidente, que ficou sabendo da premiação através de amigos. “Quero agradecer a todos por apoiar Liu Xiaobo. Quero agradecer ao Comitê Nobel, a Vaclav Havel, ao Dalai Lama e a todos aqueles que defendem Liu Xiaobo”, afirmou, referindo-se ao ex-presidente checo e ao líder tibetano, que apoiaram a candidatura do dissidente ao Nobel.

Responsabilidades – “Peço firmemente que o governo chinês o liberte”, insistiu Xia, informando que a polícia disse que a levaria no sábado para a província de Liaoning, onde seu marido está preso, para contar a ele sobre o prêmio. Ao anunciar o prêmio, o presidente do Comitê Nobel, Thorbjoern Jagland, afirmou que a China, segunda maior economia mundial, deveria assumir “mais responsabilidades” devido a seu cada vez mais importante papel no cenário internacional. “Faz muito tempo que o Comitê Nobel da Noruega considera haver um estreito vínculo entre os direitos humanos e a paz”, acrescentou. Pouco após a divulgação do prêmio, o ministro francês das Relações Exteriores Bernard Kouchner publicou um comunicado pedindo a libertação de Liu Xiaobo.

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A Anistia Internacional (AI), por sua vez, fez um apelo ao governo chinês para que liberte todos os presos políticos. Para Catherine Barber, subdiretora da AI para o Pacífico Asiático, Liu Xiaobo é um “vencedor digno” do Prêmio Nobel. No entanto, a homenagem “só poderá fazer diferença se provocar mais pressão internacional sobre a China para libertar Liu, junto com outros vários presos de consciência que apodrecem nas prisões chinesas por exercer seu direito à liberdade de expressão”, disse. Em uma de suas últimas entrevistas, Liu disse ter esperança de assistir à progressiva democratização da China. “Vamos avançar muito lentamente, mas não será fácil conter as demandas de liberdade, tanto das pessoas comuns quanto de membros do Partido Comunista.” O prêmio é tradicionalmente entregue em Oslo no dia 10 de dezembro.

Causas urgentes – Com certa frequência, a comissão que escolhe os vencedores do Nobel da Paz decide entregar o prêmio a um personagem pouco conhecido pelas pessoas, mas que simboliza a necessidade de lançar os holofotes sobre um tema importante para a comunidade internacional. Desta forma, acaba apresentando o homenageado ao mundo – e, na esteira disso, colocando em discussão assuntos de grande relevância. Foi assim, por exemplo, em 2003, com Shirin Ebadi, a iraniana que representa a necessidade de plantar a semente dos direitos humanos e dos valores democráticos no Oriente Médio. Foi assim também no ano seguinte, com Wangari Maathai, queniana que simbolizava a causa ambiental e o papel das lideranças femininas no continente africano. A premiação de Liu neste ano se encaixa nessa mesma categoria.

Segunda maior economia do planeta – acaba de superar o Japão e está a caminho de desafiar a liderança dos Estados Unidos -, a China tem ampliado sua influência no resto do mundo. O problema é que, enquanto a economia cresce e se dinamiza, o regime político chinês segue esmagando seus opositores. O desafio de dialogar com os chineses em temas como valores democráticos, liberdade de imprensa e respeito aos direitos humanos é considerado um dos temas-chave para a comunidade internacional nos próximos anos. Assim, a escolha de Liu sinaliza o desejo dos países ocidentais de trazer a China à berlinda e medir suas reações diante da forte pressão para que as vozes contrárias não sejam sufocadas. Poucos acreditam, contudo, que Pequim sequer cogite qualquer mudança – e não será um Nobel que deverá alterar o quadro.

(Com agência France-Presse)

Leia no Blog de Nova York, por Caio Blinder:

Eu espero que ele passe a integrar a galeria de Andrei Sakharov, Lech Walesa e Nelson Mandela, que ganharam o prêmio e tiveram vitórias extraordinárias contra tiranias bestiais. Por enquanto está nas condições da heroína de Mianmar, Aung San Suu Kyi, outra agraciada com o Nobel da Paz, que permanece em prisão domiciliar.O regime comunista tem toda razão: Liu Xiaobo é um subversivo. Ele exige a criação de um “estado livre, democrático e constitucional” e pede a libertação de todos os presos politicos na China. É hora de dar esta medalha de ouro para o país. Tão pressionado para valorizar sua moeda, ele deve fazer o mesmo com os direitos humanos. Status de segunda maior economia mundial traz novas responsabilidades.

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