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Fuga do inferno: o drama dos refugiados da guerra na Ucrânia

Além de bombardeios, fome, destruição e morte, a invasão desencadeia uma das maiores ondas migratórias da história

Por Anna Romandash, de Lviv, Ricardo Ferraz e Caio Saad
Atualizado em 4 jun 2024, 12h29 - Publicado em 11 mar 2022, 06h00

Centro de cultura e artes em tempos de paz fincado no extremo oeste da Ucrânia, a cidade de Lviv, de 700 000 habitantes, não entrou — pelo menos até agora — na rota dos bombardeios e choques armados que aterrorizam outras regiões desde a invasão do país por tropas russas, em 24 de fevereiro. Mesmo assim, a tragédia é palpável. O medo e a preocupação estão nas praças, estações de trem, escolas, ginásios e outros espaços adaptados para acolher multidões de ucranianos que chegam todos os dias com um obje­tivo em mente: cruzar a fronteira, a 100 quilômetros de distância, e se abrigar na Polônia. Trata-se da principal rota de escape do terror produzido por um conflito inaceitável que conduz a destruição e morte.

arte mapa refugiados

Ir embora por pavor do que vem pela frente é uma decisão dolorosa. De de uma hora para outra, tudo o que é conhecido fica para trás, perdem-se amigos próximos, objetos de estimação e o próprio chão que sustenta uma vida cotidiana normal. Neste século, o drama dos refugiados se escancarou em diversos pontos do planeta, em botes de borracha afundando no mar, no arame farpado fechando fronteiras e na superlotação de precários acampamentos. Ver o êxodo acontecer na rica e civilizada Europa, porém, é um choque tão profundo quanto a ocorrência de uma guerra entre dois países do continente, deflagrada pela insanidade de Vladimir Putin. Na Ucrânia, o último trecho da fuga desesperada é percorrido de carro, de ônibus e, muitas vezes, a pé, no ar gelado do inverno europeu. Em duas semanas, mais de 2 milhões de pessoas deixaram suas vidas para trás, metade delas crianças, 40% pelo corredor que parte de Lviv — uma migração quase sem precedentes em tão curto espaço de tempo. “Já observamos cenários parecidos em outras partes do mundo, mas a esta velocidade é a primeira vez desde a II Guerra Mundial”, diz Filippo Grandi, do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.

A estimativa é de que 4 milhões de pessoas — 10% da população — sairão da Ucrânia nos próximos seis meses, mas, se a guerra se arrastar, o total pode ser bem maior. Como todos os homens entre 18 e 60 anos foram convocados para a defesa, as imensas filas de fugitivos são compostas quase que só de mulheres, crianças e idosos. Nas estações de trem e nos pontos de partida de ônibus — muitos com um papel no parabrisa avisando deti (crianças, em russo) —, pais em lágrimas se postam nas janelas até o último minuto para dar o doloroso adeus à família dilacerada. “Não sei quando vou voltar a ver meu marido”, disse a VEJA Iryna Vyrtosu, 35 anos, que se despediu dele na fronteira com a Eslováquia. Ela e a filha Vlada, de 3 anos, estão abrigadas em uma escola adaptada para receber refugiados. “É como se estivesse em um mundo paralelo. De repente, não tenho casa e dependo dos outros para sobreviver”, desabafou.

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DIFICULDADE - Caminho cortado: sob a neve, soldados ajudam idosa em fuga a se desviar de ponte que desabou -
DIFICULDADE – Caminho cortado: sob a neve, soldados ajudam idosa em fuga a se desviar de ponte que desabou – (Sergei Supinsky/AFP)

A situação é mais angustiante ainda para os moradores das áreas sob combate e bombardeio intenso russo — cinco cidades no leste e nordeste do país e outras cinco localizadas nos arredores da capital, Kiev. Nelas, faltam comida, eletricidade, água e remédios. Várias tentativas de cessar-fogo e permitir a abertura de um corredor humanitário para a saída de civis fracassaram. Desesperadas, as pessoas arriscam a vida, entre prédios em ruínas e pontes desabadas, tentando chegar a um lugar seguro. Na cidade portuária de Mariupol, sob cerco russo há mais de uma semana, os supermercados foram saqueados pela população em busca de alimentos. Os bombardeios constantes atingiram uma maternidade, com grávidas e recém-nascidos sendo removidos no meio do caos. Sem poder enterrar os mortos, uma vala comum foi aberta no cemitério local, onde dezenas de corpos, de civis e soldados, são lançados todos os dias, sem cerimônia além de um apressado sinal da cruz.

GUIANDO DESTERRADOS - O guia turístico Artem Bondar, de 39 anos, resolveu permanecer em Lviv, a porta de saída para a Polônia, e usar suas conexões com clientes e empresas para ajudar as pessoas que buscam segurança a cruzar a fronteira e encontrar abrigo. “Passo um tempão falando ao telefone, mas é minha maneira de colaborar”, diz ele, que também acolheu duas famílias em seu pequeno apartamento -
GUIANDO DESTERRADOS – O guia turístico Artem Bondar, de 39 anos, resolveu permanecer em Lviv, a porta de saída para a Polônia, e usar suas conexões com clientes e empresas para ajudar as pessoas que buscam segurança a cruzar a fronteira e encontrar abrigo. “Passo um tempão falando ao telefone, mas é minha maneira de colaborar”, diz ele, que também acolheu duas famílias em seu pequeno apartamento – (./Arquivo pessoal)

A designer de interiores Elizabeth Drobot, 26 anos, peregrinou pelo território devastado durante quinze dias. Moradora da região metropolitana de Kiev, ela acordou com o barulho de bombas na madrugada da invasão e correu para a casa dos pais, perto de uma base militar. Os ataques continuaram e a família passou dois dias no porão, até tomar coragem para pegar o carro e fugir. “Saímos quando um foguete atravessou nosso terreno e destruiu oito casas vizinhas”, relatou a VEJA, ainda indecisa sobre cruzar a fronteira. Essa dúvida não passou pela cabeça do jogador brasileiro Marlon, do Shakhtar. Assim que a guerra explodiu, ele e colegas se mobilizaram para voltar para o Brasil. Ele, a mulher e os três filhos pequenos (o mais novo tem 3 meses) levaram três dias e passaram muitos sustos para chegar à Moldávia. “A ajuda do Itamaraty se limitou a dar os horários dos trens que saíam de Kiev. Todas as providências foram tomadas pelas federações de futebol”, ressalta.

CENA TRÁGICA - Rota interrompida: atingidos por um morteiro, mãe, dois filhos e um amigo morrem na rua, em Irpin -
CENA TRÁGICA – Rota interrompida: atingidos por um morteiro, mãe, dois filhos e um amigo morrem na rua, em Irpin – (Olenksandr Ratushniak/EPA/EFE)

As primeiras rodadas de negociação entre Rússia e Ucrânia não produziram resultado algum. Em clima de alta tensão, os Estados Unidos decidiram suspender sua importação de petróleo russo, levando os preços às altu­ras com impacto na economia brasileira (veja reportagem na pág. 48). Às vésperas da primeira reunião entre os chanceleres da Rússia e da Ucrânia, os ânimos pareceram arrefecer um pouco. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, abrindo o flanco em relação a exigências russas, disse que está repensando a entrada da Ucrânia na Otan (“já que parece que eles não fazem questão”, disse) e que pode se sentar para conversar sobre o status de territórios controlados por separatistas apoiados por Moscou. Assessores de Putin negaram a intenção de ocupar a Ucrânia ou depor seu governo. O encontro da quinta-feira 10, porém, não levou a avanço algum. “Iniciativas de paz normalmente aparecem quando as partes em conflito não conseguem mais sustentar ações militares. No caso atual, a impressão é de que tudo ainda está no meio do caminho”, diz Tatyana Malyarenko, professora de relações internacionais da Universidade Nacional de Odessa.

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DEU CERTO - Voluntárias acolhem menino que chegou na Eslováquia sozinho: na mão, um número de telefone -
DEU CERTO – Voluntárias acolhem menino que chegou na Eslováquia sozinho: na mão, um número de telefone – (Polícia Eslovaca/.)

O balanço da ONU, que ela mesma acredita ser subestimado, é de ao menos 550 mortos até agora. O governo de Kiev fala em 2 000. Em Irpin, uma das cidades próximas da capital sob bombardeio intenso, a invasão injustificada e predadora lançada por Putin conduziu a um quadro de contornos particularmente trágicos: uma mulher de 43 anos, seus dois filhos — um jovem de 18 e uma menina de 9 — e um amigo da família foram mortos na rua, atingidos por morteiros, justamente quando tentavam escapar do inferno da guerra. No Facebook, o pai das crianças, único sobrevivente, compartilhou sua dor: “Perdoem-me, eu não os protegi”. Quem consegue romper a linha de fogo recebe ajuda de voluntários e até de soldados para encontrar abrigo e é bem recebido nos países vizinhos, que mantêm as fronteiras abertas 24 horas por dia. Em Lviv, o guia de turismo Artem Bondar, 39 anos, usa seus contatos no exterior para ajudar pessoas a deixar o país em segurança. “Foi o jeito que encontrei de colaborar”, contou a VEJA.

DESCANSO - Abrigo para refugiados na Polônia: uma das maiores levas migratórias já vistas -
DESCANSO – Abrigo para refugiados na Polônia: uma das maiores levas migratórias já vistas – (Louisa Gouliamaki/AFP)

Causou comoção, em Lviv, a passagem de um comboio composto de ônibus e ambulâncias que recolheu 73 crianças com câncer em diversos hospitais e as levou, com os pais, para a Polônia. Outro drama que correu mundo foi o do menino de 11 anos que chegou sozinho, de trem, à Eslováquia, com uma mochila nas costas, um celular no bolso e um número de telefone escrito a caneta na mão. Depois que voluntários identificaram e contataram seus familiares no país, a mãe, em vídeo, explicou que teve de ficar na Ucrânia para cuidar da avó imobilizada e agradeceu a ajuda. A fuga de idosos, que têm gravada na memória outra guerra desesperadora, é particularmente penosa. Yaroslav Matichek, 71 anos, e sua mulher, Hanna, 70, levaram quase dois dias para chegar a Cracóvia, na Polônia — um trajeto que, em tempos normais, demora no máximo seis horas. “Eles ficaram mais de quinze horas na fronteira, esperando a liberação do ônibus. Fazia 3 graus negativos”, disse a filha Olga Matichek, que mora em Malmo, na Suécia.

A ÚNICA OPÇÃO - O aposentado Yaroslav Matichek, 71, e sua esposa Hanna, 70, não esperaram a guerra chegar até Kalush, no oeste da Ucrânia. Depois de muita conversa com os filhos, acabaram convencidos a ir para Cracóvia, na Polônia. A viagem foi marcada por uma espera de quinze horas na fronteira, no inverno. “Meu pai queria resistir, mas a única coisa a fazer agora é fugir”, diz a filha Olga -
A ÚNICA OPÇÃO – O aposentado Yaroslav Matichek, 71, e sua esposa Hanna, 70, não esperaram a guerra chegar até Kalush, no oeste da Ucrânia. Depois de muita conversa com os filhos, acabaram convencidos a ir para Cracóvia, na Polônia. A viagem foi marcada por uma espera de quinze horas na fronteira, no inverno. “Meu pai queria resistir, mas a única coisa a fazer agora é fugir”, diz a filha Olga – (./Arquivo pessoal)

A Polônia é, disparado, o refúgio mais procurado (veja o mapa acima). Pelos oito pontos de controle, distribuídos ao longo da divisa de 530 quilômetros, passaram mais de 1,2 milhão de ucranianos em quinze dias — um aumento súbito de 3% na população do país. Desde o início da guerra, o governo de Andrzej Duda, da direita nacionalista, que se reelegeu prometendo fechar as portas para refugiados da Síria, do Iêmen e do Iraque, tem mantido a mão estendida à Ucrânia. “É fato que há uma identificação cultural, religiosa e étnica entre os dois países. Mas o gesto pode ter o benefício adicional de permitir à Polônia recuperar o capital político que vinha perdendo na União Europeia”, avalia Gilberto Rodrigues, coor­dena­dor da pós-graduação da UFABC e especialista em refugiados. Por considerar que o governo polonês fere os princípios democráticos ao censurar a mídia, perseguir homossexuais e intervir no Judiciário, a UE mantém congelados 36 bilhões de euros do fundo de recuperação da pandemia destinados à Polônia.

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DESESPERO - Estação de trem em Kiev, em março de 2022, e a Gare Montparnasse, em Paris, em março de 1940: fugindo do Exército invasor -
DESESPERO – Estação de trem em Kiev, em março de 2022, e a Gare Montparnasse, em Paris, em março de 1940: fugindo do Exército invasor – (Sergei Chuzavkov/AFP; Roger Viollet/Getty Images)

Os refugiados ucranianos têm permissão para permanecer nos 27 países da União Europeia por até três anos, sem precisar pedir asilo. O custo dessa medida pode chegar a 30 bilhões de dólares somente no primeiro ano, de acordo com o Center for Global Development, sediado em Washington. Mesmo assim, os vizinhos da Ucrânia na Europa Oriental, justamente os que agora mais recebem refugiados, têm um incentivo histórico para entrar nesta briga: todos fizeram parte do bloco soviético e saíram dele maldizendo a Rússia. “Eles sabem que podem ser as próximas vítimas do expansionismo russo e, abrindo as portas, sinalizam que estão agindo em conjunto”, diz Victor Del Vecchio, pesquisador do Observatório das Migrações da Unicamp.

ALÍVIO NA CHEGADA - Antes de conseguir desembarcar no Rio de Janeiro, o jogador de futebol Marlon e a família passaram dias em um hotel e depois viajaram quase 24 horas, de carro e de trem, até cruzar a fronteira da Moldávia. “É difícil manter a calma quando você escuta o barulho de bombas e a TV anuncia o tempo inteiroa invasão”, diz ele. “Quando cheguei, demorou a cair a ficha de que estávamos seguros.” -
ALÍVIO NA CHEGADA – Antes de conseguir desembarcar no Rio de Janeiro, o jogador de futebol Marlon e a família passaram dias em um hotel e depois viajaram quase 24 horas, de carro e de trem, até cruzar a fronteira da Moldávia. “É difícil manter a calma quando você escuta o barulho de bombas e a TV anuncia o tempo inteiroa invasão”, diz ele. “Quando cheguei, demorou a cair a ficha de que estávamos seguros.” – (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Pela rapidez com que avança, o fluxo de ucranianos em fuga é comparável aos maiores da história. O conflito que mais produziu refugiados no século XXI foi a guerra da Síria: 6,6 milhões de pessoas ao longo de onze anos. A crise econômica na Venezuela expulsou pouco mais de 4 milhões em quase vinte anos. Na década de 1990, as guerras nos Bálcãs, na Bósnia e no Kosovo provocaram movimento de 2 milhões a 3 milhões de pessoas em um período de oito anos. Há cinquenta anos, a independência de Bangladesh produziu uma das maiores diásporas da história recente: 10 milhões fugiram em nove meses de conflitos. A tragédia humanitária, porém, alcançou o ápice na barbárie da II Guerra Mundial — 12,5 milhões de pessoas deixaram tudo para trás, 5 milhões só com a ocupação nazista da França. Os danos costumam ser profundos, na forma de traumas duradouros, pesadelos e dificuldades de relacionamento. As marcas de guerra, infelizmente, não se apagam com a paz.

Com reportagem de Matheus Deccache

Publicado em VEJA de 16 de março de 2022, edição nº 2780

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