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Fuga da cúpula, guerra civil ou acomodação: como terminará o Irã?

O aiatolá Khamenei desdenha da possibilidade de deixar o país, mas Nicolás Maduro também rejeitou o exílio e acabou numa penitenciária do Brooklyn

Por Vilma Gryzinski 12 jan 2026, 07h00 | Atualizado em 12 jan 2026, 07h10
Fuga da cúpula, guerra civil ou acomodação: como terminará o Irã? Priorizar nos meus resultados Google

Irá a cúpula iraniana aceitar que perdeu, fazer as malas e ir curtir as delícias do exílio? Isso só acontecerá se, em algum momento, forças da repressão baixarem armas e aderirem ao lado do povo. Foi exatamente o que aconteceu no mesmo Irã quando meses de manifestações de massa culminaram na fuga do xá Mohammad Reza Pahlavi, em 16 de janeiro de 1979. O aiatolá Ali Khamenei já disse que isso nunca acontecerá com ele, mas a história encontra estranhos caminhos para se reencenar.

Enquanto o regime mantém a força do seu lado, ameaçando os manifestantes com pena de morte por terem se transformado em “inimigos de Alá”, a incógnita paralela é o que fará Donald Trump, depois de prometer que “vai ajudar”. À luz do que aconteceu na Venezuela, a promessa não pode ser considerada retórica.

Khamenei e seus asseclas têm uma porta de saída: a Rússia. O aiatolá de 86 anos simpatiza com Vladimir Putin e com seu estilo autocrático, conservador em matéria de costumes. Um antigo protegido dele, Bashar Assad, já desfruta da hospitalidade russa desde que foi fulminantemente derrubado, depois que parecia ter controlado a guerra civil de dez anos na Síria. Um filho de Assad já fazia graduação em matemática em Moscou e sua mulher recebia tratamento para câncer lá. Não é possível que o déspota sírio esteja feliz num lugar onde vai fazer -19 graus esta semana e já correu uma boataria de que teria sofrido uma tentativa de envenenamento.

Mas do ponto de vista dos líderes autoritários, o modelo Assad é hoje a alternativa mais razoável, embora haja os que lamentem os tempos em que generais africanos deixavam as medalhas e o poder para ir curtir o exílio na Riviera francesa. A época era outra: os bancos suíços guardavam os tesouros mesmo dos piores ditadores e o Tribunal Penal Internacional não ameaçava a tranquilidade dos exilados.

PROPOSTA PARA MADURO

Desde 2011, o pesadelo dos ditadores se tornou o final inglório de Moamar Khadafi. O líder líbio, derrubado e em fuga, foi encontrado com um grupo rebelde se escondendo numa tubulação no deserto. Antes de ser fuzilado, levou um golpe de baioneta no ânus. Dizem que Vladimir Putin ficou especialmente impressionado com este detalhe, registrado em vídeo.

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A história abriu um novo capítulo para ditadores teimosos com a captura de Nicolás Maduro. Numa reportagem extraordinária, o Washington Post enumerou todas as propostas — “generosas” — feitas pelos americanos para Maduro e digníssima esposa se exilarem na Turquia, sem o rigor dos invernos russos e com a vantagem de manter o acesso aos bilhões acumulados pelos companheiros socialistas.

Uma derradeira proposta, segundo disse o Post, furando a imprensa brasileira, foi apresentada por Joesley Batista, o rei da carne transformado numa espécie de embaixador plenipotenciário do Brasil (a favor dele, note-se, influiu positivamente sobre Donald Trump para derrubar as tarifas excessivas sobre a maioria dos produtos brasileiros, inclusive os proteicos, ao contrário da paralisia dos embaixadores regulares, que ficam falando “com homólogos” por telefone, com resultado zero).

A proposta levada por Batista antes do Natal, diz o Post, incluía: acesso americano a terras raras e petróleo, ruptura com Cuba e exílio negociado de Maduro. O venezuelano preferiu achar que tinha tudo sob controle e era só esperar até novembro para Trump perder as eleições legislativas e ficar com as mãos amarradas pelo Congresso. Continuou fazendo dancinhas. Os helicópteros americanos baixaram no dia 2, numa operação que ao todo, incluindo partida e retorno a águas internacionais do Caribe, durou quatro horas. Um soldado anônimo do X contou que viu forças especiais, em número não maior do que vinte, neutralizaram centenas de militares venezuelanos, com tiros de fuzil — “uns trezentos por minuto” — e o uso de uma arma sônica que os fez sangrar pelo nariz e vomitar sangue.

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MISSÃO RELIGIOSA

O Irã não é a Venezuela, dirão muitos. Vive num estado de permanente preparação bélica para atacar Israel e, através da guerra na Síria, adquiriu mais experiência do que os generais venezuelanos, mais orientados para vender proteção ao tráfico de drogas e outras formas de contrabando. Em compensação, o Irã tem uma enorme massa de cidadãos revoltados nas ruas, gente sem medo, capaz de enfrentar balas que já mataram cerca de 500 pessoas.

Faltam líderes às massas, pois o regime repressor não deixou espaço, mas as cenas que conseguem furar o bloqueio da internet são impressionantes. Ao contrário de protestos anteriores, os manifestantes parecem ter um tom triunfal, chegando a dançar em rodas na rua. Não parece uma gente disposta a ir para casa e se dar por satisfeita porque o presidente Masou Pezeshkian está tentando dar uma de bonzinho e acomodar os reclamos econômicos da população, assolada por inflação e desvalorização da moeda. Essa fase já passou.

Tudo dependerá de alguma forma de adesão de forças de segurança, às quais manifestantes apelam: “Venham para nosso lado”.

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Existe também o fator religioso. Ali Khamenei atende pelo título de líder supremo e considera que tem uma missão religiosa de refletir a vontade de Alá sobre os assuntos terrenos. Entre os adeptos, é tratado como um santo. Já superou os 86 anos, um câncer de próstata e, no passado, um atentado à bomba que o fez perder o uso do braço direito. É um fanático que se julga sábio travando uma guerra santa e está desafiando Donald Trump, um tipo de coisa não muito aconselhável no momento.

DESCONSTRUÇÃO DAS NARRATIVAS

Alguns bombardeios localizados, como aconteceu em junho, contra instalações nucleares, ajudariam a empurrar um regime periclitante? Explodir lideranças da Guarda Revolucionária, a força na qual Khamenei mais confia, como fizeram os israelenses para retaliar um grande ataque iraniano, em junho passado? Desfechar um ataque cibernético e cortar as comunicações entre as forças repressivas?

Ninguém sabe o que Donald Trump pode fazer — e isso é uma das vantagens que ele explora.

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Na Venezuela, acertou tudo com Delcy Rodríguez e está promovendo uma mudança de regime sem mudar o regime, pelo menos por enquanto, algo completamente inédito. O que fará no Irã? Ou os iranianos acertarão as contas com os opressores antes de uma intervenção americana?

Talvez não haja mais tempo de “construir a narrativa” para contrabalançar “tudo o que eles têm contado contra vocês”, como aconselhou gentilmente o presidente Lula da Silva ao amigo Maduro em visita ao Brasil. No Irã, o tempo das narrativas está, no momento, mais para desconstrução. E os desconstruídos são os opressores, enquanto parentes desesperados procuram os corpos de vítimas da repressão largados em sacos plásticos do lado de fora de necrotérios, por falta de espaço.

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