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Entre os mineiros, um médico improvisado

Ministro da Saúde conta como um dos trabalhadores está cuidando dos colegas

Por Manuela Franceschini, de Copiapó, no Chile 30 ago 2010, 11h45

“Jonny cuidou da mãe diabética e sempre se interessou pela medicina. Aplicamos uma prova nele para lhes testar os conhecimentos da área, e ele sabia tudo”, Jayme Mañalic, ministro da Saúde

Em uma tenda na mina San José, um menino saca o microfone que estava apoiado na mesa e decide imitar o que vê há dias. Entrevistou a jornalista com uma bateria de perguntas: “Como você se chama?”, “Quantos anos você tem?”, “Seus familiares estão vivos?”. A última pergunta é pertinente num acampamento onde se pensa diariamente na morte. Os 33 mineiros estão vivos. A pergunta, agora, é como mantê-los assim. O problema da umidade é grave, a ponto de os fazer mudar de lugar. As doenças crônicas pedem atenção ininterrupta. As infecções cutâneas, no mais difícil dos combates, aparecem aos montes, são tratadas, e voltam. O ministro da Saúde do Chile, Jayme Mañalic, falou com exclusividade a VEJA.com sobre as limitações dos cuidados médicos a 700 metros de distância do paciente.

As infecções cutâneas causadas pelos fungos e bactérias serão controladas em algum momento ou se terá que conviver com isso pelos próximos meses?

As infecções são um fator muito, muito preocupante. Com todos os médicos que conversamos, são unânimes ao dizer que isso vai acontecer. Por isso, temos que ter uma vigília séria e ficarmos atentos aos estágios iniciais. Os últimos objetos que os mandamos também vão melhorar isso, sem dúvida. Há calçados, roupas especiais, e agora a cama, que não os deixa dormir tocando o solo. Isso já vai melhorar muito a situação. Mas sim, será sempre uma preocupação.

No grupo, há diabéticos, doentes pulmonares. Se uma cirurgia for necessária, seja por isso ou por casos extremos, como de apendicite, problemas no coração, o que será feito?

Nada. O que se faz é rezar muito para que isso não aconteça. É impossível operarmos alguém via robô ou alguma coisa assim. O que estamos fazendo é antever qualquer problema. Temos um catálogo de tudo o que pode vir a acontecer com eles no âmbito da saúde. Listamos todas as doenças possíveis, com base também no histórico deles e nas condições em que estão. Nesse catálogo, há a profilaxia e a previsão de um tratamento com remédios. É tudo o que podemos fazer. Jonny Berríos, o mineiro que é o nosso “enfermeiro” lá embaixo, faz relatórios diários do estado de todos os mineiros. Tira a pressão, mede a circunferência abdominal, colhe amostras de urina, sangue. Analisamos esses exames, confrontamos o diagnóstico, e então temos um catálogo que aponta como tratar. E é até aí que podemos chegar.

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Esses procedimentos médicos não são perigosos em um ambiente repleto de fungos e bactérias, e feitos por alguém que não é médico ou enfermeiro?

Jonny cuidou da mãe diabética e sempre se interessou pela medicina. Aplicamos uma prova nele para lhes testar os conhecimentos da área, e ele sabia tudo. Mandamos a eles tudo o que precisam para fazer isso com total higiene e segurança.

Olhando para os esforços feitos hoje e pensando nos próximos quatro meses, quais são as chances de que alguém do grupo não sobreviva ou tenha problemas sérios de saúde?

Te respondo com uma outra pergunta. Se esses 33 homens estivessem nas suas condições normais de vida, quem poderia saber quais as chances de que morressem a qualquer momento? É claro, agora eles estão em uma situação adversa. Mas estamos fazendo tudo o que podemos para prevenir os problemas, e estudando fórmulas de tratamento. Isso pode acontecer, como aconteceria em qualquer lugar, independente da nossa vontade. Estamos fazemos tudo o que é possível para que isso não ocorra, mas há coisas que não cabem ao ser humano.

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