Entenda a queda de braços entre UE, Reino Unido e AstraZeneca pela vacina
No último capítulo da disputa, UE adotou mecanismo de controle de exportação dos imunizantes contra a Covid-19

A escassez de doses da vacina contra a Covid-19 na Europa levou à primeira grande disputa entre a União Europeia (UE) e o Reino Unido após o Brexit. Desde que a farmacêutica AstraZeneca anunciou a redução da produção dos imunizantes desenvolvidos em parceria com a Universidade de Oxford, o bloco europeu vem exigindo que parte do estoque destinado aos britânicos seja desviado para o restante do continente. O governo de Boris Johnson, porém, não está disposto a ceder e se mantém firme no nacionalismo que impulsionou o divórcio em primeiro lugar.
A UE encomendou dezenas de milhões de doses da AstraZeneca, mas o laboratório diz só ser capaz de produzir 25% do prometido para os europeus até março. Enquanto isso, o plano segue em curso para cumprir a meta combinada com o Reino Unido, de 2 milhões de doses por semana.
Por esse motivo, os europeus acusam a farmacêutica de priorizar os britânicos. O CEO da AstraZeneca, Pascal Soriot, rejeita a alegação e diz que os prazos de entrega das vacinas ao Reino Unido estão sendo cumpridos porque o contrato com os britânicos foi assinado três meses antes do documento com a UE.
Bruxelas, porém, não aceita os argumentos da AstraZeneca e exige que as doses sendo produzidas em solo inglês, em duas fábricas da empresa, também sejam utilizadas no continente.
Boris Johnson, por sua vez, já deixou claro que não pretende exportar vacinas enquanto o país inteiro não estiver imunizado. Das quatro unidades do laboratório que figuram no contrato como locais de produção da vacina para o bloco europeu, uma está na cidade de Puurs, na Bélgica, outra na Alemanha e as demais no Reino Unido.
Lentidão na vacinação
A outra farmacêutica fornecedora da UE, a Pfizer, também vêm enfrentando problemas de logística e adiou algumas das entregadas programada com o bloco. Com o atraso, a União Europeia não terá a quantidade de doses suficientes para cumprir seu calendário de imunização no ritmo que havia previsto, e vem sofrendo muitas críticas por isso.
A aplicação de doses per capita do continente, aliás, está bem abaixo de países como Estados Unidos, Reino Unido e Israel. Na Alemanha, apenas 1,6 milhão de pessoas receberam ao menos uma dose da vacina, o equivalente a pouco menos de 2% da população. Espanha suspendeu a imunização em Madri, e a França fará o mesmo na próxima semana na região ao redor de Paris, por falta de doses.
Já no Reino Unido, mais de 12% da população acima de 18 anos já foram vacinados. Os EUA, por sua vez, estão aplicando em média 1,5 milhão de doses por dia. Em Israel, mais de 40% da população já receberam uma dose da vacina, e o país já conseguiu derrubar significativamente a propagação do vírus.
Controle de exportação
Diante dos últimos acontecimentos, a UE anunciou nesta sexta-feira, 29, a adoção de um mecanismo de controle da exportação das vacinas procedentes do território europeu.
Em entrevista coletiva, o presidente-executivo da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis, afirmou que a regulação adotada submete as vacinas a uma “autorização de exportação” operada pelos Estados-membros. Dombrovskis acrescentou que a medida “cobre apenas as vacinas contra a Covid que fazem parte dos acordos de compra antecipada com a UE”.
O objetivo, observou, “é proporcionar maior clareza na produção de vacinas na UE e na sua exportação. Essa transparência não era suficiente e é vital nesse momento”.
Dombrovskis disse ainda que a UE espera que as empresas farmacêuticas honrem seus compromissos. “Pagamos essas empresas para aumentar sua produção e agora esperamos que cumpram suas obrigações”, ressaltou.
Por sua vez, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apontou numa nota que a prioridade da instituição é “proteger a saúde dos nossos cidadãos”, pelo que os países da UE “devem implementar as medidas necessárias” para garantir que isto aconteça.