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‘Elizabeth II cresceu com calma, preparada para seu destino’

A rainha, que completa 60 anos de reinado em 2012, é uma pessoa firme, sábia e feliz com o cumprimento de seus deveres, descreve especialista em família real

Por Gabriela Loureiro - 20 mar 2012, 15h43

“Como dizia o seu primeiro secretário privado, Alan Lascelles, se você der à rainha três alternativas, ela sempre escolhe instintivamente a certa.”

Hugo Vickers

A rainha Elizabeth II falou diante do Parlamento britânico nesta terça-feira em mais uma cerimônia festiva em comemoração aos seus 60 anos de reinado. “Estar aqui nos lembra nosso passado, a continuidade de nossa história nacional e as virtudes de resistência, engenho e tolerância que a criaram. Foi um privilégio ter sido testemunha de uma parte dessa história e, com o apoio da minha família, volto a dedicar meu serviço ao nosso grande país e seu, povo agora e nos próximos anos”, disse ela, lembrando que ao longo das décadas nomeou 12 premiês e assinou mais de 3.500 leis.

Elizabeth II é a segunda rainha da história da Grã-Bretanha a celebrar Jubileu de Diamante – a primeira foi sua bisavó, a rainha Vitória, que ainda detém o recorde de reinado mais longo, 63 anos (1837-1901). Mas muitos apostam que a atual monarca vai superar essa marca, pelo vigor que exala aos 85 anos de idade. “Para ela, ser rainha não é trabalhoso, ela é muito feliz desempenhando suas tarefas”, diz o historiador britânico Hugo Vickers, especialista no estudo da realeza. Em entrevista ao site de VEJA, o escritor – que entre as biografias já feitas da família real destaca Elizabeth, a rainha-mãe (2005) – revela detalhes da personalidade da rainha com quem já esteve algumas vezes. “Ela é muito firme e não vacila.” Confira a conversa:

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Como você descreve a rainha Elizabeth II? Ela é uma pessoa cumpridora de seus deveres, alguém que tem servido como rainha há 60 anos com uma consistência considerável. Ela sempre foi muito sábia e séria. Ela cresceu com calma, preparada para seu destino. Para ela, ser rainha não é trabalhoso, ela é muito feliz desempenhando suas tarefas.

A monarquia britânica tem altos e baixos em sua popularidade. Elizabeth II sempre conseguiu contornar os maus momentos. Qual é a relação entre a personalidade da rainha e a força da monarquia britânica em pleno século XXI? É verdade, Elizabeth II conseguiu estabilizar a monarquia britânica. Ela é muito firme e não vacila. Se coisas boas acontecem, ela diz: “Isso é bom”, e continua trabalhando. Se coisas ruins acontecem, ela diz: “Isso é terrível”, e continua trabalhando. E, como você pode ver, isso realmente funcionou. Quando Diana morreu, ela foi muito pressionada, e forçada a aparecer em Londres. No momento em que ela apareceu, todas as hostilidades se dissolveram. Como dizia o seu primeiro-secretário privado, Alan Lascelles: “Se você der à rainha três alternativas, ela sempre escolherá instintivamente a certa”.

Dizem que Winston Churchill foi o primeiro-ministro favorito da rainha. O que havia de especial entre os dois? Quando Churchill soube da morte do rei George VI, pai de Elizabeth II, ele disse: “Eu mal a conheço, ela não passa de uma garota”. Muito cedo, porém, ele percebeu que ela é muito sábia e sensível, e tinha muito respeito por ela. Então, Churchill desempenhou o papel de um avô, ele sabia que o fardo colocado sobre aqueles ombros era pesado, então queria ajudá-la como pudesse. Ele também gostava um pouco de controlá-la, numa relação muito parecida com a do Lorde Melbourne e a rainha Vitória, outro político experiente com uma rainha jovem.

Também há quem diga que ela não suportava Margaret Thatcher… Ela se deu muito bem, sim, com Margaret Thatcher. Respeitava-a bastante e ficou horrorizada com o modo pelo qual se livraram dela no Partido Conservador. Uma passagem engraçada na relação das duas é que uma vez Margaret Thatcher apareceu no Parlamento usando um vestido da mesma cor que a roupa da rainha. Então, a premiê mandou uma mensagem aos funcionários reais perguntando se poderia haver algum tipo de coordenação para que elas não usassem a mesma cor. A resposta foi: “Francamente, a rainha não percebe que cor as outras mulheres estão usando”. Elizabeth II é muito boa em colocar as pessoas em seu devido lugar. E ela gosta de fazer algumas travessuras também.

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É verdade que todos os primeiros-ministros acabam se apaixonando pela rainha? (Risos) De uma maneira engraçada, sim… David Cameron disse recentemente que é muito útil ter reuniões com a rainha, porque você precisa ter bem claro em sua mente: “Quais são as questões importantes que acontecem? Sobre quais assuntos eu deveria falar com ela?”. E isso coloca as coisas em perspectiva. Ela nunca dá opinião política em público, o que não quer dizer que ela não faça isso no particular. Mas o premiê não precisa ouvir, porque ela não pode dizer: “Não faça isto”. Uma satisfação que ela tem é de vê-los chegando ao poder cheios de ideias novas, querendo reformar tudo, e, com o tempo, descobrirem que não é tão fácil quanto pensavam. Depois de alguns anos, eles vão embora exaustos.

Elizabeth II é o rosto da monarquia britânica há seis décadas. Charles – um príncipe com zero carisma mas o primeiro na linha de sucessão – conseguiria manter a popularidade? É Charles mesmo quem irá sucedê-la, e não há dúvida sobre isso, é assim que as coisas acontecem. E você verá que, quando Charles virar rei, ele se transformará em uma pessoa diferente. Foi o que aconteceu com Edward VII quando sucedeu a rainha Vitória, depois de ter sido um príncipe envolvido com jogatina e misticismo, que chegou até a comparecer à Justiça. Quando ele virou rei, tornou-se um excelente embaixador e um monarca majestoso. Quando Charles for rei, ele será tratado com muito mais respeito do que é agora.

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