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Decisão de Morales de interromper estrada não acaba com protestos na Bolívia

Indígenas bolivianos contrários à construção de uma estrada se organizavam para reiniciar sua marcha de protesto em direção a La Paz, apesar do anúncio do presidente Evo Morales da suspensão da obra, o que não evitou críticas nem uma greve geral de trabalhadores nesta quarta-feira.

Centenas de nativos estão mobilizados em dois municípios, Rurrenabaque e San Borja, próximos a Yucyni (320 km a nordeste de La Paz), onde a Polícia reprimiu no domingo a marcha, gerando críticas contra o presidente e a renúncia de sua ministra de Defesa na segunda-feira.

Morales anunciou na noite de segunda-feira sua decisão de suspender a construção da estrada de 300 km que cruzará o território indígena e natural de TIPNIS, no centro do país, até que seja realizada uma consulta, mas a decisão não convenceu os manifestantes.

“O fato de o presidente solucionar o primeiro ponto não quer dizer que tenha saído do problema, nós vamos continuar”, afirmou à AFP o deputado indígena Pedro Nuni, um dos líderes da marcha.

Para Nuni, a decisão do governante “não é uma garantia”, porque os indígenas não querem a suspensão da obra viária, mas seu cancelamento definitivo. “Dissemos e repetimos, não queremos que esta estrada exista”, ressaltou.

Os indígenas aproveitam sua nova posição de força para reforçar outros pontos que querem ver solucionados, relacionados a atividades petrolíferas em suas comunidades, titulação de territórios, compensações pela emissão de gases de efeito estufa e direito a consulta em todas as leis de seu interesse.

Nuni afirmou que ainda não há uma data para o reinício da caminhada porque primeiro é preciso encontrar os indígenas que estão desaparecidos, que, segundo sua colega Blanca Cartagena, “somam cerca de 20, entre adultos e crianças”.

“Primeiro de tudo: nos ajudem a encontrar nossos irmãos para depois ver que ação vamos tomar”, afirmou.

A situação sobre os desaparecidos ainda é incerta, tanto em San Borja como em Rurrenabaque, já que os nativos asseguram que há ao menos duas crianças e quatro adultos mortos, embora o governo tenha desmentido a existência de mortos.

A menina de 9 anos, Valeria Melgar Eutano, “não está” em San Borja, disse por telefone na cidade o líder indígena Rafael Quispe. No entanto, ele confirmou nesta terça-feira o aparecimento de dois irmãos (de 13 anos e um mês) que se encontram em San Borja.

Tanto em Rurrenabaque como em San Borja os nativos estão em sedes abertas da Igreja Católica. Ali dormem, descansam e comem com a assistência da prefeitura local e de grupos civis.

O presidente Evo Morales recebeu fortes críticas pela ação policial, embora tenha afirmado que nunca instruiu os militares a recorrerem à violência, e inclusive a condenou.

O presidente já sofreu a renúncia de sua ministra da Defesa, Cecilia Chacón, do vice-ministro do Interior, Marcos Farfán (que dirigiu a operação policial), e da diretora Nacional de Migração, María Renée Quiroga.

Morales, que chegou ao poder em 2005, enfrenta uma greve geral de 24 horas no Departamento de Beni, uma greve de fome de 20 pessoas em Santa Cruz e marchas e vigílias em La Paz, Chuquisaca e Cochabamba.

A Central Operária Boliviana (COB), que reúne todos os sindicatos de operários, convocou uma greve geral de 24 horas para quarta-feira.

O líder dos trabalhadores da Saúde, José Gonzales, afirmou: “Na COB estamos consternados com este brutal ataque por parte da polícia contra os irmãos indígenas, que nos lembraram o estilo dos governos ditatoriais, o estilo dos governos neoliberais”.

Já a Central Operária Departamental de Potosí anunciou que realizará um referendo para revogar o mandato do presidente Morales e de seu vice-presidente, Alvaro García.

A ministra do Desenvolvimento Produtivo, Teresa Morales, defendeu nesta terça-feira o presidente Morales, afirmando que ele não ordenou a repressão militar e reiterou a vontade de que uma comissão nacional e internacional de direitos humanos investigue o que ocorreu no país.

Analistas ressaltaram que em menos de um ano o presidente Morales precisou recuar duas vezes. Isto ocorreu em dezembro com uma alta de 83% do preço da gasolina e agora com o anúncio de suspender a construção da estrada, em ambos os casos pelas pressões de suas bases sociais de esquerda.