“Ela estava com um lindo vestido azul. Quando morreu, eles simplesmente a pegaram e a puseram no túmulo. Tinha cabelos pretos trançados e uma fita vermelha a prendê-los. Foi uma cena bem tocante.” Foi assim, em 1951, que o jovem patologista americano Johan Hultin descreveu o corpo que tirara do gelo do Alasca, numa vila chamada Brevig Mission. A menina era uma das 72 pessoas do lugar que tinham morrido entre 15 e 20 de novembro de 1918, durante a pandemia de gripe espanhola. Apenas oito moradores sobreviveram ao surto. Hultin levou as amostras preservadas para um laboratório da Universidade de Iowa — o sequenciamento genético do vírus, o influenza, permitiu identificar a capacidade de reprodução e letalidade do microrganismo e representou um salto científico que nos traz aos dias de hoje, com a Covid-19.
O vírus, 25 vezes mais mortal que o comum da gripe, matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Em fevereiro de 2002, já alcunhado de “Indiana Jones” da ciência, Hultin diria uma frase premonitória: “É absolutamente certo que outra pandemia virá, mas não sabemos de que forma será. A questão é: como podemos ser avisados?”. Hultin morreu em 22 de janeiro, aos 97 anos, em Walnut Creek, na Califórnia.
Um piano ao cair da tarde
No início dos anos 1960, ao recriar a música folk, aplicando a ela pitadas do rock, com guitarra e teclado, Bob Dylan importou os serviços do pianista Hargus “Pig” Robbins, que tinha longa história nos estúdios e palcos de Nashville, o epicentro do country. Robbins — cego, afeito a linhas melódicas adesivas — foi um dos responsáveis pelo tom mágico de Blonde on Blonde, álbum de Dylan lançado em 1966. Soou estridente em Ray Day Women #12 & 35 e lírico em baladas elegíacas como Just Like a Woman e Sad-Eyed Lady of the Lowlands. Morreu em 30 de janeiro, aos 84 anos, em Franklin, no Tennessee, de causas não reveladas pela família.
Publicado em VEJA de 16 de fevereiro de 2022, edição nº 2776







