Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Atenção: pode haver um ‘celular de sangue’ no seu bolso

Até 5 milhões de pessoas morreram em conflitos desencadeados pela extração de metais na África - usados na fabricação de celulares e computadores

Por Cecília Araújo
10 out 2010, 18h51

O tráfico de diamantes provocou uma guerra civil de dez anos em Serra Leoa que matou 500.000 pessoas e obrigou mais de 2 milhões a deixarem o país

A África se parece bastante com o Brasil no que diz respeito à discrepância entre as riquezas disponíveis, predominantemente naturais, e a pobreza da grande maioria da sua população. Embora em algumas regiões o solo não seja dos mais férteis – o continente possui grandes extensões desérticas -, outras foram presenteadas com enormes florestas. Existem ainda inúmeros pontos recheados de riquezas naturais como diamante, ouro, urânio e petróleo. Mas o que poderia ser fonte de esperança para os cidadãos africanos, muitos deles miseráveis, acabou se tornando munição para uma guerra que já dura décadas.

Estima-se que até 5 milhões de pessoas tenham morrido em conflitos originados em minas localizadas na África Central e Ocidental, especialmente na República Democrática do Congo, Uganda, Ruanda, Angola, Libéria e Serra Leoa. A forma como essas riquezas são exploradas, à base do trabalho escravo e de uma administração corrupta, acaba colaborando para um mergulho ainda mais profundo na miséria extrema, além de incentivar e financiar crimes.

O tráfico de diamantes, por exemplo, provocou uma guerra civil de dez anos em Serra Leoa. Indiretamente, a pedra preciosa matou 500.000 pessoas entre 1991 e 2002, obrigou mais de 2 milhões a deixarem o país, mutilou milhares e traumatizou centenas pelas violências e torturas a que foram submetidos. Muitas vezes, a corrupção ocorre dentro do próprio governo, entre os responsáveis pela administração das minas, e é determinante para o desencadeamento dos conflitos. Contando com um estado deteriorado, os países que vivem da mineração acabam se tornando ainda regiões propícias para o tráfico de armas, munição e drogas.

Continua após a publicidade

Assim como as joias, produtos eletrônicos como celulares e computadores também participam de guerra semelhante, já que contam com metais – como o tungstênio, por exemplo – para sua fabricação. Um estudo recente da ONG Global Witness, intitulado Faced with a Gun, What Can You Do? levanta suspeitas sobre o envolvimento de 240 empresas na ligação entre as indústrias de mineração, metalurgia e tecnologia. A instituição apontou grandes empresas europeias e asiáticas como corrompidas e outras várias como suspeitas por não esclarecer ao consumidor sobre seus fornecedores.

Em 2003, foi lançado um esquema de certificação de diamantes internacional, o Processo de Kimberley, com o objetivo de tornar o mercado de diamantes mais transparente e menos sanguinário. A questão ganhou ainda mais divulgação em 2006, com o lançamento do filme Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006, de Edward Zwick), baseado na guerra civil da Serra Leoa: mostrou ao grande público a violência por trás da indústria das pedras. Além de conscientizar as pessoas sobre o assunto, a produção também relembrou aos governos e à indústria de que precisam assegurar que os diamantes provenientes de zonas de conflito não entrem nunca no mercado de consumo.

Para Stephen D’Esposito, presidente da Resolve, uma organização independente que ajuda a desenvolver soluções para questões ambientais e humanitárias, qualquer forma de divulgação é válida na formação dessa consciência. “Sem dúvida o filme ajudou a divulgar a ideia de que tudo o que você compra tem algum impacto na comunidade, positivo ou negativo. O consumidor e as empresas têm um papel crucial em questões como essa”, afirma. No contexto atual, um filme sobre os “celulares de sangue” cairia bem.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.