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‘América Latina terá de aprender a conviver com Paraguai’

Especialista em Comunicação afirma que Federico Franco tem primeiro grande teste político ao assumir Presidência: 'Ele pegou o barco em um mar turbulento'

Por Carolina Freitas, de Assunção 6 jul 2012, 11h17

“O governo de Franco conta com maioria parlamentar e é preciso lembrar que o vice-presidente foi eleito democraticamente pelo povo, tanto quanto Fernando Lugo”

O novo presidente do Paraguai Federico Franco completa nesta sexta-feira duas semanas no poder com um horizonte desafiador. O país foi suspenso do Mercosul e teve de assistir calado ao ingresso da Venezuela no bloco. As nações vizinhas ainda titubeiam em reconhecer a legitimidade do governo que assumiu logo após o impeachment de Fernando Lugo. Apesar da calmaria nas ruas da capital Assunção, dúvidas rondam o futuro político e econômico do Paraguai – que está atrelado à capacidade de Franco e seu ministro de Relações Exteriores, José Félix Estigarribia, de refazer as relações diplomáticas do país. Em entrevista ao site de VEJA, o especialista paraguaio em Comunicação e Pesquisa de Opinião Ernesto Garcia detalha o processo político que possibilitou a destituição de Lugo em menos de 30 horas e analisa os principais desafios de Federico Franco. Confira os principais trechos da conversa:

Fernando Lugo foi eleito presidente em 2008 sem experiência política e filiado a um partido pequeno. Como isso se viabilizou? O Paraguai viveu por 60 anos sob domínio do Partido Colorado – sendo 35 deles sob a ditadura de Alfredo Strossner. O restante desse período foi também de hegemonia dos colorados, com liberdades públicas, mas ainda em um modelo clientelista, coronelista. A oposição percebeu, então, que a forma de ganhar o poder seria ter um candidato único contra os colorados, ou seja, todos contra o Partido Colorado. Foi nesse contexto que surgiu o nome de Fernando Lugo, como uma grande esperança. Era um bispo, homem esclarecido, que trabalhou com setores populares.

Tudo isso o diferenciava dos políticos colorados? Sim. O surgimento de Lugo em 2008 foi o grande acontecimento político paraguaio. Foi um tsunami. A candidatura dele foi colocada pelo Partido Democrata Cristão, uma legenda muito pequena. Ele não tinha experiência política de governo e, quando se tornou presidente, começou a dar mostras de que não tinha traquejo para administrar um país.

Que fatos mostram essa inabilidade? Já no poder, ele tentou fazer uma reforma constitucional para aprovar a reeleição, que não é permitida no Paraguai. Sem respaldo parlamentar, fracassou. Depois, tentou fazer seus próprios candidatos, brigou com o maior partido que o apoiava, o Partido Liberal, começou a se aliar com os setores de esquerda bolivariana. Enfim, criou um clima de conflito interno.

Em que momento ele passou a perder apoio popular? O ponto crucial foi quando apareceram filhos de relacionamentos mantidos enquanto ele era bispo. Isso não teria sido um grande escândalo se ele fosse um escrivão, mas ele era um bispo. Os paraguaios se sentiam ridicularizados. Já tínhamos má fama, de ser um país de produtos piratas. Agora, tínhamos um bispo falsificado na Presidência. Além disso, Lugo trabalhava para criar um partido tendo como base popular movimentos sociais, como o dos carperos. Para agradar a essa camada, criou Bolsa Família, pensão para idosos, sistema gratuito de atenção à saúde gratuita. Tudo, no entanto, foi feito pela metade, porque os programas eram ineficientes e porque Lugo não tinha apoio do Parlamento para a liberação de recursos.

Como essa crise de imagem afetou o governo dele? A crise de imagem foi se somando a denúncias de corrupção, à expulsão de dois bons ministros do governo sob a alegação de que estavam fazendo campanha e a um estilo exótico para um político. Ele manteve a cultura do bispo, de silêncios longos. Isso foi irritando seus aliados. A ameaça de um impeachment há muito rondava Lugo, mas o Partido Colorado e o Liberal nunca estavam em acordo. De repente, houve as mortes de policiais e sem-terra no campo. Foi o pretexto que faltava para que os dois grandes partidos se unissem pela deposição do presidente.

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E por que essa confluência aconteceu nesse momento? O Partido Liberal vivia um período conturbado, com briga interna pela indicação do seu presidenciável e denúncias de fraude nas eleições internas. Ao mesmo tempo, os colorados tinham interesse em desfazer a aliança entre os liberais e o governo, para enfraquecer seus adversários nas próximas eleições presidenciais. Para os dois, era interessante que Lugo não estivesse mais no governo.

O senhor acredita que Federico Franco tinha ciência dessa movimentação? Ele, ao menos, aceitou o processo. Ao aceitar terminar esse mandato, ele renuncia a tentar qualquer outro cargo nas eleições de abril. Ele se tornará, como todos os ex-presidentes, um senador vitalício. Com cargo, mas sem direito a voto. Ele está se anulando politicamente, mas, por outro lado, um ano como presidente da República não deixa de ser uma tentação.

Qual é o grande desafio de Franco no poder? Ele é médico por formação, mas vem de uma tradicional família de políticos paraguaios. Já exerceu cargos eletivos, mas nunca ocupou um posto com tamanha exigência como a Presidência. Hoje, ele está pegando o barco em um mar turbulento, então vai precisar de “unhas de guitarreiro”, como dizemos no Paraguai. Precisa de unhas longas, para agarrar, controlar e manejar uma situação de conflito como a atual. Mas há coisas que são certas: o governo de Franco conta com uma maioria parlamentar enorme e é preciso lembrar que o vice-presidente foi eleito democraticamente pelo povo, tanto quanto Lugo.

Qual é a maior urgência do Paraguai? Resolver nosso problema de relacionamento internacional, fazer com que outros países reconheçam a legalidade e a legitimidade do governo. A economia precisa se manter com credibilidade para os investidores estrangeiros. A dinâmica econômica do país está muito ligada ao Rio Paraguai, pelo qual se escoa 80% da produção do país. Esse rio percorre quase todo seu trajeto na Argentina, que pode querer fazer algum bloqueio. O Paraguai é uma economia muito pequena. Qualquer bloqueio pode afetar muito gravemente a sua economia.

Que saídas há para a situação diplomática? Franco precisa de ajuda para gestão diplomática, para convencer os países a não romperem com o Paraguai. Essa ajuda pode vir do Brasil, dos Estados Unidos, do Uruguai, do Chile ou da União Europeia. O governo de Federico não é um governo definitivo, em oito meses haverá eleição. Pode ser que o governo continue assim até a eleição em abril de 2013, quase como um governo pária, não reconhecido, mas que existe, funciona e continua com os intercâmbios econômicos. Há fatos que você não pode evitar. Somos vizinhos, temos fronteiras, bens em comum. Tem de ter uma saída ou, na pior das hipóteses, um modus vivendi, com regras básicas de convivência. A América Latina terá de aprender a conviver com Paraguai.

Qual a avaliação do senhor sobre o trabalho do ministro de Relações Exteriores, José Félix Estigarribia? Ele foi diplomata a vida inteira e tem boa relação com diplomatas de outros países. É um dos melhores nomes dessa área, tem as credenciais para fazer esses acertos. Claro que há questões ideológicas. Na Venezuela, por exemplo, o chanceler é um boneco de ventríloquo de Hugo Chávez, na Argentina também. Eles não têm a cultura brasileira, do Itamaraty, que faz sempre uma análise mais ampla da questão. Sabemos que no Mercosul o Brasil tem muito peso. O Brasil pode ser o fator de equilíbrio desse debate.

Há sentido em chamar a deposição de Lugo de golpe? O processo não foi feito da melhor forma possível, mas não houve golpe. A principal crítica que se faz é ao curto tempo para defesa de Lugo, mas a celeridade do processo de impeachment é uma ferramenta que pode ser manejada pelo Parlamento. Uma reforma constitucional em 2002 criou um poderoso sistema parlamentar. Nesses dez anos, já houve dois impeachments. No caso de Lugo, os parlamentares tiveram medo que o presidente conseguisse renegociar a maioria. As maiorias políticas são muito frágeis.

O impeachment de Lugo é um processo sem volta? Absolutamente sem volta. Não há chances de Lugo voltar ao poder ou sequer de se adiantar a eleição presidencial. Há prazos constitucionais já fixados.

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