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Acusada de queimar o Corão, mulher é espancada até a morte

O chocante ataque da multidão começou depois de uma discussão da mulher com um mulá. Policiais são acusados de não intervir para evitar o pior

Por Da Redação - 23 mar 2015, 18h30

Uma mulher foi linchada até a morte em Cabul, no Afeganistão, por ter sido acusada de queimar o Corão. A acusação era falsa. Imagens gravadas com celular e divulgadas em redes sociais mostram que policiais presentes ao local não interferiram para salvar a mulher de 27 anos de idade, que foi chutada e espancada com pedaços de pau por uma multidão antes de ter o corpo arrastado por um carro, jogado de uma ponte e queimado.

“Na noite passada olhamos todos os documentos e provas mais uma vez, mas eu não consegui encontrar nenhum indício de que Farkhunda queimou o sagrado Corão”, disse a jornalistas o general Mohammad Zahir. “Ela era totalmente inocente”, acrescentou, segundo a agência Reuters.

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O crime chocante foi condenado pelo presidente Ashraf Ghani, que ordenou uma investigação sobre o caso, ocorrido na última quinta-feira. As Nações Unidas também condenaram a barbárie. “Aprovamos as informações iniciais sobre a prisão de vários suspeitos, mas pedidos às autoridades que investiguem esse caso em sua totalidade e responsabilize todas as pessoas que participaram ativamente do crime ou ajudaram ou o incentivaram”, disse a representante da ONU Mulheres no Afeganistão, Elzira Sagynbaeva, em comunicado. O ministro do Interior Noorul Haq Ulumi informou nesta segunda-feira que 26 pessoas já foram detidas por ligação com o crime.

Segundo familiares da vítima, a selvageria foi instigada pelo mulá de uma mesquita que ficou irritado com as acusações de Ferkhunda de que ele estava distribuindo amuletos falsos. Durante a discussão, ele a acusou de queimar o Corão, sendo ouvido por pessoas que estavam por perto e que iniciaram o linchamento.

A informação de que a vítima sofria de problemas mentais foi negada por parentes. O irmão de Farkhunda explicou que a notícia foi espalhada pelo pai, em uma tentativa de proteger a família, depois de um policial ter dito que eles teriam de deixar a cidade, para sua própria segurança. “Meu pai estava com medo e falou isso para que as pessoas se acalmassem”, disse Najibullah.

Pelo menos treze policiais foram suspensos depois do ataque. “Para nós, este foi uma dos aspectos mais problemáticos do caso – a polícia não ter intervindo de forma adequada para salvá-la quando houve uma oportunidade de fazer isso”, destacou Patricia Grossman, pesquisadora da Human Rights Watch no Afeganistão.

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Um porta-voz do Ministério do Interior, Sediq Sediqi, disse que o pai da vítima está certo ao dizer que a polícia poderia ter feito mais. “Teremos de trabalhar nossas ações, capacitação e treino de nossa polícia em todo o país. Esse incidente vai trazer muitas mudanças para nós”, disse, segundo a rede britânica BBC.

O caso levantou dúvidas sobre as reformas empreendidas no Afeganistão desde que o Talibã foi arrancado do poder, em 2001. Nas grandes cidades, meninas passaram a frequentar a escola e mulheres puderam trabalhar, o que era proibido sob o regime dos extremistas. Nas áreas rurais, no entanto, pouco mudou.

(Da redação)

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