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A guerra dos noventa anos

Isso, sim, foi polarização: o precedente de Keynes contra Hayek

Por Vilma Gryzinski 29 nov 2019, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 15h01
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Países polarizados, sociedades rachadas ao meio, radicalização da política. Não existe lugar-comum que não tenha sido usado nestes curtos e alterados anos em que o caminho do meio foi largado sem nenhuma cerimônia, a esquerda assistiu estarrecida ao renascimento da direita que considerava enterrada para sempre e os próprios eleitores se dividiram com diferenças mínimas, quase sempre de 49% contra 51% seja numa eleição no Uruguai, num plebiscito na Bolívia ou no referendo sobre o Brexit. Como castigo a quem não consegue raciocinar sem lugares-comuns — mesmo quando estes, tal como os relógios, também acertam eventualmente —, os abusadores deveriam ser condenados a mergulhar nos detalhes da maior batalha entre gênios da economia ou “o choque que definiu a economia moderna”, a Guerra dos (quase) Noventa Anos entre John Maynard Keynes e Friedrich Hayek. Os demais são convidados a se deleitar com um confronto entre dois cavalheiros que se estende, em diferentes reencarnações, até hoje: a melhor forma de bombar a economia e gerar empregos numa época de crise é soltar os cofres até o ponto de abrir frentes de trabalho ou, ao tentar estimular artificialmente o marasmo, o governo (qualquer um) pode acabar criando mais desemprego ainda e a livre-iniciativa é a solução.

A paródia no YouTube do embate entre os dois cavalheiros é o melhor antídoto para as ideias, rasas, das sociedades rachadas ao meio

Keynes, o teórico brilhante, solar, exuberante, alto, bonitão, como seus amigos do grupo de Bloomsbury, depois contemplado com um título de nobreza e um lugar na Câmara dos Lordes, com direito a ter suas teorias batizadas com seu nome, foi contestado no próprio território pela primeira vez pelo austríaco macambúzio e definitivamente nada sedutor em 1931. Hayek fez suas quatro palestras na London School of Economics, praticamente sem nenhum efeito. Tinha 32 anos e pouco mais que uma rara capacidade de pensamento independente que lhe permitira “nadar contra algumas das mais poderosas correntes de sua época”, como descreveu o filósofo John Gray. O que viria a ser chamado de keynesianismo já estava encaminhado para a glória.

O embate de ideias, porém, fincou raízes. E nem sempre em termos cavalheirescos. “Precisamos de uma restauração do pensamento moral”, admoestou Keynes numa carta de 1944 ao rival. “Se o senhor pudesse dirigir sua cruzada nesse rumo, não ficaria parecendo tanto com Dom Quixote. Eu o acuso de talvez confundir um pouco os assuntos morais e os materiais.” O curioso é que o “Dom Quixote” austríaco viveu para ver o renascimento de suas ideias ganhar um Nobel. E ainda frequentar a famosa bolsa de Margaret Thatcher, que sacou um exemplar de Constituição da Liberdade e bateu na mesa de um palestrante de seu próprio Partido Conservador que lhe pedia moderação. Mesmo para quem já conhece os detalhes dessa delícia de guerra, é imperdível ver, no YouTube, a hilariante série de paródias de clipes de rap em que o badalado Keynes e o desprezado Hayek se defrontam. Um spoiler: os córneres de Hayek são Say (como o francês liberal da lei com seu nome) e Mises (o outro gênio austríaco). É o melhor antídoto disponível no mercado para as ideias, rasas, dos reis da polarização.

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663

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