A armadilha que Putin armou para Trump com enrolação da trégua na Ucrânia
Presidente da Rússia, com tendências autocráticas, age de acordo com as próprias regras no jogo com os EUA

Depois de quatro anos de governo de Joe Biden, aliado fiel da Ucrânia, a aproximação entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o seu homólogo russo, Vladimir Putin, pareceu estranha. O republicano, que havia prometido acabar com a guerra “em 24 horas” caso retornasse à Casa Branca, passou a destinar duras críticas ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky – ele, segundo Trump, é “ditador”, torna “difícil” fechar acordos, é ingrato pela ajuda militar dada por Washington e flerta com a Terceira Guerra Mundial.
Na contramão, o líder americano tem participado de ligações com Putin e discutido diretamente com o lado russo os caminhos para o fim do conflito, que já ultrapassou a marca de três anos. Para além da questão de Kiev, o estreitamento de laços entre Washington e Moscou poderia trazer supostos benefícios políticos e econômicos, ainda que questionáveis, para os dois lados – e talvez, para Trump, altamente transacional essa possibilidade compense mais do que apoiar o direito à soberania, estabelecido pelas Nações Unidas e defendido, a todo tempo, por Zelensky.
Afinal, a Rússia poderia intervir em problemas no Oriente Médio, que está mergulhado no mais profundo caos em diferentes frentes, incluindo Gaza (na guerra Israel-Hamas), Líbano, Síria e Irã, e aumentar o tom para que o governo iraniano, um aliado russo e inimigo dos americanos, abra mão de bombas nucleares. O fim da “parceria sem limites” entre Rússia e China também seria uma boa notícia.
No sentido econômico, os EUA poderiam ampliar os investimentos em negócios russos, desde empreendimentos tecnológicos até a exploração de gás no Ártico. Com a suspensão das sanções, aplicadas em peso após a invasão à Ucrânia, a Rússia teria espaço para retornar ao G7, que reúne as nações mais industrializadas do mundo. O país foi banido do grupo, que antes se chamava G8, por tempo indeterminado após anexar a Crimeia, em 2014. Trump, por sua vez, já disse que foi “um erro expulsá-los”.
Mas há quem conteste de que as promessas serão capazes de trazer benefícios reais. Embora não tenha colapsado com a guerra, conforme previsto por analistas, a economia russa é menor do que a da Itália. A influência sobre o Irã também é limitada. A China, por sua vez, depende menos da Rússia do que o contrário. Ao mesmo tempo, a aproximação com Putin pode trazer problemas para os EUA, entre eles o afastamento de países da Europa. As alianças ocidentais, como consequência, seriam enfraquecidas – uma vitória para Putin.
Fora das regras do jogo
Putin, com tendências autocráticas, parece seguir as próprias regras no jogo com Trump. Nem duas horas de telefonema, em 18 de março, foram capazes de fazer o líder russo abrir mão, ainda que minimamente, de seus interesses. Pouco antes da ligação, a Casa Branca e Kiev chegaram a um acordo: um cessar-fogo parcial de 30 dias, que impediria o ataque às infraestruturas energéticas ucranianas e russas. Putin deu o OK, mas logo depois apresentou uma longa lista de exigências para a implementação da trégua. Isso tudo sem controle dos EUA.
O texto divulgado pelo Kemlin “delineou uma série de pontos significativos” que exigem consideração adicional, incluindo “controle efetivo” sobre qualquer cessar-fogo ao longo da linha de frente, e o pedido pelo fim da mobilização de ucranianos e do rearmamento de suas forças durante a pausa nos combates, juntamente com uma exigência mais ampla sobre “eliminar as raízes da crise”.
Uma “condição-chave” para evitar uma escalada maior do conflito também foi estabelecida: que aliados estrangeiros da Ucrânia “encerrem completamente” a ajuda militar e o compartilhamento de inteligência. Líderes europeus temem que essa exigência produza um cenário em que a Rússia possa se rearmar para atacar após o fim do cessar-fogo, enquanto a Ucrânia ficaria incapaz de preparar uma defesa.
O comunicado, por fim, indicou que Putin “respondeu construtivamente” à proposta de um possível cessar-fogo marítimo, aceito oficialmente pelos dois países nesta terça-feira, 25, ainda que a Rússia tenha reforçado as condições para tanto.
Cessar-fogo marítimo
As demandas da Rússia e a impaciência de Trump para colocar um ponto final na guerra, em uma espécie de recado aos americanos e aos democratas de que foi o único presidente capaz de fazê-lo, pintando Biden como fraco, aumentam, quase em mesma medida, a cada dia. O novo e último episódio que escancara o cenário teve palco nesta terça, com um acordo de cessar-fogo sobre o Mar Negro.
Segundo a Casa Branca, o acordo tem como objetivo “garantir a navegação segura, eliminar o uso de força e prevenir o uso de navios comerciais para fins militares no Mar Negro”. Nele, Rússia e Ucrânia concordaram em “desenvolver medidas” para colocar em prática a trégua nos ataques à rede elétrica de ambos os países. Os vizinhos, segundo o comunicado, também “continuarão trabalhando para alcançar uma paz durável e duradoura”.
Mais uma vez, porém, Putin foi Putin. O presidente russo demandou que os Estados Unidos retirem as sanções da indústria agrícola russa. Para o cessar-fogo aéreo, instou que Ucrânia abandone as tentativas de aderir à Otan, principal aliança militar ocidental; que aceite a anexação das quatro regiões ucranianas anexadas, Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia; e que os aliados deixem de enviar assistência militar para Kiev. Nenhuma dessas exigências, nem mesmo em letras miúdas, foram citadas pela Casa Branca.
“Precisaremos de garantias claras. E dada a triste experiência de acordos apenas com Kiev, as garantias só podem ser o resultado de uma ordem de Washington para Zelensky e sua equipe fazerem uma coisa e não a outra”, disse o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, em comentários televisionados após o anúncio do pacto.
Ao que tudo indica, Trump não está no controle das negociações como tenta aparentar. É Putin, conhecido pela paranoia, quem dobra a aposta, blefa e controla a partida, se mostrando melhor jogador de pôquer. O próprio republicano, de certa forma, mostrou a falta de controle durante comentários no Salão Oval. “Em termos de obter um acordo final, pode ser mais fácil lidar com a Rússia, o que é surpreendente, porque eles têm todas as cartas”, admitiu ele. E parece que o presidente russo só vai deixar a mesa quando vencer o jogo.