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Síndrome de Boécio

Ante a crise do livro, o otimismo do filósofo antigo pode ser útil

Por volta do ano 524, o filósofo Anício Boécio foi retirado de sua cela, no cárcere de Pávia, e levado ao campo de execuções. Teodorico, rei dos godos, acusara-o de alta conspiração; por um ano, o maior estudioso de seu tempo esteve trancafiado na torre soturna — onde escreveu sua obra-prima, A Consolação da Filosofia. Antes disso, compusera comentários sobre autores clássicos e traduzira o Organon, de Aristóteles, ao latim. As fontes antigas discordam sobre o método de sua morte: talvez os verdugos tenham-no matado a pauladas; talvez tenham apertado sua testa com uma corda até rachar-lhe o crânio. Atroz, em todo caso, foi o desfecho do último grande bibliófilo da Antiguidade. Com a derrocada do Império Romano do Ocidente, a erudição clássica definhou na miséria, ou ardeu nas chamas, ou expirou no cadafalso. A cultura letrada só viria a renascer séculos depois — graças, em parte, a pessoas como Boécio, que, em meio a flagelos e desventuras, transmitiram o amor pela palavra escrita aos longínquos leitores do futuro.

Há algum tempo venho notando, entre certos companheiros no mundo das letras, os contornos de uma Síndrome de Boécio: a ideia de que chegamos tarde demais e que só nos resta assistir ao sol da literatura declinar mais uma vez no horizonte da história. A sensação é reforçada, no Brasil, pela assustadora crise que vem assolando o mercado livreiro. De outubro para cá, as más notícias se sucederam com velocidade estonteante: a Livraria Cultura entrou em recuperação judicial e a Saraiva anunciou o fechamento de vinte lojas no país. As turbulências envolvendo o livro físico, aliás, não significam uma transição proporcional ao formato eletrônico — até porque as vendas de e-books estacionaram no mundo inteiro.

A agrura é profunda, mas sugiro recordarmos — com uma pitada de sal — o que o velho Boécio escreveu na penumbra da cela: “Toda fortuna é boa fortuna; pois ou nos recompensa, ou nos disciplina, ou nos corrige; em todo caso, quando não é justa, é útil”. As tendências recentes do mercado americano oferecem uma possível lição e uma modesta esperança. Na virada do milênio, a expansão da Barnes and Noble devastou as livrarias de rua; nos últimos cinco anos, todavia, a megarrede entrou em colapso. O tombo do gigante permitiu que ressurgissem gradualmente as lojas menores, com acervos heterogêneos e espaços mais afeitos à intimidade livresca. Não poderia a mesma reviravolta produzir-se no Brasil?

Se nosso destino é semelhante ao de Boécio, prefiro abraçar também seu otimismo crepuscular. Questão pragmática: o otimismo, ainda que exagerado, pode sempre ser útil, enquanto o desespero só conduz de volta a si mesmo. Ouso acreditar que haverá sempre um bastião de leitores irredutíveis, leais ao ideal platônico de livraria: o templo das palavras, onde nos aguardam a contemplação, o encontro e a surpresa. Por mais que a Fortuna lhe despeje golpes, o livro físico sobreviverá — e continuará a formar, fascinar e preocupar seus malfadados mas insistentes cultores. Eis nossa consolação.

Publicado em VEJA de 14 de novembro de 2018, edição nº 2608