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Daniela Arbex: “Quero ajudar a escrever a memória coletiva do nosso país”

Em novo livro, “Arrastados”, a jornalista recria detalhes do rompimento da barragem de Brumadinho e constrói documento histórico sobre o desastre ambiental

Por André Sollitto Atualizado em 27 jan 2022, 18h04 - Publicado em 24 jan 2022, 17h55

Ao contar uma história de enormes proporções como o rompimento da barragem de Brumadinho, a jornalista e escritora Daniela Arbex se voltou para o drama das pessoas que estavam no centro da tragédia. Em Arrastados (editora Intrínseca), novo livro que chega agora às livrarias, esse evento é contado quase em tempo real, reconstituindo as 96 horas que se seguiram ao momento em que um mar de lama invadiu a cidade mineira – o maior desastre ambiental do país.

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Há quase dez anos, a jornalista tem abordado algumas feridas abertas de nossa história. Em Holocausto Brasileiro (clique para comprar), de 2013, escreve sobre os 60 mil mortos no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais, conhecido como Colônia, o maior hospício do Brasil. Em 2015, lançou Cova 312 (clique para comprar), em que revela o submundo das prisões da ditadura. Em 2018, escreveu Todo dia a mesma noite (clique para comprar), uma reportagem sobre o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul – que será adaptado em formato de série para a Netflix. Além disso, publicou uma biografia, Os dois mundos de Isabel (clique para comprar), sobre a imigrante libanesa Isabel Salomão de Campos, fundadora do centro espírita Casa do Caminho, conhecido por suas ações sociais.

Em entrevista a Veja, Daniela Arbex revela o trabalho de apuração por trás do esforço para humanizar a tragédia que matou 270 pessoas e fala sobre o papel do jornalismo em criar a memória coletiva da sociedade.

O lançamento oficial de Arrastados será nesta terça-feira, dia 25 de janeiro, exatamente três anos após o desastre, em uma live que começará às 12h28, horário do rompimento. A transmissão será feita no perfil da editora (@intrinseca) e da jornalista (@daniela.arbex), no Instagram.

Quando você decidiu escrever sobre Brumadinho?

Tudo começou no dia do rompimento. Eu estava dentro de um ônibus, saindo de Porto Alegre em direção a Santa Maria. Eu havia prometido aos pais que perderam seus filhos no incêndio da boate Kiss que passaria o aniversário de seis anos do evento com eles. No ônibus, vi a primeira notícia sobre o rompimento. Em seguida, amigas de uma engenheira da Vale me pediram ajuda para localizar uma colega delas, Isabela. Eu fiquei muito impactada com a foto que elas me mandaram. Era uma imagem de uma menina nova, linda, vestida de noiva. Quis saber quem era aquela menina da foto. E, na hora, me senti impotente por não conseguir ajudar. Pensei que se algum dia fosse escrever sobre o tema procuraria primeiro aquela família. Depois, estive em Brumadinho em fevereiro de 2019. E encontrei uma cidade completamente em choque e traumatizada, que não teve tempo de digerir aquilo. E também com medo. As pessoas haviam perdido parentes, perdido casas. Foram colocadas em hotéis mantidos pela Vale. A empresa pagava moradia, comida, tudo. E elas tinham medo de desagradar, do que iam falar. 

Como foi o processo de entrevistas em meio à pandemia?

A maioria das entrevistas foi presencial. Claro, fiz algumas pelo computador. Mas quando se fala de uma história que acontece dentro de uma mina, preciso ver como é esse espaço. Porque é um planeta à parte, uma indústria bilionária. Foi complicado fazer esse trabalho de campo no meio da pandemia – e isso em um momento em que ela estava descontrolada. Eu fazia testes antes de visitar o entrevistado, afinal ela estava me recebendo na casa dela. E depois eu fazia outro teste para sair e voltar para minha casa. Foram dezenas de testes.

O livro está saindo agora, exatamente três anos após o rompimento. E a situação das barragens no Brasil continua extremamente preocupante.

É um problema crônico. Existem 122 barragens em estado crítico no Brasil. O país tem mais de 20 mil barragens, e apenas 10% delas têm informações confiáveis. Então imagina isso, perceber que muitas podem estar em risco, e esse modelo de negócios continua priorizando o lucro. Vimos o que acontece em Mariana. E na época a Vale adotou o lema “Mariana nunca mais”. Aí acontece o rompimento de Brumadinho. E vemos que a Vale, a empresa que causou o maior desastre ambiental do Brasil, concorre com a Petrobrás pelo maior valor de mercado. Isso é realmente assustador. Se olhar para trás, ela termina o ano de 2019 com suas ações valendo mais do que quando o ano começou. Que tipo de sociedade é essa? A Vale está fazendo um processo de reparação. Não dá para dizer que eles não estão se responsabilizando pelo desastre que provocaram. Foram R$ 37 bilhões em um acordo com o governo. E a empresa pagou mais de R$ 2 bilhões em indenizações. Mas estamos falando de algo irreparável. Não há reparação para a morte. E se trata de um desastre que ainda está em curso. Áreas precisam ser recuperadas, o meio ambiente precisa ser recuperado. Quem entrou em contato com os rejeitos contaminados precisa ser acompanhado. E vemos um adoecimento coletivo da sociedade. Há um aumento de casos de depressão, de consumo de medicamentos, de tentativas de suicídio.

Cenário encontrado pelos bombeiros logo após a chegada na Mina do Córrego do Feijão -
Cenário encontrado pelos bombeiros logo após a chegada na Mina do Córrego do Feijão – Douglas Magno/AFP/Divulgação
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Em seus livros, você aborda casos que ainda estão em curso, fala de feridas abertas. Qual é o papel do jornalismo em contribuir para a apuração de casos como o de Brumadinho?

Algo que me fortaleceu no meu trabalho, especialmente na última década, é ver que estou ajudando a escrever a memória coletiva do nosso país. Dizem que o Brasil é um país sem memória, mas não dá pra perder aquilo que não foi construído. Então esse tipo de registro é necessário. Esquecer é negar a história. Me toca muito perceber que esses trabalhos que fiz servem inclusive como documentação histórica. No julgamento do caso da boate Kiss, meu livro foi anexado como prova. Então, você vê que o jornalismo, enquanto documento histórico, ajuda a construir o que é nosso país. Penso que o livro sobre Brumadinho é importante para entendermos o país como sociedade civil. Órfãos que perderam pais no maior desastre ambiental, que não conseguem nem dimensionar essa perda na vida deles e foram arrancados de seu lugar de origem, poderão ler essa história daqui 20 anos. 

Plataformas de streaming estão buscando histórias reais para séries e filmes. Como você vê esse fenômeno de adaptação de seus livros para o audiovisual?

É ótimo. Tem uma questão de alcance, porque as histórias ganham uma outra dimensão. E tem a questão da qualidade do conteúdo, que pode ser consumido em qualquer plataforma. Todo dia a mesma noite está sendo adaptado para a Netflix. Holocausto Brasileiro está no Globoplay, na série Colônia, baseada em fatos reais que conto no livro. Tem mais coisa vindo, mas não posso dar spoilers.

Como foi seu processo de transição para sair do jornalismo diário e se dedicar apenas aos livros?

No começo, foi meio assustador. Saí de um jornal diário onde trabalhei por 23 anos, com carteira assinada, uma estrutura de vida. De repente, precisei pensar o que faria. Eu queria contar histórias, e resolvi me dedicar a isso. Viver de literatura no Brasil é um grande desafio. Hoje, vivo de venda de livros, de consultorias, adaptações e palestras. É uma nova forma de trabalho, mas ao mesmo tempo é muito prazeroso. Porque você aposta e trabalha nas histórias em que você acredita. Quero continuar escolhendo as histórias que tenham relevância social. Em Arrastados, o Pedro Bial fala isso no prefácio, que é um documento histórico. Não é só para agora, mas para o futuro também. Isso realmente me deixa feliz. Saber que a gente está se vendo mais, conhecendo mais do Brasil profundo. Quando vejo pessoas de todas as classes sociais, de várias áreas do conhecimento, lendo Holocausto Brasileiro, vejo o jornalismo atravessando saberes. 

Qual é o futuro do jornalismo?

Estamos vendo uma campanha de ódio contra o jornalismo, uma crise de credibilidade. Eu acho que o futuro é continuar produzindo jornalismo de credibilidade como forma de manutenção da nossa democracia. Quando conseguimos fazer esses trabalhos de fôlego, eles têm um papel social para o nosso país. Eu sou apaixonada pela profissão. E nessa guerra de versões, em que dizem que a verdade não importa mais, temos que mostrar o contrário. Que a verdade importa, sim. 

Você já tem o próximo, ou os próximos, projetos já desenhados?

Eu não dou conta de tocar vários projetos ao mesmo tempo. Quando entro numa história, me envolvo muito profundamente. Eu tenho uma ligação muito forte com meu filho, e recentemente ele veio até mim e me perguntou porque essa conexão tinha enfraquecido. Essa frase me fez voltar emocionalmente para casa. Então, não consigo trabalhar em mil projetos ao mesmo tempo. Me dedico a cada um para fazer um trabalho de qualidade, com riqueza de detalhes. Eu já tenho o próximo todo desenhado. O tema, o que vou fazer, quando começar a apuração. Eu organizo até o tempo. Quanto vou me dedicar a cada projeto, qual deles vou fazer no ano tal.

Capa do livro Arrastados -
Capa do livro Arrastados – Intrínseca/Divulgação

*As vendas realizadas através dos links neste conteúdo podem render algum tipo de remuneração para a Editora Abril

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