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“Ainda percebo o preconceito”

Indicado ao Prêmio Veja-se na categoria Diversidade criou uma sorveteria onde todos os atendentes são surdos como ele

Dos mais de 200 milhões de habitantes do Brasil, cerca de 46 milhões têm alguma deficiência física, segundo o Censo do IBGE de 2010. Desse total, 9,7 milhões são surdos em algum grau. Em todo o país, há bravas iniciativas para adequar o mundo a quem não fala e escuta, por meio de legendas, tradução em libras e outros recursos. Pois uma iniciativa empresarial em Aracaju promove a inclusão pelo caminho contrário. Na gelateria Il Sordo (O surdo), os falantes é que precisam se adaptar ao universo dos que não ouvem. Para saborear uma das cerca de vinte opções de sorvete italiano, que vão de chocolate a tapioca, ou pedir uma bebida (suco, refrigerante, água), é preciso se comunicar, sem intérprete, com os seis atendentes, todos surdos. Entre eles está Breno Nunes de Oliveira, de 24 anos, o dono do negócio, que, por causas genéticas, não escuta desde o nascimento. “Nosso atendimento parece menos cômodo para o cliente, mas ele percebe que não há barreira quando vê que foi bem atendido”, afirma o jovem sergipano, que estudou técnicas de sorveteria em São Paulo e se expressa por sinais. A desconfiança inicial de que o atendimento seria um caos é desmentida pelo êxito do negócio. Inaugurada em março de 2016, com 30 metros quadrados, a Il Sordo ganhou neste ano uma sede com 150 metros quadrados na região comercial de Treze de Julho, uma das mais nobres da capital. Os milhares de clientes que passam por ali todos os meses dão de cara com folhetos breves, que são verdadeiras aulas de inclusão: eles explicam como se dirigir aos atendentes e que se deve apontar suas escolhas de sabor em vez de verbalizá-­las. Em um aparelho de TV, os profissionais do local surgem em vídeos ensinando expressões como “bom dia”, “boa tarde” e “obrigado” em libras. Boa parte da clientela faz questão de aprender os sinais, a fim de usá-los nos pedidos.

O início foi difícil: Oliveira empenhou-se na argumentação, às vezes com a ajuda de intérpretes, para que os fornecedores aceitassem fechar negócio com uma empresa na qual nenhum funcionário atende o telefone nem responde a pendências verbalmente. Aos poucos, convenceu-os de que e-mail e mensagens de celular seriam suficientes para a comunicação no dia a dia. Máquinas foram adaptadas para que um sistema de luzes substituísse os sons que indicam, por exemplo, quando o processo de fabricação de sorvete está finalizado. “Hoje as pessoas me respeitam mais porque me conhecem, mas ainda percebo o preconceito quando elas se surpreendem com o fato de eu ser o dono da sorveteria”, diz Oliveira. O mérito do empreendimento é promover a inclusão ao requerer a adaptação de quem não tem a limitação de ouvir, e não o contrário. Famoso na cidade pela iniciativa, Oliveira recebeu medalha de honra na Assembleia Legislativa de Sergipe por sua “contribuição às pessoas com deficiência”. Com a repercussão positiva, ele já pensa em expandir o negócio para outras cidades. Há tratativas avançadas para a abertura de uma unidade em Florianópolis. A principal exigência é que o perfil dos funcionários seja o mesmo: o atendimento deve ser obrigatoriamente feito por deficientes auditivos. “Meu sonho sempre foi vencer o preconceito contra os surdos e incluí-los no cotidiano. Estou no caminho certo, mas ainda há muito a ser feito.”

Conheça os três candidatos nesta categoria. A votação está encerrada.

Diversidade
Alexandre Saadeh – O psiquiatra coordena o Ambulatório de Identidade de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas Leia o perfil completo
Breno Oliveira – O empresário criou uma sorveteria onde todos os atendentes são surdos como ele — e onde os clientes têm uma aula de inclusão Leia o perfil completo
Maitê Lourenço – A psicóloga e empreendedora comanda uma aceleradora de startups dedicada a promover empreendedores e executivos negros Leia o perfil completo