Copa de 2026 terá países sem nenhuma tradição — bom para os negócios, ruim para o futebol
Com a participação de 48 seleções, e não mais 32, o campo ficou congestionado
O inchaço da Copa do Mundo de 2026, que será realizada simultaneamente nos Estados Unidos, México e Canadá entre 11 de junho e 19 de julho do próximo ano, é a notícia mais estridente antes de a bola rolar. Serão 48 seleções — e não as habituais 32, como ocorre desde 1998. Haverá 104 partidas — até agora, eram 64. A disputa atravessará 38 longuíssimos dias. O crescimento do torneio cumpre, como destino atávico, por imposição financeira e política, uma ideia do brasileiro João Havelange, que presidiu a Fifa de 1974 a 1998, e pretendia fazê-la mais forte e mais influente do que a ONU. Não há dúvida, quanto mais jogos, mais dinheiro em caixa, atrelado a propaganda e direitos de transmissão. No ciclo do Catar, em 2022, houve a arrecadação de 40 bilhões de dólares. Estima-se, agora, algo em torno de 60 bilhões de dólares no caixa. Considere-se, por óbvio, os benefícios para a gangorra de interesses dos membros da entidade mandachuva da bola: todos os 211 filiados são eleitores, e quem tem voto tem poder.
Ao anunciar a ampliação, o presidente da Fifa, o italiano Gianni Infantino, disse ter deflagrado a “Copa mais inclusiva de todos os tempos”, ao permitir que países no acostamento da história do esporte tivessem alguma chance. É louvável, em iniciativa que poderia ser aplaudida, por democrática, mas os estertores das Eliminatórias, na semana passada, entregam um desenho diferente. São 42 escretes já classificados — os seis restantes serão definidos nas repescagens de março. Tem espaço para outros quatro europeus, depois de um minicampeonato com dezesseis times. Lutam por outras duas vagas Bolívia, Iraque, Jamaica, Nova Caledônia, República Democrática do Congo e Suriname.
Mas, enfim, do ponto de vista do interesse, qual o problema de a porta ter sido escancarada para tanta gente? Estarão lá, é líquido e certo, nações como Cabo Verde (560 000 habitantes, 68º do ranking), Curaçao (população de 160 000 cidadãos, 82º do ranking) e o Haiti (destroçado, em permanente guerra civil, forçado a fazer os jogos na vizinhança, em outros pontos do Caribe, 84º do ranking). Em contrapartida, gigantes como Itália (12º), Dinamarca (22º) e Turquia (25º) ainda brigam por um lugar ao sol. Dá-se, então, uma bizarrice, que, se não é o fim dos tempos, longe disso, autoriza algum desconforto: a fase inaugural de grupos terá duelos bem menos interessantes do que a repescagem da Europa.
Some-se a isso ainda incômodas situações. É o caso do Haiti, insista-se, que chega pela segunda vez à elite, depois de ter participado do Mundial de 1974, e pode viver um estorvo. Caso o sorteio ponha a seleção haitiana para jogar nos Estados Unidos, os torcedores não poderão entrar em território americano, por terem a entrada barrada por decisão do governo de Donald Trump. Os jogadores receberão uma isenção migratória especial, como também acontecerá com a turma do Irã.
O desequilíbrio, portanto, virou assunto. “Temos que repensar as coisas”, reclamou o treinador italiano Carlo Gattuso. “Olhando a tabela sul-americana, seis se classificam diretamente e o sétimo ainda tem alguma chance, é uma discrepância decepcionante.” Ele tem alguma razão: na Europa, apenas 30% das equipes avançam. O goleiro argentino Dibu Martínez retrucou: “Os europeus jogam em gramados perfeitos, há complexidades na América do Sul que não existem na Europa”.
Os pequenos já garantidos, e que não estão nem aí para análises desse tipo, receberam verba da Fifa para crescerem e aparecerem no futebol, com instalação de escolas e campos de treinamento. Dando de ombros para as injustiças, saíram às ruas, em festa. Uma onda azul tomou conta de Willemstad, a capital de Curaçao, como se… como se tivessem ganhado a Copa. Em Cabo Verde, foi preciso controlar a euforia no estádio nacional de Praia, a capital, sob risco de punição severa caso os torcedores invadissem o gramado ao apito final, na vitória contra Essuatíni. Personalidades de todas as áreas fizeram campanhas pelas redes sociais debaixo do slogan “Ka Nu Invadi Campo”, em crioulo cabo-verdiano.
As celebrações são comoventes e, de algum modo, apagam qualquer desconforto com a hipótese de má qualidade. É a beleza do futebol — como se vê, aliás, no cotidiano do treinador brasileiro Sylvinho, da Albânia, que faz a primeira partida de mata-mata da repescagem contra a Polônia. Nas ruas ele não pode andar, assediado. É recebido e premiado pelo primeiro-ministro. Virou ídolo improvável. “Estamos próximos de algo grande, mas há ainda muito trabalho a fazer”, disse Sylvinho a VEJA. “A equipe sabe que só chegamos até aqui porque jogamos com alma e coração.” Alma e coração — é o que terão as seleções de tímida presença na Copa dos exageros.
Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972

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