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Mundo

VENEZUELA – duas mulheres vão às compras na terra da escassez

A guerra econômica já não é uma teoria conspiratória na Venezuela.

A GUERRA ECONÔMICA já não é uma teoria conspiratória na Venezuela. Não se trata de uma luta da burguesia contra o povo, como tenta convencer o presidente Nicolás Maduro. A guerra é, de fato, conseguir comida. O país deve fechar o ano com uma contração de 11%, inflação de 500% e uma redução de 45% nas importações. Nos três anos de governo do presidente Nicolás Maduro, a economia sofreu uma retração de quase 25% e o PIB per capta caiu 57%. O efeito nas famílias venezuelanas vai além dos números. São necessários 19 salários mínimos para comprar os alimentos de uma família com cinco membros. A reportagem de VEJA acompanhou um dia de compras de duas venezuelanas. Sol Guerra, de 53 anos, é psicopedagoga pós-graduada e mora na região central de Caracas, no bairro pobre La Pastora. A secretária Marilin Materano, 44 anos, mora na favela de Antímano, na periferia da capital, uma das mais perigosas da região. As mulheres já não fazem lista de compras, sabem de cabeça os mantimentos que têm e compram o que conseguem, não o que gostariam.

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(Manu Quintero/VEJA)

Quem são

Marilin


Marilin é funcionária da municipalidade de Caracas, um braço da prefeitura responsável pela área de obras e serviços. A secretária trabalha todos os dias da semana entre 8h e 16h30 e só pode fazer compras aos fins de semana. No sábado, sobraram em sua geladeira um pedaço de queijo e suco de goiaba. Na dispensa, dois pacotes de farinha. Nada que acalme o estômago das duas filhas Leiberlyn, 13 anos, Kimberlyn, 26 anos e a neta Eberlyn, de três, que dependem financeiramente de Marilin e dividem a casa com ela. A família acolheu ainda Luiz Hernandez, 14 anos, filho de uma amiga que não tinha condições de cria-lo. Eles vivem na favela de Antímano, a oeste de Caracas, considerada a cidade mais violenta do mundo. São 120 homicídios por cada 100 000 habitantes (no Brasil, são menos de 60).

Sol


Sol negociou com seu chefe na escola para trabalhar mais horas ao longo da semana e ter sempre as sextas-feiras livres para a maratona das compras. Sua filha Nikay, de 20 anos, largou a faculdade de administração e tentou a vida ilegalmente nos Estados Unidos como bailarina. Sol mora no anexo da irmã Maria em um apartamento de dois quartos: o dela e o dos meninos Santiago, de 11 anos, e Gabriel, de 14. Os dois moravam debaixo de uma ponte e foram adotados pelas duas há dez anos. Os meninos são tão agradecidos que não reclamam da falta de comida e nem do excesso de normas na pequena casa. No mês passado, eles subiram no telhado e entraram na casa da vizinha para roubar comida. Sol gosta de ocupá-los ao máximo para que isso não volte a acontecer.

Marilin e Sol vão às compras

04:00

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Marilin acorda enquanto lá fora ainda se escutam os risos e a batida das músicas de Enrique Iglesias que divertem grupos de jovens do lado de fora de carros abertos, na rua. Toma meio copo de suco, esquenta água em uma chaleira para tomar banho, passa maquiagem e sai de casa.

04:30

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Marilin espera uma lotação que a leve para o pé do morro, já que não tem nenhum supermercado na favela. Durante a espera, de mais de uma hora, passam três jovens armados de pistolas e a cumprimentam. “Os motoristas também têm medo de dirigir antes do amanhecer. Por sorte, conheço esses malandros que passaram, têm a idade da minha filha”, diz.

05:48

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Marilin finalmente consegue subir em uma das kombis e em dez minutos viaja até a entrada do morro. Lá, um corpo coberto por um lençol e algumas pessoas em volta conversam sobre possíveis motivos para o assassinato. Ela segue até a estação Carapita do metrô, que tem a catraca aberta. Os funcionários não tem coragem de trabalhar nas primeiras horas do dia. Duas estações depois, chega na estação La Paz, no município La Vega, e espera o ônibus até o supermercado. Preocupada em chegar tarde na fila, decide pegar um transporte alternativo, ônibus que andam com as portas abertas e são terreno fértil para assaltos. “É muito frustrante não ter como chegar a tempo na fila do mercado”, diz.

05:55

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Sol entra no quarto dos meninos, que dormem em colchonetes no chão, e os acorda. Ela sai com os cachorros da família para o passeio matinal enquanto Gabriel prepara duas pequenas arepas (versão venezuelana das tortilhas mexicanas) que divide com o irmão no café da manhã, acompanhadas de um copo de água. Em seguida, lava a louça e limpa a cozinha antes de vestir o uniforme da escola. Entre os bilhetes que Sol deixa para os meninos, uma tabela descritiva com os gastos do mês. “Eles querem saber por que não consigo comprar o que eles gostariam de comer, por isso explico a eles”, diz Sol. A única refeição do dia é o almoço. De manhã e à noite, comem arepas e, quando conseguem, um complemento alimentar à base de leite. Na refeição principal, nem sempre há carne e é proibido repetir. Se sobrar comida, é guardada para o dia seguinte. “Quando sinto fome, fecho os olhos e tento dormir”, diz Gabriel. Os dois estão subnutridos e magros: Santiago deveria ter peso mínimo de 45 quilos e está com 32. Gabriel pesa 45 e deveria ter ao menos 57 quilos. “O mercado negro era mais acessível, mas está fora de controle. Não compro mais cereal, leite ou carne”, conta.

06:20

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Marilin desce do ônibus e, algumas quadras depois, chega ao supermercado do bairro vizinho de Montalbán. A fila começou a se formar às 4h da manhã e ninguém sabe que mercadorias conseguirá comprar a preços regulados. Moradores da região já tinham se organizado em duas filas: do lado esquerdo, dotados de um comprovante de residência, a fila preferencial para quem vive nos arredores. Do lado direito, a fila dos rezagados, os retardatários, que funciona como uma lista de espera para acessar o supermercado. Marilin, que não tem um comércio do tipo perto de casa, já sai na desvantagem. Mas ela não está sozinha: grávidas, idosos e crianças esperam em fila. Vendedores ambulantes oferecem café aos madrugadores, que conversam entre si sobre o que conseguiram e onde e, principalmente, o que esperam encontrar no supermercado.

O governo extinguiu os supermercados estatais, que vendiam produtos da cesta básica subsidiados desde 2003. Por não conseguir encher as prateleiras, esses lugares foram abandonados ou tornaram-se pontos de distribuição dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), a última modalidade de distribuição de alimentos regulados do governo criada em fevereiro. A reportagem conseguiu acesso a uma das unidades, na emblemática favela 23 de Enero, onde descansa o corpo do falecido presidente Hugo Chávez. Dentro do pequeno supermercado, apenas dois corredores de produtos cercados por uma pequena montanha de bolsas. Um freezer refrigera a carne brasileira que é distribuída aos 300 moradores que a recolhem todos os dias segundo uma ordem pré-estabelecida pelo Conselho Comunitário. Adornam o supermercado três grandes retratos: Simon Bolívar, Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Na teoria, famílias carentes teriam acesso a uma bolsa com cerca de 15 quilos de alimentos a cada 20 dias. Na prática, muitas famílias nunca receberam o benefício distribuído pelos Conselhos Comunitários em troca de algo entre 3.000 e 7.000 bolívares, dependendo do que conseguirem colocar nas bolsas. Opositores sofrem preconceito e são preteridos. Marilin recebe a cada mês e meio a bolsa, que não dura mais de alguns dias.

06:20

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Na casa de Sol, é neste horário que os meninos saem para a escola depois de pedir a bênção para Sol e seu irmão, que vive no anexo ao lado. É dele a geladeira e a televisão que usam, já que na casa de Sol estão queimados e ela não tem dinheiro para comprar novos.

07:00

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Sol sai caminhando na chuva (ela não tem guarda-chuva) em direção ao mercado, vazio. Com sorte, ele é abastecido a cada duas semanas. Na vendinha da rua, pergunta o que é que eles têm escondido e faz a primeira aquisição do dia: uma dúzia de ovos, um litro de óleo, meio quilo de queijo e duas bananas custam 12.050 bolívares no mercado paralelo, uma fortuna para o salário mínimo que recebe. “Como sei que não encontrarei nada disso nos mercados, prefiro garantir aqui, onde o dono da venda é meu amigo e por isso reserva para mim o que consegue.”

07:40

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Sol toma o ônibus e, uma hora depois, chega ao supermercado mais próximo. Ela se alegra ao ver a fila. Os rumores são de que chegou um carregamento de massa (ela não consegue comprar o produto há mais de seis meses). Com a identidade da filha em mãos, tenta se informar se o comércio vende para qualquer cidadão ou apenas para quem corresponde pela numeração do documento. Como a Guarda Nacional Bolivariana (polícia militar) não estava organizando a fila, ela consegue.

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Neste mesmo horário, Marilin decide tentar ver o que chegou ao supermercado, ainda fechado, com sua nova amiga da fila. Não conseguem enxergar pelas portas ainda fechadas. Elizabeth Hernandez completava 27 anos naquele sábado e está grávida de nove meses. Começam rumores de que venderiam papel higiênico e as mulheres ficam mais apreensivas. “Queremos comida e não papel higiênico”, diz uma delas. Às 8h15, a fila preferencial começa a andar e quinze minutos depois Marilin entra em uma nova fila que se forma no estacionamento. Às 8h45, entra no supermercado e recebe dois pacotes de papel higiênico, cada um vendido a 200 bolívares. Marilin decide comprar também duas manteigas de soja brasileiras, cada uma a 1.800 bolívares, a única disponível na prateleira, e dois pacotes de sal. A manteiga não é regulada, mas encontrá-la é uma raridade. Na fila do caixa, todos carregam o mesmo produto.

09:20

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Marilin consegue pagar a compra e sai em direção ao segundo supermercado. Pega outro ônibus, caminha mais algumas quadras. Ao chegar ao supermercado, não há qualquer sinal de fila. É um mau presságio: sem fila não há comida.

Há meses, as filas diminuíram. Não por ser mais fácil o acesso aos alimentos, pelo contrário. Não há produtos nas prateleiras, os produtos não regulados ficaram inacessíveis para a maioria e madrugar nas filas tornou-se missão de risco. Brigas, atropelamentos, tiros e assaltos não são incomuns. Em geral, os primeiros lugares das filas são ocupados por contrabandistas, que vivem de fila em fila e revendem os produtos nas ruas. Eles lançam mão de todo tipo de manobra para conseguir comprar, já que os venezuelanos só podem fazer compras dois dias da semana de acordo com o último dígito do documento de identificação: um dia na semana e um do fim de semana. É comum que busquem mercados onde a identificação biométrica não foi instalada e usem identidades de parentes, já que a biometria impede que o cidadão compre mais vezes do que poderia.

09:20

Sol entra no supermercado lotado e barulhento, recebe dois quilos de massa de um funcionário do supermercado e já vai para a fila do caixa.

09:30

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Em um alto-falante do supermercado onde está Sol, é anunciado o fim do produto. Na fila de duas horas para o caixa, consumidores abraçam seus produtos como se fosse o bem mais precioso que possuem. O preço justo, como o governo chama a tabela controlada, é de 1.500 bolívares, menos da metade do valor pago no mercado negro (3.500 em média).

09:58

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

No caminho para o terceiro supermercado, Marilin e Elizabeth param em uma barraca que vende queijos e carnes na rua. Conferem os preços e constatam que não podem se dar ao luxo da compra. Como funcionária pública, Marilin recebe 27 000 bolívares de salário e outros 42 000 em bônus de alimentação, o equivalente a 27 dólares no câmbio paralelo. No dia seguinte ao pagamento, já não sobra um único bolívar. Na compra do supermercado, gastou 4300 bolívares e não conseguiu sequer o que cozinhar no almoço. A dieta forçada fez com que todos na casa dela perdessem peso. Marilin pesava 72 quilos há dois meses e hoje não passa dos 56 quilos. Sua filha mais velha, que sofre de hipertensão e pesava mais de 120 quilos, perdeu 20 quilos no mesmo período.

10:07

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Marilin e sua nova amiga Elizabeth chegam ao terceiro mercado do dia, tampouco há fila. Dessa vez, elas nem entram para conferir e correm em direção ao ponto de ônibus. Elas foram avisadas que uma antiga fábrica de massa que se transformou em uma quadra esportiva na favela abrigaria uma venda de alimentos regulados.

10:50

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Marilin chega ao local, onde membros da Guarda Nacional organizam uma fila quilométrica. O oficial avisa que o estoque é curto e que ficar na fila seria uma perda de tempo. No galpão, Luis Porras explica que recebeu autorização do governo para importar alimentos regulados da Colômbia e vende a preços mais altos dos que os praticados nos mercados, mas competitivos em relação aos chamados bachaqueros, contrabandistas. O galpão funciona há uma semana e atendeu 1300 pessoas ao dia, mas não sabe por quanto tempo durará o estoque e aguarda instruções do governo.

Os produtos trazidos da Colômbia chegam a ser 1.200% mais caros do que os venezuelanos regulados. A farinha de trigo, que custaria 190 bolívares o quilo, é vendida a 2.500. O açúcar passa de 380 para 3000 bolívares. Ao permitir a importação, Maduro consegue encher as prateleiras de produtos mas não as dispensas nos venezuelanos, que não têm condições de comprar alimentos nestes preços.

11:35

Marilin caminha em direção ao quarto supermercado do dia, já sem esperanças. Como imaginava, não havia nada do que precisava. Depois de percorrer uma feira de vegetais em busca de vendinhas que pudessem ter um quilo de farinha ou açúcar, segue para casa onde as filhas a esperam. À tarde, já não chegam novos carregamentos e é impossível que algum item apareça nas prateleiras.

12:15

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(Alejandro Cegarra/VEJA)


Marilin
chega em casa e sua neta vibra diante do pote de margarina. O almoço será novamente uma arepa com a recém adquirida manteiga, e Marilin acordará às 4h da manhã também no domingo para tentar a sorte. “Se eu consigo fruta, não tenho dinheiro para o açúcar. Vivo trocando favores de comida com vizinhos e, de vez em quando, me rendo aos bachaqueros”, diz.

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Enquanto isso, Sol sai feliz do mercado. Como não tem dinheiro para seguir procurando alimentos e sabe que os produtos esgotam no período da manhã, ela pega o metro e um ônibus para voltar para casa e preparar o almoço dos meninos. “Gostaria de ter comprado arroz, maionese, açúcar e café. Quem sabe na semana que vem”, diz. Sol recebe mensalmente 92.000 bolívares, 30.000 em dinheiro e o restante em vale-alimentação. Em uma manhã que não conseguiu carne e outros itens básicos, gastou 18.000. “Tento dar carne para eles duas vezes na semana, frango ou salsicha, nem sempre consigo”, diz.

Sol votou em Hugo Chávez a vida inteira, mas nunca apoiou seu sucessor. “Ser opositora tem seu preço: o Conselho Comunitário não quis vender mais de uma bolsa de comida, apesar de ter as crianças em casa”, diz. Ela só recebeu o benefício uma vez desde fevereiro: três quilos de farinha, meio litro de azeite, uma aveia e uma manteiga foram comprados por 6500 bolívares e duraram cinco dias. Revoltada, Sol conseguiu participar de uma sessão na Assembleia Nacional sobre o novo sistema de distribuição de alimentos. Depois de denunciar a ineficiência, começou a ser perseguida por milícias chavistas. “Garanto que nunca mais vai receber bolsa de comida para aprender a não ser sapa (gíria para dedo-duro)”, disse uma das vizinhas que faz parte do Conselho Comunitário. No dia que antecedeu a visita de VEJA, Sol foi atacada por duas pessoas em uma moto, que apertaram seus braços e a derrubaram na calçada antes de fugir.

12:55

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(Alejandro Cegarra/VEJA)

Sol chega em casa e prepara a comida: uma xícara de massa com cebola e alho, uma couve flor, um ovo para cada um e banana frita. Sol ainda estava de jejum quando resolveu, excepcionalmente, almoçar. “Tento deixar tudo para as crianças, mas estava com tanta vontade de comer massa que não aguentei”, explica. Os meninos avisam que há pão regulado na padaria ao lado de casa, a fila dava a volta no quarteirão. Eles terminam de almoçar e vão para a fila do pão: são 200 bolívares cada pão francês regulado, feito com menos ingredientes que o normal, que sai 800 cada um. Cada familiar tem direito a comprar dois e, assim, garantem o jantar.

A casa onde Sol alimenta os meninos é do irmão, caminhoneiro, que vive no anexo ao lado. A casa dela não tem geladeira nem fogão. Sol perdeu tudo quando sua casa foi inundada e demolida. Desde então, ela vive de favor. A família tentou construir espaços separados para cada um dos irmãos no terreno onde vivem, mas a falta de cimento os obrigou a abandonar a obra. Ela se inscreveu no programa habitacional Gran Mision Viviendas, que era a menina dos olhos do ex-presidente Hugo Chávez e já distribuiu um milhão e meio de casas. Para conseguir a sua, Sol entrou em um esquema comum entre os venezuelanos: quem conhece o encarregado de alguma das obras do governo paga um montante e leva outros interessados em pagar em troca de acelerar o processo de entrega da casa. Ela pegou empréstimos para fazer o pagamento em 2011, mas o responsável pela obra na região do Forte Tiuna, onde fica o principal quartel da capital, desapareceu e ela ficou com o prejuízo, sem casa.

Depoimentos