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Uma nação de bacharéis

O país deveria investir mais na formação de tecnólogos

Por muito que a esquerda torça o nariz para o americano Frederick Winslow Taylor, o pai da administração científica, como discordar de sua afirmação de que há uma maneira melhor de fazer cada coisa e que todos devem dominá­-la? Se isso acontece nos países bem-­sucedidos, vacila nas terras tupiniquins. Nas profissões manuais qualificadas, Senai e Senac fazem um bom trabalho. Contudo, nos últimos tempos, muitos desses ofícios perderam o prestígio e, portanto, o apelo para quem teria o perfil para exercê-los. Há cura para essa rejeição, mas não é fácil.

Um degrau acima, os cursos técnicos eram uma opção pouco atraente, dada a legislação que vigeu por mais de trinta anos. Isso porque adicionavam mil horas de profissionalização ao currículo já abarrotado do ensino médio. Jovens impacientes por chegar ao mercado tinham de fazer um curso pesadíssimo. Espontaneamente, predominou a alternativa de completar o médio e depois cursar um ano profissionalizante. Era, porém, uma solução capenga. A nova legislação promete sanar o problema, mas ainda é cedo para excessivo otimismo. No mundo desenvolvido, há mais graduados que equivalem aos nossos tecnólogos do que bacharelados de quatro anos. Aqui, a proporção de tecnólogos é cerca de 10%. Nunca houve investimentos sérios para criar o casamento apropriado da teoria com a prática — voltada aos cursos curtos e que requerem ampla experiência de botar a mão na massa. Ademais, as associações de engenheiros protegem suas reservas de mercado. Por exemplo, a Petrobras não contrata tecnólogos em petróleo.

Do duplo ponto de vista da produtividade e da equidade, o Prouni e o Fies deveriam financiar apenas os tecnólogos e não os bacharelados. Considerando o que é necessário para o mercado de trabalho e o fraco nível com que se formam nossos alunos, faria muito mais sentido estimular a matrícula de tecnólogos, próximos dos mercados e com currículos mais concretos. Nossos cursos superiores têm programas difíceis e ambiciosos, copiados das universidades de elite dos grandes centros. Mas, naqueles países, a maioria dos cursos superiores oferece uma formação bem mais prática e aplicada. Nosso ensino é de quadro-negro. Máquinas? Só na fotografia do livro.

Nos Estados Unidos, modelo para nossa pós-graduação, o mestrado forma para as profissões. O nosso é acadêmico. A versão profissionalizante não passa de uma contrafação. E mais: o uso desleixado das palavras cria debates infrutíferos. “Ensino superior” é tudo o que vem depois do médio. “Universidade” denomina tanto “ensino superior” quanto aquele, necessariamente, restrito às poucas instituições capazes de gerar pesquisas sérias. No país que produz a maioria dos prêmios Nobel do mundo, os Estados Unidos, há quase 5 000 instituições de nível superior e apenas 120 universidades de pesquisa. Se falta clareza nas palavras, quantos devem estudar aqui ou acolá vira um diálogo de surdos.

Infelizmente, não seguimos o conselho de Taylor. Falhamos em todos os degraus. Somos uma nação de bacharéis.

Publicado em VEJA de 6 de março de 2019, edição nº 2624

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