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O que há por trás do fenômeno das figurinhas do WhatsApp

Depois de emoticons e emojis, as conversas no aplicativo são infestadas por outra forma de escracho virtual: as divertidas imagens customizadas

O capítulo final da novela A Dona do Pedaço mal tinha ido ao ar, na noite da sexta-feira 22, e as conversas virtuais foram invadidas por seu lance mais marcante: a cena em que Josiane, vilã interpretada por Agatha Moreira, exibia um sorriso diabólico enquanto posava de evangélica fervorosa. O Flamengo foi campeão da Libertadores e do Brasileirão? Lá veio uma enxurrada de memes alusivos ao time carioca. No vaivém de mensagens do WhatsApp, essas imagens engrossaram a galeria sem fim na qual já figuravam um Zeca Pagodinho bebendo cerveja, sátiras a políticos como o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro, além da indefectível “dancinha” do Coringa de Joaquin Phoenix. A multiplicação das figurinhas é um fenômeno que ganhou força nos últimos meses nos aplicativos de conversas. Goste-se ou não de recebê-­las no smartphone, elas emergem como um equivalente moderno da arte rupestre: assim como os desenhos dos homens das cavernas, são uma forma de comunicação intuitiva — e infalível.

A proliferação das figurinhas expõe uma verdade inescapável: símbolos visuais são tudo nas conversações on­-line. O reinado de seus precursores, os emoticons e emojis, se confunde com o advento de ferramentas como o Telegram ou o WhatsApp. Os puristas da linguagem escrita podem torcer o nariz à vontade: a verdade é que aqueles símbolos, que vão desde uma carinha sorridente até um sinal indecoroso com o polegar, desempenham uma função relevante na comunicação. Sua vantagem maior é permitir economia de tempo e espaço: por meio de um desenho singelo, às vezes é possível transmitir mensagens que exigiriam textos longos e elaborados.

Segundo relatório divulgado em julho pela Adobe for World Emoji Day, 83% dos jovens usuários de smartphone sentem-se mais confortáveis em compartilhar emoções por meio de emojis do que por palavras. As carinhas amarelas viraram parte do universo pop. Katy Perry, ainda em 2013, lançou o lyric video da música Roar com emojis como legenda. Kim Kardashian criou emojis de si própria para os fãs. As carinhas já reclamam até status de arte: o projeto The Emoji Art Show promove exposições pelos Estados Unidos com obras inspiradas nos famigerados ícones. “Quero que os artistas sejam livres para explorar todas as possibilidades. O Emoji Art Show usa um elemento da cultura popular com o qual todos somos familiarizados para levantar discussões sobre nosso estado mental”, divaga Joshua Dingle, fundador do festival.

As figurinhas — ou stickers, em inglês — impuseram-se como extensões inevitáveis das manjadas carinhas. “A linguagem é viva. E me parece claro que, nesse sentido, os stickers são uma evolução dos emojis”, pondera a linguista Vera Menezes, da Universidade Federal de Minas Gerais. Se os emojis servem para sintetizar emoções, as figurinhas têm o papel de emitir comentários e opiniões dentro das conversas. E o escracho ocupa aí um lugar central. “As figurinhas adicionam um elemento satírico a imagens já bastante familiares às pessoas”, diz a especialista. Do cachorrinho de cara esquisita a expressões insólitas de celebridades como Gretchen ou Fátima Bernardes, vale tudo na hora de postar uma bobagem em formato de “micromeme” no grupo de amigos no “zap”.

Mas engana-se quem pensa que o fenômeno surgiu no WhatsApp. É fato que os stickers caíram no gosto do público ao ser incorporados pelo aplicativo, no fim de 2018. Mas o pioneiro da tecnologia foi o rival Telegram, que disponibiliza pacotes temáticos para download e — ao contrário do app de Mark Zuckerberg — permite a criação das figurinhas customizadas dentro da plataforma. Aos usuários do Whats­App, uma alternativa é baixar aplicativos como o Sticker.ly, que oferece uma gama de opções para down­load, além da possibilidade de criar avatares a partir de suas fotos. De acordo com um levantamento do Sticker.ly, as mais populares são de conteúdo humorístico e relacionadas ao amor, como cantadas e corações. As figurinhas se transmutam, mas o ser humano continua igualzinho.

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663