O amor nos tempos do ‘sugar’

Nos “relacionamentos açucarados”, o dinheiro é o protagonista: um parceiro, em geral mais velho, banca as despesas do outro, jovem

Por Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 20 set 2019, 10h07 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

Entre as várias tramas paralelas que sustentam o enredo de A Dona do Pedaço, novela de Walcyr Carrasco, colunista de VEJA, exibida pela Rede Globo no horário nobre do gênero, às 21 horas, um casal tem chamado atenção. Otávio, um ricaço com ares de setentão, vivido na tela por José de Abreu, se diz apaixonado pela mulher, Beatriz (Natália do Vale), mas mantém um meloso relacionamento com a lolita Sabrina (Carol Garcia), ex-garota de programa. A cada cena, é sugar daddy para lá (é ele), sugar baby para cá (é ela). Sócio de uma construtura, o empresário alugou um flat para a moça e paga todas as suas contas. São felizes assim, à sua maneira — até o próximo capítulo.

A história de Otávio e Sabrina está servindo para popularizar a nova moldura que contorna um antigo modelo de relacionamento, no qual alguém, normalmente com boa situação financeira, banca uma pessoa, quase sempre bem mais jovem, em troca de uma convivência que pode levar a um envolvimento íntimo, sexual. “Nos romances do século XIX era muito comum a figura do protetor, que agora simplesmente mudou de nome, com posturas contemporâneas”, disse Carrasco, o autor do folhetim global, a VEJA.

A moda de que se está falando desembarcou no Brasil em 2015, vinda dos Estados Unidos, onde brotou no início dos anos 2000 — daí o uso dos termos em inglês. Em um relacionamento sugar (açúçar, naquele idioma), há um daddy (papai) ou uma mommy (mamãe), homem ou mulher que têm condições de financiar um(a) baby (bebê), rapaz ou moça em busca justamente de quem lhe propicie conforto material.

“PAPAI” – O empresário Noor: em busca de “uma mulher interessante”

“PAPAI” – O empresário Noor: em busca de “uma mulher interessante” Jonne Roriz/.

Como acontece com outras tendências comportamentais da atualidade, o “fenômeno sugar” se propaga pela internet — por meio de sites de relacionamento, entre eles o Meu Patrocínio, líder no Brasil em tal modalidade, com mais de 2 milhões de pessoas cadastradas. Nele e em outras plataformas, como a Universo Sugar, os interessados expõem sua disposição para entrar em uma relação que, sem eufemismos, será pautada pelo dinheiro. Não provocaria nenhuma estranheza se, diante desse quadro, a primeira ideia que viesse à mente fosse prostituição. No caso dos “relacionamentos açucarados”, porém, não é disso que se trata.

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Tome-se o exemplo do empresário Arif Noor, de 56 anos, ugandense que vive em São Paulo. Cadastrado há dois meses no Meu Patrocínio, o sugar daddy conta que até agora não se relacionou intimamente com nenhuma moça do site. Contudo, por meio da plataforma conheceu a manauense Luciele Pimentel, de 28 anos, a sugar baby que se tornou sua parceira… de negócios! “Saímos para um encontro e acabamos fechando um trabalho. Ambos vimos uma oportunidade para empreender juntos no ramo da moda”, relata Noor. “Ainda estou em busca de uma mulher interessante para uma relação romântica”, diz ele. Luciele, por sua vez, afirma que atingiu seu objetivo. “Deixei o Meu Patrocínio porque encontrei o que buscava. Literalmente um patrocínio para ajudar a alavancar minha carreira como estilista”, comemora.

‘‘MAMÃE’’ – Marisa Araújo: “Se eu fosse homem, não me questionariam”

‘‘MAMÃE’’ – Marisa Araújo: “Se eu fosse homem, não me questionariam” Mirian Fichtner/Pluf Fotografias/.

Inscrita na plataforma há três anos, a produtora paulistana Fernanda Rizzi, de 38, narra que, depois de várias frustrações amorosas — e de uma relação que chegou a prejudicá-­la financeiramente —, decidiu mergulhar no universo sugar, no qual o dinheiro já faria mesmo parte do jogo. “Nunca fiz sexo em troca de pagamento. Ganhei mimos, como viagens, sapatos, bolsas. Hoje meu daddy mora na França e me ajuda com um curso de francês”, explica ela.

Fora do modelo convencional, a empresária carioca Marisa Araújo, de 57 anos, se tornou uma rara sugar mommy. Casada por 24 anos, separada há cinco, com dois filhos, ela diz que não quer outra relação conjugal estável. “Sou livre. Se fosse um homem no meu lugar, nem me perguntariam sobre pagar contas para alguém mais jovem”, provoca.

Para Jennifer Lobo, empreendedora americana radicada no Rio, onde fundou o Meu Patrocínio, há quatro anos, a proposta do movimento no qual figura como uma das líderes é promover relacionamentos transparentes. “As pessoas não falam sobre dinheiro. O tema é tabu. Entretanto, a partir do momento em que um casal entra em acordo nesse tópico, tudo se torna mais honesto”, esclarece ela. “De um lado, dos daddies e das mommies, temos pessoas ricas que buscam jovens lindos. De outro, meninas e meninos que procuram conforto. Mas todos, no fim, precisam de afinidade para a relação se sustentar”, avalia Jennifer.

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“BEBÊ” – A produtora Fernanda Rizzi: curso de francês pago pelo ‘daddy’

“BEBÊ” – A produtora Fernanda Rizzi: curso de francês pago pelo ‘daddy’ Jonne Roriz/.

Embora não tenham a prostituição como base das relações que intermedeiam, os sites sugar recebem denúncias de propostas assim. A ordem, nessas situações, é banir os desrespeitosos. “Não queremos esse tipo de ambiente na plataforma”, garante Jennifer. Segundo a baby paulistana Eduarda Park, de 24 anos, cadastrada no Meu Patrocínio e no Universo Sugar, as ofertas de programa oscilam entre 400 e 2 000 reais. “Normalmente elas são feitas por homens casados”, destaca Eduarda. Para se prevenirem, as babies criaram grupos, no Facebook e no WhatsApp, nos quais trocam informações sobre os homens. Eles, os daddies, descobriu Eduarda, também têm seus grupos — para compartilhar nudes das babies. De todo modo, conforme explica Renato Opice Blum, advogado especialista em tecnologia, os sites não poderiam ser responsabilizados em caso de exploração sexual: “Os apps estimulam o encontro, não a prostituição”.

Na opinião da sexóloga Marina Simas, sócia-diretora do Instituto do Casal, de São Paulo, o acordo firmado nos relacionamentos sugar pode ser até bom a curto prazo, “no entanto, há dúvidas quanto à sua durabilidade”, pontua. “No primeiro momento, um é dependente do outro e há relação de poder. O que acontecerá quando a baby quiser autonomia ou quando envelhecer?” Para Marina, o relacionamento sugar tradicional, entre o homem mais velho e a mulher mais nova, seria ainda resquício da sociedade patriarcal. “A plataforma amplifica o modo como vivemos na cultura machista”, acredita a especialista.

Em dias de “modernidade líquida” — para usar a expressão consagrada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) —, com o mundo “propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”, a fragilidade dos laços humanos salta à vista. O próprio amor é líquido — como se deduz do amor nos tempos do sugar.

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Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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