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Não tenho Spotify

Nascido na periferia e aluno bolsista, Guido Sant’anna, de 13 anos, é o mais promissor violinista do país

Sou o caçula de três filhos de um casal do bairro de Parelheiros, na periferia de São Paulo. Apesar de eu ter nascido em uma família humilde, com mãe dona de casa e pai funcionário público, a música sempre fez parte de nossa vida. Minha avó materna tocava piano, e ensinou o instrumento à minha mãe. Essa tradição foi passada adiante. Minha mãe fez questão de que os filhos também aprendessem arte. Meu irmão mais velho estudou violino em uma escola de bairro. Devo a ele meu primeiro contato com o instrumento. Mas houve um problema, digamos assim: só pude começar a tocar aos 5 anos. Antes disso meu braço não tinha tamanho para segurar o violino. Vendo meu olho brilhar, meu avô materno negociou um modelo usado e me deu de presente. Como não havia dinheiro para me pôr em escola de música, e para ter bolsa eu precisaria ser um pouco mais velho, minha mãe decidiu aprender violino para me ensinar os primeiros acordes em casa. Mais tarde, integrei uma orquestra pequena de bairro. Nessa época, fomos chamados para ­gravar uma cena da novela Carrossel, do SBT. No estúdio do canal, o maestro Júlio Medaglia conheceu meu trabalho e me convidou para fazer um concerto na Sala São Paulo. Toquei com artistas que tinham de carreira mais tempo que eu tinha de vida. Aos 9 anos, fui aprovado no programa de bolsas do Instituto Cultura Artística. Além das três horas diárias de prática no meu quarto, comecei a ter aulas particulares com a professora Elisa Fukuda. No ano passado, fui o primeiro sul-americano a ser selecionado para o prestigiado Menuhin Competition, um dos principais concursos de violino do mundo para músicos de até 22 anos, e também participei do Perlman Music Program, em Nova York, voltado para jovens de raro talento. Fiquei sete semanas estudando na cidade. Agora em 2019, fui convidado para um novo curso de verão. Não tem segredo: é preciso estudar, treinar e repetir muitas vezes para chegar aonde queremos.

Isso vale para tudo. Há quatro anos, fui aprovado no sistema de bolsas da escola americana Graded (mensalidade média de 9 000 reais), localizada no bairro do Morumbi. Como o colégio é bastante exigente, primeiro passei em uma pré-seleção. Tive de estudar inglês dentro da Graded todos os dias, por um ano. Meu pai me pegava na escola pública, e eu almoçava uma marmita dentro do carro. Avaliaram minhas habilidades, meu desempenho acadêmico. Uma vez aprovado, levava de duas a três horas entre trem e ônibus até a escola. Chegava esgotado do colégio, sem forças para estudar violino ou fazer qualquer atividade. Por causa disso, meus patronos de violino decidiram alugar uma casa mais próxima para eu morar e poder conciliar o estudo formal com a música. Agora, fico a apenas uma hora de distância da escola.

O estudo, seja de arte, seja o normal, tem me mostrado o mundo. Já participei de concertos em países como Rússia, Espanha, Bélgica e Suíça. Meus dois irmãos também estudaram em colégios como bolsistas e ambos foram aprovados em vestibulares de faculdades públicas. Meus pais sempre foram rigorosos com a questão da educação. Nós três lemos todos os livros da biblioteca pública de Parelheiros. Quando estou de folga em casa, gosto de ver apresentações de orquestras pelo YouTube. Eu mesmo abri um canal no YouTube, no qual postei um vídeo em que apareço deitado na cama tocando violino enquanto um spinner gira em cima do meu nariz. Sou fã de Franz Schubert, Johannes Brahms e Frédéric Chopin. Não tenho Spotify em meu celular. Só fui ao cinema uma vez na vida para assistir a Star Wars VII, em 2015, e para falar a verdade eu não gostei muito. De música nacional, aprecio Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos. Não curto Anitta, forró nem sertanejo.

Depoimento dado a João Batista Jr.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2019, edição nº 2637

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