Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Mark Manson: ‘A positividade é superestimada’

Americano é autor do best-seller ‘A Sutil Arte de Ligar o F*da-se’, que tenta desmontar os clichês do gênero autoajuda – ao qual pertence

Há dez semanas na lista de livros de autoajuda e esoterismo mais vendidos de VEJA, A Sutil Arte de Ligar o F*da-se (Intrínseca) tenta fugir dos cacoetes do gênero. No lugar da positividade, prega o realismo, e, em vez de exaltar a vitória, ressalta a importância do fracasso. O objetivo final, porém, é o mesmo de outros títulos do filão: entender os mecanismos do sucesso e da felicidade e descobrir como se chega lá. Em entrevista a VEJA, o autor Mark Manson, de 34 anos, explica qual pensa ser o maior defeito no campo emocional e dá sua opinião sobre um comentário na internet que classificou seu livro como “budismo disfarçado para millennials”.

Veja também

O americano também fala sobre a carta que escreveu ao povo brasileiro que viralizou em 2016, quando ele morava por aqui – sua mulher é paulista – e o país estava no meio do processo de impeachment de Dilma Rousseff. No texto, Manson afirma, entre outros pontos, que o problema do Brasil não era só a então presidente ou o Partido dos Trabalhadores, mas sim o famoso “jeitinho brasileiro”. Elogiado e criticado pelo desabafo, o escritor diz que até entende quem argumenta que o passado colonial ainda influencia o Brasil de hoje. “Mas isso é uma explicação, não uma justificativa”, diz.

Leia a seguir um trecho da entrevista de Mark Manson, feita durante sua passagem pelo país para a divulgação do livro:

 

No livro, você diz que o nosso foco em positividade é uma lembrança do que ainda queremos conquistar. É um problema tentar ver a vida com positividade, então? A positividade é superestimada, ela amplifica aquilo que falta na gente ou o que desejamos ser. É melhor ser honesto sobre seus problemas e defeitos do que tentar se sentir bem o tempo todo.

Qual o maior defeito no campo emocional? Não assumir responsabilidades. Está cada vez mais fácil culpar os outros pelos seus problemas. Mas a verdade é que cada um é responsável pela forma como reage às situações. Ninguém pode viver sua vida por você.

Por que diz que responsabilizar os outros está ficando mais fácil? Antes, isso acontecia em uma escala menor. Se tinha um problema com a minha família, em vez de resolver, eu ficava por aí reclamando e culpando a todos por isso. Esse tipo de coisa ainda acontece, mas agora, como temos acesso a mais pessoas e mais grupos por causa da internet, estamos empurrando a culpa para mais pessoas, partidos políticos, grupos étnicos, empresas.

Um comentário sobre o seu livro na internet diz que ele é “budismo disfarçado para millennials”. Você concorda com essa visão? (Risos) Não discordo. O budismo me influenciou bastante, apesar de não me considerar budista. Sempre me interessei por isso, li muito e pratiquei um pouco, mas não gosto de me autodeclarar desta ou daquela religião. As ideias do budismo de não se apegar foram muito valiosas para me fazer avaliar o que era bom na minha vida e o que não era. Budistas também têm um bom entendimento sobre conflito e problemas.

Você viveu no Brasil por um tempo. O que você viu aqui que fez com que você escrevesse aquela carta aos brasileiros? Honestamente, sinto que eu nem escrevi aquela carta. Naquela época, durante a crise econômica e política do Brasil, as coisas estavam ruins para muita gente. As minhas conversas com meus amigos brasileiros eram sobre a situação brasileira, a política, a economia, corrupção. Quase todos me disseram o que está naquela carta, que o problema é a cultura, a mentalidade. Eu fiquei muito frustrado vivendo no Brasil naquela época e mencionei para os meus amigos que estava pensando em escrever uma carta para meus leitores brasileiros. Eles ficaram muito animados, me encorajaram. Eu concordo com tudo o que está na carta, mas nenhuma das ideias é originalmente minha.

Como foi a reação à sua carta? Você foi criticado, elogiado? Teve de tudo, mas a reação ou foi muito positiva ou muito negativa, não teve ninguém que ficou no meio-termo. Entendo algumas das críticas que dizem que eu não tenho conhecimento o suficiente em história e política do Brasil para dizer algumas coisas, mas, sabe, é uma opinião.

As respostas negativas fizeram com que você mudasse de ideia sobre algo? Na verdade, não (risos). A maior parte das respostas negativas não discordava da carta, mas tentava explicar as coisas, dizendo que o Brasil tinha um longo histórico de colonialismo, que Portugal acabou com o Brasil. Eu entendo, mas isso é uma explicação, não uma justificativa. Esse histórico explica, mas não muda nada. Ainda considero que há um problema cultural que precisa ser resolvido.

Assine agora o site para ler a primeira parte desta entrevista e tenha acesso a todas as edições de VEJA:

Ou adquira a edição desta semana para iOS e Android.
Aproveite: todas as edições de VEJA Digital por 1 mês grátis no Go Read.