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O discreto regente Kirill Petrenko encanta o universo erudito

Na Filarmônica de Berlim, o russo professa a filosofia de que a música é mais importante que o ego

Por Sérgio Martins - Atualizado em 14 fev 2020, 10h43 - Publicado em 14 fev 2020, 06h00

Kirill Petrenko odeia dar entrevistas. “O pódio é minha melhor forma de expressão”, justifica o russo de 48 anos, o atual comandante da espetacular Filarmônica de Berlim. Tal declaração seria encarada como esnobismo em outros tempos. No caso de Petrenko, porém, ela faz todo o sentido. Os melhores diálogos dele não são falados, mas musicais: é da intensa labuta com a orquestra e do estudo obsessivo das partituras que Petrenko extrai novas roupagens para repertórios há décadas imutáveis. “Devo ter participado de umas 99 récitas da Nona Sinfonia de Beethoven. Foi a primeira vez em muitos anos que caiu uma lágrima de emoção”, disse um violista sobre a noite de estreia do novo regente, em agosto de 2019.

Desde sua ascensão ao posto máximo do maior grupo sinfônico do mundo, Petrenko tem se revelado um maestro com a cara dos tempos atuais. Se a Filarmônica de Berlim é a orquestra das orquestras, a sucessão das personalidades em seu comando acaba sendo um reflexo de mudanças mais amplas na música e no planeta ao longo das décadas. O conjunto, que já teve à frente tiranos da estirpe de um Herbert von Karajan (entre 1956 e 1989), agora opta por um líder de postura democrática. Petrenko é obcecado pela sonoridade, mas não impõe suas ideias pela via ditatorial. Não gosta de aparecer e faz questão de eliminar a distância entre o maestro e os músicos: paga-lhes até jantares.

Sua discrição é raridade num universo em que maestros sempre opinaram, do futebol à política, e em que a assiduidade nas redes sociais hoje é tão importante quanto estudar Bach e Beethoven. Nascido em Omsk, na Sibéria, ele se encantou com a regência aos 4 anos. O pai, primeiro violinista da orquestra local, o levou a um ensaio, e o jovem adorou os movimentos do maestro. Petrenko tinha 18 anos quando sua família se mudou para Viena. Ali, completou seus estudos de música. Em 1995, debutou como regente, comandando casas de ópera de pequeno porte — mas não demorou a se transferir para associações mais importantes, como a Ópera Estatal da Bavária. Duas décadas depois de sua estreia no pódio, foi convidado a reger a Filarmônica de Berlim, que estava então à procura de um substituto de Simon Rattle. Foi uma disputa acirrada, que durou meses e tinha concorrentes celebrados como o alemão Christian Thielemann e o letão Andris Nelsons. Mas a orquestra, a única no mundo que escolhe o próprio regente titular, optou por Petrenko.

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Há outro simbolismo na escolha: ele é o primeiro judeu a assumir a orquestra, que tem uma incômoda relação com o nazismo. A Filarmônica de Berlim era vitrine musical do regime de Hitler, e havia agentes do Reich infiltrados em meio aos instrumentistas. Dois diretores, Wilhelm Furtwängler e Herbert von Karajan, foram adotados pelo governo de Hitler. Karajan chegou a se filiar ao Partido Nazista duas vezes. Quando o nome de Petrenko foi anunciado, uma jornalista alemã — entusiasta de Thielemann — comparou o russo aos anões deformados das óperas de Richard Wagner. O caso reforçou a aversão do novo maestro aos veículos de imprensa.

Perfeccionista, Petrenko é dotado de autocrítica tão severa que pode levar músicos e executivos à loucura. Recentemente, a Filarmônica de Berlim teve de suplicar para que ele aceitasse lançar um CD com a Sexta Sinfonia de Tchaikovsky — que certamente vai figurar entre as gravações definitivas da obra. Para a Nona Sinfonia de Beethoven, Petrenko estudou as anotações originais do mestre e entabulou uma conversa filosófica com os músicos. A orquestra, a princípio, se entediou. Mas, depois do concerto, passou a amar ainda mais seu novo batuta.

DA DITADURA À DEMOCRACIA

As mudanças de estilo dos maestros da Filarmônica de Berlim ao longo das décadas

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O TIRANO

Henry Clarke/Conde Nast/Getty Images

Herbert von Karajan
Período: 1956 a 1989

O austríaco fez da orquestra alemã uma potência: as gravações eram sucesso de vendas, e a filarmônica ganhou o epíteto de “maior do mundo”. Mas era um tipo de maus bofes, com estilo autoritário e brigas infindáveis com os músicos


O BONZINHO

Rabau/Ullstein Bild//Getty Images

Claudio Abbado
Período: 1990 a 2002

Boa-praça, pedia aos músicos que o chamassem de “Claudio” e nunca foi dado a acessos de fúria. Mas a timidez foi sua maior inimiga: os ‘berliners’ achavam seus ensaios tão tediosos que liam revistas durante as instruções do regente

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O DEMOCRATA

Jeff Spicer/Getty Images

Simon Rattle
Período: 2002 a 2018

O inglês criou as bases para a regência do século XXI. Tratava os músicos em pé de igualdade e brigou para que tivessem aumento salarial. Integrou a orquestra à comunidade, organizando récitas com a atuação de jovens carentes


O DISCRETO

Gordon Welters/The New York Times/Fotoarena

Kirill Petrenko
Período: desde 2019

Judeu de ascendência russa, Petrenko é um perfeccionista capaz de repetir doze vezes passagens de uma sinfonia. Além de ter estilo cerebral, é desprovido da vaidade de Karajan ou de Rattle — e detesta dar entrevistas

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Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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Kirill Petrenko Conducts Josef Suk

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