Fernanda Montenegro: “Tudo é pecado”

Com quase 90 anos e um livro de memórias recém-lançado, a atriz fala das dificuldades do envelhecimento e reflete sobre o descaso com a cultura

Por Fernanda Thedim - Atualizado em 20 set 2019, 09h26 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

Qual a principal lição que a senhora tira da sua história? Sobreviver diante de qualquer situação sem se acovardar. Precisamos lutar pelos nossos ideais. É claro que isso pode causar sofrimento, mas nada é eterno. Nem o melhor nem o pior. Cada dia com a sua agonia.

Qual é a pior parte de envelhecer? Ver a que ponto chegou a nossa política. Eu sou dos anos 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90… Nas muitas décadas da minha vida sempre havia uma esperança em cima do próximo momento, de determinados políticos, de alguma ideologia que nos faria ir em frente, otimistas. Isso acabou. Estamos em um mato sem cachorro.

Por que chegamos a esse ponto? Acredito que a decomposição política no Brasil se deu a partir da liberação da reeleição presidencial. O presidente assume o poder já pensando nisso. Os governantes trabalham pelo próximo mandato, estatizando a corrupção e acabando com as ideologias. A direita não é mais direita, a esquerda não é mais esquerda.

Como a senhora vê a situação da cultura no atual governo? É como se a arte tivesse virado um processo pornográfico, contaminado pela perversão. Tudo é pecado, a não ser que se faça algo relativo à vida de Cristo ou ao Antigo Testamento. O problema é que, sem cultura, um país fica sem personalidade.

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Teme que a censura volte? A censura já voltou, só não está sedimentada. Ainda. Minha geração passou por isso e nunca poderia imaginar que, a esta altu­ra da vida, voltaria a ter essa sensação de cerceamento existencial. Mas há algo de positivo aí: a resistência. Estamos gritando, nos posicionando. Vamos sobreviver.

O que diria ao presidente Bolsonaro, caso encontrasse com ele? De dia, diria bom-dia. De noite, boa-noite.

Qual seu conselho para os novatos na carreira? Se não tiverem muita certeza, desistam. Essa profissão é difícil.

A senhora convive bem com a tecnologia? Não convivo. Eu ligo para as pessoas, só que elas não me atendem. Agora só se fala por mensagem.

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A ideia da morte assusta? Sim. Ela é inevitável, eu sei, mas também é apavorante. É sair do mundo conhecido, onde aprendemos a sobreviver, sem saber o que tem do outro lado. Pode ser que lá esteja pior do que aqui.

 

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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