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De uma orquestra de jovens carentes a solista do Cirque du Soleil

Leia o depoimento de Larissa Finocchiaro, 30 anos: 'A arte é uma profissão'

Meu contato com a música começou cedo, dentro de casa. Meu pai tocava violão, minha mãe cantava, cresci embalada por ritmos da música brasileira. A chance de estu­dar formalmente aconteceu quando eu tinha 15 anos. Minha mãe descobriu o Projeto Guri, o programa de educação musical gratuito da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo — uma grande oportunidade, já que não teríamos condições de bancar um curso particular. Participei do projeto entre 2004 e 2006. Ali, aprendi a ler partitura, a tocar violino e violoncelo e a cantar, o que me levou à orques­tra e ao coro do programa. Entrei em contato com a música clássica. Expandi minha escuta e o jeito de apreciar os detalhes de uma melodia. A experiência humana também foi gratificante. Conheci pessoas de diferentes lugares e vivências. Fiz amigos, e com três deles montei um grupo vocal, o Karallargá. Para arrecadarmos verba e gravarmos um disco, realizamos diversos shows em saraus e bares, além de apresentações no Sesc. Enquanto isso, em paralelo, estudei psicologia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Mas a música falou mais alto e continuei me aperfeiçoando. No ano passado, formei-me na minha segunda faculdade, de educação musical, na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), que cursei em paralelo ao Conservatório de Tatuí, outra instituição pública. A realidade do artista independente é essa. Como muitos, nunca tive patrocínio ou investimento externo. Foram anos nessa caminhada, mas consegui realizar o sonho de gravar um disco com meu grupo e até um CD-solo, o Carta ao XXI.

O Cirque du Soleil surgiu com a sugestão de uma amiga. Ela me avisou que a trupe circense estava realizando audições a distância para um espetáculo. Entrei em contato para participar da seleção. Eles buscavam uma cantora do Brasil, porque o espetáculo Ovo tem uma veia nacional bem forte — ele é coreografado pela brasileira Deborah Colker e traz em seu repertório ritmos do país, como o forró e a bossa nova. Enviei um vídeo e fui selecionada. Passei por uma preparação de três semanas no Canadá e, em março deste ano, entramos em turnê pelo Brasil. Neste momento estamos rodando a América Latina com o espetáculo e em seguida iremos para os Estados Unidos. Há outros brasileiros no elenco, e isso cria certo acolhimento. Mas são mais de dezesseis nacionalidades, o que nos coloca em um contato íntimo com outras culturas. Fazer uma turnê desse tamanho é uma experiência enriquecedora e de grande aprendizado. Mas ficar longe de casa não é tão simples. A saudade é enorme. Mudamos de cidade a cada quinze dias. Vivemos em hotéis. Sentimos falta de muita coisa: da família, de amigos e de parceiros — até da comida.

É triste ver como ainda existe um preconceito em relação à arte como profissão. Minha família passou anos preocupada, pedindo que eu prestasse um concurso público ou tentasse um emprego mais estável. O pior é a visão deturpada que vem diretamente de governantes, que não enxergam na cultura algo que mereça investimento. Vemos hoje um sucateamento da arte no nosso país. O Projeto Guri, por exemplo, fechou as portas em vários lugares — em São Bernardo, onde estudei, inclusive. Dei aulas de canto em projetos sociais e sei como é positivo o impacto da arte entre os jovens de realidades carentes.

O brasileiro precisa saber que a cultura é parte importante da formação humana e do desenvolvimento de uma sociedade. E também é um trabalho, uma profissão, que gera empregos, movimenta a economia. Para meus antigos alunos, sirvo de referência como alguém que conseguiu trabalhar com a música. É gratificante. Mas ainda existe um longo caminho pela frente a ser seguido.

Depoimento dado a Amanda Capuano

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657