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Cobra criada

Na última temporada de 'House of Cards', já não há Kevin Spacey. Mas a falta de Frank Underwood é compensada pelo show final da presidente Claire

Sozinha na Casa Branca, Claire Underwood (Robin Wright) acaricia uma bandeira dos Estados Unidos enquanto o celular toca sem parar. Do outro lado da linha está o marido, Frank Underwood (Kevin Spacey). O caviloso presidente americano renunciara na esteira de mais um escândalo; o posto que ocupava, assim, ficou livre para uma vice sedenta de poder — a própria Claire. Na segunda tentativa de ligação, a esposa enfim tasca um “não aceitar” na tela do smartphone. Encarando o espectador, a primeira mulher na Presidência americana informa: “Minha vez”.

A cena final da quinta temporada de House of Cards deu uma mão fenomenal aos roteiristas na tarefa de improvisar o último suspiro da série. A sexta leva de episódios, já disponível na Netflix, não conta com o ator Kevin Spacey, cuja carreira foi abatida por uma sucessão de escândalos de assédio sexual. Nas mais diferentes produções televisivas — de novelas brasileiras a soap operas americanas —, gambiarras foram sacadas para driblar imprevistos assim. Nos anos 80, uma temporada malsucedida da série Dallas acabou anulada sob a desculpa de que tudo que tinha acontecido nela fora mero sonho de um personagem. No caso de House of Cards, o fato de Claire já ter assumido a Presidência na temporada anterior facilitou — e como — a verossimilhança da operação.

No ano passado, quando a gravação da nova temporada se iniciava, os trabalhos foram suspensos pela demissão de Spacey (entre os jovens rapazes que denunciaram avanços do ator incluíam-se profissionais da série). Foi Robin Wright quem liderou a pressão para que a Netflix não acabasse com seu primeiro sucesso original. Ao brigar pela sobrevida da série, alegou proteger 2 000 empregos gerados por House of Cards.

A temporada feita pela e para a nova chefona exala algum cansaço, como já ficara patente na anterior. Não decepcionará, contudo, os fãs de seus tipos matreiros e situações mirabolantes. Claire é capaz de negociar um tratado com o líder russo Vladimir Putin, ops, Viktor Petrov (Lars Mikkelsen) no cantinho de um velório. House of Cards tornou-se um novelão político sem pudor — e o êxito de séries como a inglesa Segurança em Jogo prova que fez escola.

Embora extinga os duetos e duelos dos dois protagonistas, a ausência de Frank Underwood traz a chance de examinar com lupa a anti-heroína peculiar que é Claire Underwood. Depois da morte do marido, sua presença incorpórea acossa Claire. No começo do governo, ela lida com as consequências de um acordo nada republicano feito entre Frank Underwood e os irmãos magnatas Annette e Bill Shepherd (Diane Lane e Greg Kinnear). A sombra do morto a fustiga, ainda, em sua excruciante missão central: mesmo a loira muito bem aquinhoada de peçonhas penará para provar que uma mulher tem estâmina para presidir os Estados Unidos.

House of Cards se encaminha para um final feminista. Mas não há que temer chateações: debaixo das medonhas contradições da personagem, talvez haja mais realismo que em tantas feministas idealizadas da TV ou do cinema. Claire é fria e perigosa como uma Lady Macbeth, mas, não à toa, abraça a defesa da mulher e outras causas nobres: ela é um monstro adaptado ao hábitat dito “progressista”. Em dado momento, supostamente deprimida, Claire isola-se e enfrenta uma conspiração. “Não se preocupem. Eu tenho um plano”, diz. Quiçá todo presidente também tivesse o seu.


Nasce mais um novelão político

CONSPIRATA –  Segurança em Jogo: sexo, intrigas e guerra burocrática

CONSPIRATA –  Segurança em Jogo: sexo, intrigas e guerra burocrática (World Productions/Netflix)

Lançada na Inglaterra em agosto e disponível há duas semanas na Netflix, a série Segurança em Jogo (no original, Bodyguard) renova um nicho narrativo explorado com êxito por House of Cards: o novelão político feito de sexo e intrigas conspiratórias. A série de maior audiência da rede BBC em dez anos tem como protagonista David Budd (Richard Madden, o Robb Stark de Game of Thrones), um policial e veterano da guerra do Afeganistão que luta contra o stress pós-traumático. Ao evitar que uma mulher-bomba muçulmana realize um atentado suicida em um trem no qual viaja com o casal de filhos pequenos, Budd torna-se herói nacional. É promovido a guarda-costas da ministra do Interior inglesa, Julia Montague (Keeley Hawes), política durona que lidera uma cruzada contra o terrorismo. Sua principal bandeira — uma lei que permitiria ao governo britânico bisbilhotar a intimidade de qualquer um na internet — transformará a ministra em alvo. Segurança em Jogo deságua na mistura incontornável de pulsão romântica e tramoias político-­militares. Com aversão pelas ideias, mas nem tanto pelos dotes de sua protegida na cama, o policial acaba se envolvendo em uma trama perigosa. Mas é de outra matéria-­prima comum a House of Cards que a série extrai seu valor. Assim como acontece no drama sobre a Presidência americana (por sinal, inspirado em um similar inglês), a história da poderosa ministra e seu guarda-costas atormentado oferece um retrato do ambiente de politicagem e rasteiras no interior do aparato burocrático estatal. A luta aparente é contra o terrorismo islâmico. Mas, na prática, o inimigo mora na repartição pública bem ao lado. É a polícia de Londres que não quer abrir mão de sua influência, ou os figurões elusivos do serviço secreto buscando aumentar seu naco de poder e recursos. Da política ao crime organizado, os desdobramentos dessa guerra revelam-se saborosamente intrincados. Ainda que, no fundo, tudo seja tão mirabolante quanto uma novela das 9.

Publicado em VEJA de 7 de novembro de 2018, edição nº 2607