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A ascensão de Baco Exu do Blues: ‘A arte me salvou’

Quem é Diogo Moncorvo, o rapper de 23 anos que tem esgotado ingressos por onde passa com a turnê 'Bluesman'

Por Jana Sampaio - Atualizado em 27 mar 2019, 15h38 - Publicado em 27 mar 2019, 13h43

Dentro da lona, uma roda se abriu. No centro do furacão humano, uma mulher canta os versos “Virei imortal ao aceitar minha pele é prata”. Em coro, o público acompanha e vibra com o dueto da música Preto e Prata formado entre a fã anônima e a atração principal da noite, o rapper Baco Exu do Blues. O encontro foi um dos pontos altos do show no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no último dia 16. O lugar escolhido foi palco também da estreia da turnê Bluesman, que leva o nome do segundo disco do cantor baiano, aclamado pelo público e pela crítica. Assim como na estreia, os 2 000 ingressos do segundo show esgotaram-se em 24 horas. Aos 23 anos, o cantor é, como ele mesmo se autodenomina, “a princesinha do sold old” – lê-se, o artista que enche as casas de show e esgota tíquetes por onde passa.

Considerado o melhor de 2018 por uma revista especializada em música, o álbum foi lançado apenas nas plataformas digitais e transformado em um produto audiovisual: um curta-metragem de oito minutos. Com roteiro assinado por Baco e outras oito pessoas, o filme, que soma mais de 1 milhão de visualizações no YouTube, narra poeticamente o dia de um jovem negro morador da periferia. Mas esse não é o vídeo mais famoso no canal do rapper. Maior sucesso de Baco Exu do Blues, Te Amo Desgraça já foi vistomais de 19 milhões de vezes. A faixa faz parte do primeiro disco do artista Esú, que rendeu indicações e prêmios, como o de artista revelação e melhor música (Te amo, Desgraça) do Prêmio Multishow de 2018. O hit, que fala de amor de forma direta e sensual, é tema dos personagens de Cauã Reymond e Maria Casadevall na minissérie Ilha de Ferro, da TV Globo.

Admirado por astros como Caetano Veloso e Lázaro Ramos, Baco surgiu para o grande público em 2016, com a música Sulicídio. De lá para cá, viu o cachê aumentar em 450% em relação ao que ele cobrava para se apresentar em festas de hip-hop da cena soteropolitana. Desde o lançamento de Esú, em 2017, o custo médio para contratar uma apresentação sua foi reajustado seis vezes para cima – nessa época ele ganhava cerca de 14.000 reais por show. “Ele traz a raiz afro-brasileira para a música dele. Além disso, coloca na mesa assuntos difíceis de discutir, como o racismo. E ele faz isso de forma muito clara. Quem ouve a música do Baco entende o recado que ele quer passar”, avalia Charles Gavin, ex-Titãs e pesquisador musical.

Filho de professores, Diogo Moncorvo, nome de batismo de Baco Exu do Blues, nasceu em Salvador, mas se mudou para Alagoinhas, a 124 quilômetros da capital baiana, ainda na infância. Aos 7 anos, perdeu o pai, que dava aulas de tai chi chuan, e foi morar com a família da mãe em Salvador. Lá, a rebeldia faria com que ele estudasse em dez escolas, repetisse de série algumas vezes e decidisse largar o colégio na 6ª série (atual 7º ano). A decepção com o ensino tradicional, no entanto, não o afastou dos estudos. Encantado por literatura, ele lia desde histórias em quadrinhos até os livros da mãe professora – a lista incluía Jorge Amado e Fiódor Dostoievski. “Nas escolas particulares onde estudei, era o único aluno negro e era constantemente sacaneado por ser diferente. Isso gerou em mim uma raiva que fez com que eu ficasse sempre na defensiva. Além disso, a escola nunca foi o lugar onde encontrei o conhecimento que buscava. Aprendia muito mais nos livros de minha mãe”, diz.

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Sem se encaixar no ambiente acadêmico, o então adolescente de 16 anos se dedicou à música e entrou no circuito do rap. Adotou como nome artístico a fusão de Baco (o deus romano do vinho e dos excessos), Exu (o mensageiro dos orixás) e Blues, o “primeiro ritmo a formar pretos ricos”, como diz na música de abertura Bluesman. “A arte me salvou de várias maneiras, desde crise financeira até servir como minha terapia e ajudar a melhorar minha saúde mental”, explica. Amigo pessoal de Baco e assessor de imprensa, Jorge Velloso o conheceu depois de um show do cantor. “Baco marcou uma reunião no dia seguinte às 9h30, em pleno verão baiano. Pensei: que rapper marcaria um encontro tão cedo? Esse cara quer mesmo trabalhar”, conta. Viciado em trabalho, como ele mesmo confessa, Baco chega a se reunir com a equipe na manhã seguinte aos shows para analisar os vídeos e discutir estratégias para melhorar a apresentação. “Todo mundo que trabalha com ele é muito engajado em dar o melhor para o público. E ele faz isso, ele motiva todo mundo para brilhar no palco e nos bastidores. O Baco é uma estrela de uma constelação que ele criou em volta”, explica Bibi Caetano, cantora, que divide a música Kanye West da Bahia com Baco e o grupo DKVPZ.

Leia a entrevista completa com o rapper:

Como foi sua infância e adolescência? Eu sou filho de uma professora de literatura e de um professor de tai chi chuan, nasci em Salvador e fui direto pra Alagoinhas. Morei lá quando era criança, mas, quando meu pai ficou doente voltei a morar em Salvador com a família da minha mãe. Vivi uma vida meio estranha na adolescência e passei por dez colégios. Não aconselho ninguém a sair da escola, mas decidi largar a escola porque não me enquadrava no método de ensino.

Quais foram suas dificuldades em se encaixar na escola? A escola particular quer te fazer entender as coisas até um limite, é uma redoma em que as pessoas querem controlar seu conhecimento. Já no ensino público, as pessoas não estão nem aí para você porque o pensamento é de que, naquela turma, um ou dois vai dar certo, então não há expectativa sobre aquele aluno. Eu sempre aprendi muito mais em casa, lendo os livros de minha mãe. Eu sempre quis muito conhecimento, mas a escola nunca foi o lugar que me oferecia isso – o conhecimento ensinado era o comum, e não o que me interessava.

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Como sua família reagiu? Nenhuma família quer ver um parente desacreditado da escola. Eu tinha muita raiva dentro de mim. O jovem negro brasileiro tem duas formas de reagir ao racismo que enfrenta só por ser negro em um país como o nosso. Você pode reagir abaixando a cabeça e fingindo que o racismo não existe, ou você pode não entender o que é o racismo e se indignar com tudo ao seu redor sem saber o porquê. No fundo você sabe, mas não quer acreditar que as pessoas olham para você achando que você tem menos valor que elas por ser negro. Quando você é adolescente, não quer admitir isso para você mesmo e isso acaba gerando raiva. Quando estudava em escola particular, eu era o único negro e sempre ouvia piada racista dizendo que negro era feio, então tudo isso fez com que eu ficasse numa eterna defensiva.

Em que momento a música entrou na sua vida? A arte te salvou de alguma maneira? A arte me salvou de várias maneiras, desde crise financeira até saúde mental. A arte me fez entender o que se passava comigo porque quando componho, é como se estivesse no divã conversando com outra pessoa. E tem uma hora que você passa tanto tempo se olhando e remexendo as feridas que vai se conhecendo. Demorou muito tempo para eu entender que estava falando comigo mesmo. Existe um receio de admitir as coisas ruins que você tem dentro de você, mas, quando você chega nesse momento e abraça os seus defeitos, entende que é um ser humano que erra e acerta.

Qual influência a Bahia exerceu na sua formação como músico? Se eu não tivesse nascido na Bahia, não seria metade do artista que sou hoje. Qualquer artista nordestino tem uma vida difícil porque é uma terra que pulsa arte, mas que não a valoriza. Então, por mais que gênios sejam criados lá, não se fomenta a arte como deveria. Ser artista e nordestino é ter noção de que é preciso trabalhar três vezes mais e, mesmo sendo três vezes melhor, não necessariamente ser reconhecido.

Qual a diferença entre o processo criativo de Esú e Bluesman? A grande diferença entre os dois discos é a raiva que eu emprego em cada um deles. No primeiro, eu ainda não sabia de onde vinha esse meu sentimento, e no segundo eu entendi por que veio. Eu nunca me coloquei na posição de artista mediano, sempre que parei para compor sabia que estava escrevendo algo de qualidade, só não tinha certeza da qualidade do ouvido do público. Hoje em dia a gente tem um público que quer que você entregue um trabalho como eles esperam, mas eu não faço nada porque alguém quer que eu faça. Eu faço o que quero fazer.

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Como está sua saúde mental? Eu tive crises fortes de depressão neste ano, e foi quando decidi que deveria procurar tratamento. Antes minha música era minha terapia. Mesmo sabendo a importância de me consultar com um psicólogo e psiquiatra, meu ego me impedia de procurar ajuda. Mas hoje eu entendo que é preciso dar esse passo. Mas a música continua me ajudando porque eu escrevo quando estou triste, isso me faz colocar aquele sentimento para fora e conseguir vê-lo de um outro jeito.

Por que você acha que suas músicas fazem tanto sucesso? Uma vez li no livro Cartas a um Jovem Poeta, do Rainer Maria Rilke, que é preciso escrever o que ninguém está escrevendo, o que as pessoas não têm coragem de falar para os outros. Para ser um bom escritor é preciso colocar o ego de lado e entregar cruamente o que você é, que é diferente de todo mundo, mas que tem medos e qualidades parecidos. Quem ouve minhas músicas, principalmente o jovem negro, entende as minhas dores porque, muitas vezes, são as dores dele também. A pessoa que tem ansiedade, bipolaridade ou depressão vai se identificar com a letra.

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