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“Não estou mais sozinha”

A física Sonia Guimarães, 68 anos, celebra o recorde de inscrições de alunos negros no ITA, pelo qual tanto lutou

Por Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 fev 2026, 08h00 •
  • Quando entrei no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1993, não havia uma única estudante mulher. Negras no quadro de professoras, então, nem pensar. Era um tempo em que gente como eu estava limpando o chão no campus e não dava aula, orientava pesquisas nem assinava patentes. Cheguei antes de todo o avanço que agora vemos: antes das cotas, da presença feminina e antes de o ITA se ver no espelho e reconhecer quem eram os que excluía. Passadas três décadas, posso hoje comemorar um recorde histórico que acabamos de bater — nunca houve tantas inscrições de gente tentando ingressar ali via cotas raciais. É incrível. Um resultado que não surgiu do nada: tem história, corpo e rosto e o esforço cotidiano, no qual me incluo, para mostrar a jovens negros que eles podem, e devem, ocupar espaços prestigiados.

    Sou filha de um tapeceiro e de uma comerciante e fui a primeira da família a entrar em uma universidade, depois de frequentar uma boa escola pública de São Paulo. Meus pais nunca entenderam exatamente o que eu fazia, mas sempre me apoiaram, o que foi decisivo. Estudei na Universidade Federal de São Carlos, fiz mestrado e atravessei o oceano para continuar os estudos em física na Universidade de Manchester, na Inglaterra, alcançando um ineditismo: me tornei a primeira negra brasileira com um doutorado na área. Tenho dedicado minha vida aos semicondutores, materiais invisíveis, mas que são vitais para celulares, computadores e sistemas de defesa. Em 2020, registrei uma patente para uma técnica de produção de sensores usados em mísseis de aviões de guerra. Tenho orgulho de ser cientista e inventora. E faço tudo isso em um ambiente que continua majoritariamente branco e masculino.

    Sempre fui daquelas que incomodavam: pelo cabelo, pelas roupas, pela gargalhada alta. Não mudei para galgar posições. Recentemente, uma dessas avaliações acadêmicas de fim de semestre, feita por alunos e professores, dizia que meu vestuário chama atenção demais. Não me importo. Meu foco é no currículo, no que adiciono à academia. Mas o episódio ajuda a entender como a ciência brasileira ainda reage quando uma mulher negra não se comporta como esperado. Hoje, tenho certeza de que a dificuldade de acesso de pessoas como eu a instituições de excelência como o ITA não se explica pela falta de talento, mas por um racismo estrutural somado à educação básica deficiente, que reduz drasticamente as chances de voo alto. Muitos desistem da faculdade ao levar a primeira bomba em cálculo. Outros nem tentam.

    Por tudo isso, decidi cedo que minha vida no ITA jamais seria silenciosa. Se eu estava ali, era para puxar outros comigo. Todos os anos, abro as portas da instituição para adolescentes de colégios públicos que nunca imaginaram pisar lá. Levo essa molecada aos laboratórios, faço meus alunos darem aulas, apresento o campus, os professores, os espaços onde a ciência acontece. Também vou até eles, com palestras. A recompensa vem na forma de histórias como a de um menino negro que escolheu cursar física após uma aula minha e chegou à pós-graduação. Digo sempre que estou abrindo uma porta e que nunca será fácil. A trajetória de cada um depende de esforço e talento. Em 2023, recebi a medalha Santos Dumont de honra ao mérito pelos meus trinta anos de ITA. O ambiente continua difícil, não romantizo, e sei que não agrado a todos, embora haja quem me veja como referência. É por essas pessoas que sigo firme. O recorde de inscrições de estudantes negros no vestibular não é o ponto de chegada, mas de partida. É também um claro sinal de que está caindo a ficha de que excelência não combina com exclusão. Eu cheguei antes. Agora, não estou mais sozinha.

    Sonia Guimarães em depoimento a Amanda Péchy

    Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982

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