A única nota 1.000 na redação do Enem em São Paulo revela como chegou lá
"Deixei as redes sociais de lado e estudei muito", diz Sabrina Shimizu, 18 anos

Eu tinha acordado tarde, depois de sair com os amigos na noite anterior, algo que não fazia muito no período de estudos. Todo mundo em casa estava ansioso, perguntando se já sabia o resultado, mas quis ver a nota sozinha. Entrei no site do Inep, que demorou para abrir. Logo imaginei que muitos outros alunos faziam a mesma coisa. Olhei, olhei, e vi a nota 1 000 na redação. Nota 1 000! Não acreditei. Só podia ser mentira, uma pegadinha do pessoal de Araçatuba, onde moro. Saí do site, entrei de novo, e a nota continuava lá: 1 000! Era verdade, acabei por ter certeza. Saí correndo, tremendo e chorando, para comemorar com a família. Mandei a notícia por WhatsApp para amigos e professores que me ajudaram muito ao longo de todo o processo.
Tinha valido a pena. Quando fiz a prova, em dezembro, fiquei feliz comigo mesma. É difícil sair de um vestibular e dizer “nossa, arrasei!”, mas eu estava satisfeita por ter ficado tranquila e ter tido um bom desempenho. A gente sonha muito com a chance de conseguir nota máxima na redação, de entregar um texto sem erros. Quando a nota vem, é até difícil de acreditar. Mas me esforcei muito, muito mesmo. Desde que entrei na Escola Thathi, do grupo SEB, de Araçatuba, no primeiro ano do Ensino Médio, comecei uma rotina mais séria de estudos, que foi se intensificando nos anos seguintes. Assistia às aulas no período da manhã e depois ficava na escola à tarde para praticar o que havia aprendido mais cedo. Também aumentei a quantidade de redações. No terceiro ano, fazia uma por semana, sempre com a ajuda da professora Sthéfani Jorge Silva, que discutia os temas, dava dicas e nos ajudava sempre.
Meu sonho é estudar engenharia de produção. Então foquei em física, química e matemática, além da redação, claro. Aos sábados, fazia os simulados de vários vestibulares, incluindo Enem, Fuvest, Unicamp. Li bastante, não só as obras obrigatórias, mas também outros livros.
Acredite: também deixei as redes sociais de lado. Apaguei minha conta no TikTok. Escondi o Instagram, mas mantive a conta para de vez em quando acompanhar os conteúdos relacionados às provas. Separei os ambientes. Ficava muito tempo na escola, estudando todos os dias até 18 horas, 19 horas. Em casa, com a sensação de dever cumprido, aproveitava para descansar. Assistia a muitos filmes e séries. Amo os doramas e as produções asiáticas, principalmente japonesas e coreanas. Tanto que usei duas referências de séries coreanas na redação que fiz para o Enem no segundo ano, em 2023, como treineira — e fiz 940 pontos! No ano anterior, tirei 920. Na época, disseram que eu seria a primeira aluna nota 1 000 da escola. Pensar nisso agora é até engraçado. Consegui!
Se eu tiver que dar alguns conselhos para os vestibulandos, diria o seguinte: é fundamental ter constância, escrever redações toda semana, se possível. Só assim você desenvolve a técnica de escrita. Outra dica é não se matar para decorar uma lista de citações só porque parecem rebuscadas, chiques ou bonitas. Cada um precisa construir seu repertório. Eu descobri alguns pensadores que me atraíram, como Marilena Chaui, Ailton Krenak e o sul-coreano Byung-Chul Han. Mas também filmes e séries. Insisto: o bom é escrever com sinceridade e gosto, não basta apenas encher linguiça. E, por fim, é preciso manter a esperança e se apegar a um objetivo, como em tudo na vida. Sempre que eu estava desanimada ou cansada, assistia a um vídeo feito em homenagem aos 131 anos da Poli, a Escola Politécnica da USP. Lembro até agora da música, das cenas, e pensava que queria mesmo viver aquilo. Foi difícil chegar aonde cheguei, deixei muita coisa de lado, mas tudo ótimo. Fiz o que fiz em nome de um sonho, já parcialmente realizado.
Sabrina Shimizu em depoimento a André Sollitto
Publicado em VEJA de 24 de janeiro de 2025, edição nº 2928